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terça-feira, 2 de junho de 2020

Quarteto perplexo


Sob os estilhaços da luz extinta


       Com data de 2016, Às escuras (edição 100 Cabeças), constitui projeto coletivo, agregando José Amaro Dionísio, Hélder Moura Pereira, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins, com hors-texte de Ricardo Castro. Dada a natureza múltipla do livro, a singularidade de aliar dois poetas (os dois do meio) e dois ficcionistas (os da ponta), pela abrangência de motivos e recursos, resulta num expressivo recorte de um diálogo a quatro vozes. Se nos aplicarmos a tentar compreender a sequência dos textos, não demandaria grande esforço a constatação de algumas identidades temáticas. Por mais que o estro de Moura Pereira insista em qualificar o poeta como um sujeito com um “ar um pouco aéreo”, aplicado a escrever “inutilmente”, o título revela-se um índice emblemático da perplexidade, falta de rumos e certa obscuridade que permeiam algumas passagens, como esta, escrita a cal, por José Amaro Dionísio: “Não sabemos o que somos, e morremos disso”, no início, em “Sem regresso”.

      Munido de uma lâmpada, explícita na imagem da capa, o leitor lança-se na aventura de acompanhar o percurso de vozes tão díspares, até se dar conta de que tem diante de si registros de um refinado caleidoscópio, estruturado em imagens, algumas a “9 mm”, como as creditadas na primeira seleção textual, de forte ressonância cinematográfica, sob os cuidados do primeiro autor assinalado. A referência à cidade, o espaço para onde se dirigem os indivíduos de um “país tão pobre”, no afã de explicitar uma “nudez que ocultam”serve de guia. A dimensão urbana vai recobrir inúmeras páginas, como sugestão de uma vertente de leitura que privilegia não o discurso retórico alicerçado em metáforas, mas na vertente de um conhecimento que procede de desdobramentos metonímicos que se alternam: país/ cidade/ rua/ bar/ quarto/ cama. O livro potencializa, de forma difusa, as marcas em geral atribuídas à cidade: a convivência, a demanda amorosa, o fascínio dos jogos, as vicissitudes do cotidiano, a função da arte.
       Se de tragédia grega tratássemos, em vertente ortodoxa, diríamos que a cidade desempenha aqui uma função análoga à do coro. Aquela ocupada em repisar os arautos fundamentais do destino, plasmados em breves chamadas, que se vão sucedendo: “As pessoas da casa tropeçavam/ nos objectos conhecidos”, como se assinala no primeiro registro da segunda série, denominada “Uma enorme vontade de partir isto tudo”, por conta de Hélder Moura Pereira. Esvaziado, aturdido pela absurda carência de serventia das palavras, pautadas em decorrência de sentimentos exacerbados, (“Já houve, sim,/ já houve, palavras sentimentais/ a propósito de tudo e nada”), o sujeito vê-se impelido a abandonar a insegurança da casa: “E como as palavras estavam um pouco/ desgastadas pelo uso, criaste silêncios/ cuja intensidade, em ricochete nas paredes/ e na minha cabeça, me fez sair do descampado/ da casa para o descampado da rua”. A cidade, no entanto, pouco tem a oferecer, a não ser por vezes “vender frases enlatadas”. O desencanto amoroso encarrega-se de toldar ainda mais as aparências e os lugares: “Já não há ninguém, é/ um deserto, é uma cidade deserta”. O lamento cumpre o papel de tentar construir uma justificativa minimamente aceitável: “… há realmente cidades que só fazem/ sentido com uma história de amor/ lá dentro”. Outras derivas apresentam-se, como formas de preencher lacunas insanáveis: “Fui a um bar beber um pouco/ por acaso era irlandês, ali ao cais/ do sodré”.
       Os nichos espaciais da cidade surgem carregados de objetos desprovidos de sentido, os costumes mostram-se baralhados por mudanças que afetam as pessoas, os eventos da história: “a caravela foi-se/ é preciso soletrar de outro modo/ outras letras costumes avançados/ sobremaneira números/ sabe minha senhora agora/ o que é ser escravo”, como lemos em “Viva Lisboa”, de Fátima Maldonado. Desfeitas as ilusões construtivas, os fluxos afetivos e as pulsões, restam empanados de sombras, por sinal, reverberando a única voz assinalada pelos estilhaços da “tenebrosa luz” de um voo poético desatinado: “Na quente doçura a que obrigam os lençóis/ a perna soa como fruta vencida”
       A mudança de registro (do poema ao fragmento de ficção) acarreta um mergulho no lado pragmático das coisas que costumam estar coladas às histórias. Com uma pequena agravante metodológica, no caso: discutir a existência de Deus, tendo por fundamento um prólogo banal, em postura de preâmbulo, a tensão experimentada no contato com uns tornozelos bem feitos: “redondos, aguçados”. O minucioso conhecimento de um corpo de mulher. Sem deixar de acentuar que os relatos contemporâneos jamais abdicam de encaixes complexos, típicos das narrativas pop, ainda que centradas em proclamado recorte em torno de um mero confronto entre um homem mediano e uma mulher flagrada ao mesmo tempo em sua representação física e no seu simulacro escrito. Com as pequenas insinuações de tragédia, de desfechos bizarros e as inescapáveis máscaras de que se servem os narradores intempestivos, como Fernando Cabral Martins se revela nos dois relatos.

DIONÍSIO, José Amaro et alii. Às escuras. Lisboa: 100 Cabeças, 1916.