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sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Simon Schwartzman,

 

       Simon Schwartzman, sociólogo formado pela UFMG, com doutorado em Berkeley, empreende, em Falso mineiro, uma reflexão sobre o desenvolvimento das pesquisas produzidas no campo das ciências políticas no Brasil. Intelectual forjado numa alargada experiência, adquirida em diversos centros de cultura, da América Latina aos EUA e à Europa, Simon Schwartzman presidiu o IBGE de 1994 a 1998, trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Iuperj (Instituto de Pesquisas em Ciências Sociais no RJ) e na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

       Pode-se dizer que o livro corresponde ao esforço de organizar as ideias subjacentes à evolução das ciências políticas no país. A tese desenvolvida em Bekerley, publicada sob o título de Bases do autoritarismo brasileiro (2015), almeja esmiuçar os componentes conservadores da evolução dos ideais progressistas. Descendente de judeus, o autor faz questão de compreender o próprio percurso, a partir da origem étnica: “Faz parte de minha identidade, e tenho alguns valores arraigados que com certeza vêm daí, como o horror ao fascismo e ao racismo, e a crença na liberdade, na democracia e no poder do conhecimento e da razão como os melhores instrumentos para lidar com os conflitos e as questões sociais” (Schwartzman, 2021, l6). Discutindo os conceitos alinhados à política, o autor registra o esforço para suplantar posturas convencionais e empobrecidas imbricadas ao entendimento da matéria. “Mais tarde fui entendendo e tratando de mostrar, em escritos diversos, que, sim, a política é um campo de disputa de interesses, mas é muito mais que isso. É também, quando funciona de maneira adequada no regime democrático, um espaço de convivência e de formação de consensos que reduzem o nível de conflitos e permitem o desenvolvimento de políticas públicas que atendam ao bem comum” (Schwartzman, 2021, 17). No cap. III, “Pelo Mundo”, acompanhamos a expansão do conhecimento, a busca do saber em universidades estrangeiras e o início da atuação professoral, no Chile, na Argentina, em Oslo e em Berkeley, altura em que avalia a presença de brasileiros nos Estados Unidos e sua relação com a Fundação Ford. Outros trabalhos do autor: A formação da comunidade científica no Brasil (1979); Ciência e tecnologia no Brasil (1995); Pobreza, Exclusão social e Modernidade – uma introdução ao mundo contemporâneo (2004); Ciência, Universidade e Ideologia – a política do conhecimento (2008); Políticas educacionais e coesão social (2009), com Cristián Cox; Brasil e a nova agenda social (2011), com Edmar Bacha.

       Ao revisitar os próprios trabalhos, publicados ao longo das últimas quatro décadas, emite parecer sobre aspectos teóricos, conexos e circunstanciais referentes à contribuição acadêmica. O autor postula que a ciência necessita de liberdade para se desenvolver com autonomia, capacitando-se a desenvolver universidades independentes. O objetivo sempre reativado põe em evidência a necessidade de se estabelecer uma ponte entre a sociologia e a economia. “A democracia é uma planta frágil e preciosa que precisa ser constantemente protegida e alimentada e que depende, para se manter, da existência de instituições sólidas e socialmente valorizadas no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. A história brasileira mostra que nossas instituições democráticas são mais disformes e precárias que seria desejável. Isso não deve ser uma razão para jogá-las fora, como pretendem os autoritários de esquerda e de direita, e sim para melhorá-las” (Schwartzman, 2021, 17-18).

       Simon Schwartzman enumera as dificuldades enfrentadas pelo pesquisador, o esforço de alcançar financiamento a projetos, o êxodo de cientistas, as imbricações ideológicas de grandes instituições de fomento, o risco de se submeter o cientista a engajamentos suspeitos. Se é usual o descrédito votado pelos sociólogos à literatura, ou àqueles que a ela se dedicam, o avesso não é de se estranhar. O tom apologético, o auto elogio comparecem em algumas páginas. Mas não deixa de surpreender o rigor científico que fundamenta grande parte das análises. O autor critica nomes consagrados da cultura nacional, ao referir a “obra monótona” de Florestan Fernandes e “a pobreza da interpretação” e a “interpretação marxista rasa” presentes em trabalhos de Antonio Candido.

       Acompanha de perto o desenvolvimento das pesquisas realizadas no Brasil. Avalia os progressos e dificuldades dos últimos governos, o fracasso do Fome Zero, o Bolsa Família e seus sucedâneos. Discute a modernização administrativa do governo FHC, as conquistas do Plano Real perante a inflação, o papel das estatísticas públicas. Prega maior protagonismo das universidades no âmbito das inovações em pesquisa. Vê no governo o agente primordial no desenvolvimento científico e tecnológico, contanto que deixe de ser mero financiador da oferta de pesquisa e assuma o papel de usuário e solicitador de conhecimento científico. Não estão ausentes, nos últimos capítulos, temas candentes do nosso contexto, desde as tendências fascistas de setores do atual governo brasileiro, as conquistas da democracia, a questão racial e a educacional, a importância da razão científica como ferramenta para o aperfeiçoamento das políticas sociais.


Schwartzman, Simon. Falso mineiro: memórias da política, ciência, educação e sociedade. Rio de Janeiro: História Real, 2011.