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sábado, 20 de dezembro de 2025

Erico Veríssimo

 

          Avanço na leitura da saga de Érico Veríssimo, O tempo e o vento. Dele conhecia Ana Terra e Incidentes em Antares. Obras impecáveis, resultantes de um toque de refinada concepção de desenvolvimento de intriga e de linguagem. Impressiona o domínio da técnica narrativa, além do equilíbrio entre a realidade objetiva, ancorada na pesquisa histórica e os dosados voos de uma imaginação especial, privilegiada. A atmosfera humana da história perpassa todas as páginas, numa elaboração ficcional em que tudo é grandioso, atávico, telúrico. A narrativa é linear e progressiva: tem um início, avança no tempo, registrando os eventos do passado e projetando reflexos do que pode vir a suceder. A presença do capitão Rodrigo vai aos poucos impregnando os acontecimentos de uma lufada heroica, épica. Em suas longas conversas com o pe. Lara, em que são discutidos temas ligados à trama e à condição humana, extravasa o forte condicionamento do amante de guerras, seu perfil de combatente, para quem participar de batalhas constitui um entretenimento. Guerra para ele se revela como prática de homem, extensão de masculinidade. "Uma vez que outra, nos verões muito quentes, ele tinha a impressão de ver o  tempo parado sobre os telhados e campos em derredor, como que imobilizado pelo mormaço - moscardos zumbiam e voavam no tempo estagnado. (...) Mas na maioria dos dias o tempo voava como o vento" (VERÍSSIMO, 2013, 51-52).

            Cibele Imaculada da Silva estuda o projeto ficcional do autor, preocupado em desenvolver os fios narrativos da construção de uma identidade nacional, através de um protagonista valente e idealista que encarna o sonho coletivo de defesa do território em batalhas de fronteira.

            “Na imagem de homem que a obra constrói, chama a atenção a valentia e as demonstrações de força, coragem e masculinidade. Os homens que habitam o universo dos descendentes do Capitão Rodrigo chegam a considerar a participação numa luta ou guerra uma prova de virilidade e solução para tudo” (SILVA, 2005, 51).

            A figura surpreendente do capitão Rodrigo - os traços físicos, a rebeldia, a coragem e a atração exacerbada por mulheres, com as quais se relacionava movido por uma certa safadeza - retorna ao longo da saga, recortada por amigos e conhecidos. A insistência em descrevê-lo e recordar suas facetas o transforma em motivo e personagem lendário. Para o discreto Juvenal, irmão de Bibiana, o cunhado fora um homem exemplar: "eu gostava do cap. Rodrigo. Achava que ele era valente, engraçado, um bom companheiro pra tudo" (VERÍSSIMO, 2013, 388). moldura machista avulta nos comentários e posturas do protagonista, como nesta passagem em que brinca com o filho recém-nascido, Bolívar: “Quando ele tiver quatorze anos, quem vai procurar mulher pra ele sou eu. (...) E se me sair mariscas, atiro ele no primeiro perau que encontrar no caminho” (VERÍSSIMO, 2013, 158). Nesse aspecto, o Capitão Rodrigo revela-se representante da visão de mundo do contexto, o que atenua a nódoa no tratamento da diversidade de gênero.

 

SILVA, Cibele Imaculada da. Erico Veríssimo: ficção e história ao sabor do tempo e do vento. Belo Horizonte: Ed. Newton Paiva, 2005.

VERÍSSIMO, Erico. O Continente I e II. São Paulo: Companhia das letras, 2013.










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