Sob os estilhaços
da luz extinta
Com
data de 2016, Às escuras
(edição 100 Cabeças), constitui projeto coletivo, agregando José
Amaro Dionísio, Hélder Moura Pereira, Fátima Maldonado e Fernando
Cabral Martins, com hors-texte
de Ricardo Castro. Dada a natureza múltipla do livro, a
singularidade de aliar dois
poetas (os dois do meio)
e dois
ficcionistas
(os da ponta),
pela abrangência de motivos e recursos, resulta num expressivo
recorte de um diálogo a quatro vozes. Se nos aplicarmos a tentar
compreender a sequência dos textos, não
demandaria grande esforço a constatação de algumas identidades
temáticas. Por mais que o estro de Moura Pereira insista em
qualificar o poeta como um sujeito com um “ar um pouco aéreo”,
aplicado a escrever “inutilmente”, o título revela-se um índice
emblemático da perplexidade, falta de rumos e certa obscuridade que
permeiam algumas
passagens, como esta, escrita a cal, por José Amaro Dionísio: “Não
sabemos o que somos, e morremos disso”, no início, em “Sem
regresso”.
Munido
de uma lâmpada, explícita na imagem da capa, o leitor lança-se na
aventura de acompanhar o percurso de vozes tão díspares, até se
dar conta de que tem diante de si registros de um refinado
caleidoscópio,
estruturado em imagens, algumas a “9 mm”, como
as creditadas na primeira
seleção textual, de forte ressonância cinematográfica, sob
os cuidados do primeiro autor assinalado.
A
referência à cidade, o espaço para onde se dirigem os indivíduos
de um “país tão pobre”, no afã de explicitar uma “nudez que
ocultam”serve de guia.
A dimensão urbana vai recobrir inúmeras páginas, como sugestão de
uma vertente de leitura que privilegia não o discurso retórico
alicerçado em metáforas, mas na
vertente de um conhecimento que procede de desdobramentos metonímicos
que se alternam: país/
cidade/ rua/
bar/ quarto/ cama. O livro potencializa, de forma difusa, as marcas
em geral atribuídas à cidade: a convivência, a demanda
amorosa, o fascínio dos jogos, as vicissitudes do cotidiano, a
função da arte.
Se
de tragédia grega tratássemos, em vertente ortodoxa, diríamos que
a cidade desempenha aqui uma
função análoga à do coro.
Aquela
ocupada em repisar
os arautos fundamentais do
destino, plasmados
em breves chamadas, que se vão sucedendo: “As pessoas da casa
tropeçavam/ nos objectos conhecidos”, como se assinala no primeiro
registro da segunda série,
denominada “Uma enorme
vontade de partir isto tudo”, por conta de Hélder Moura Pereira.
Esvaziado, aturdido pela
absurda carência de serventia das palavras, pautadas
em decorrência de sentimentos exacerbados, (“Já houve, sim,/ já
houve, palavras sentimentais/ a propósito de tudo e nada”), o
sujeito vê-se impelido a abandonar a insegurança da casa: “E
como as palavras estavam um pouco/ desgastadas pelo uso, criaste
silêncios/ cuja intensidade, em ricochete nas paredes/ e na minha
cabeça, me fez sair do descampado/ da casa para o descampado da
rua”. A cidade, no entanto,
pouco tem a oferecer, a não ser por vezes “vender frases
enlatadas”. O desencanto
amoroso encarrega-se de toldar ainda mais as aparências e os
lugares: “Já não há ninguém, é/ um deserto, é uma cidade
deserta”. O lamento cumpre o papel de tentar construir uma
justificativa minimamente aceitável: “… há realmente cidades
que só fazem/ sentido com uma história de amor/ lá dentro”. Outras derivas apresentam-se, como formas de preencher lacunas
insanáveis: “Fui a um bar beber um pouco/ por acaso era irlandês,
ali ao cais/ do sodré”.
Os
nichos espaciais da cidade surgem carregados de objetos desprovidos
de sentido, os costumes mostram-se baralhados por
mudanças que afetam as pessoas, os eventos
da história: “a caravela foi-se/ é preciso soletrar de outro
modo/ outras letras costumes avançados/ sobremaneira números/ sabe
minha senhora agora/ o que é ser escravo”, como
lemos em “Viva Lisboa”,
de Fátima Maldonado. Desfeitas
as ilusões construtivas, os fluxos afetivos e as pulsões, restam
empanados de sombras, por sinal, reverberando a única voz
assinalada pelos
estilhaços da “tenebrosa luz” de um voo poético desatinado:
“Na quente doçura a que obrigam os lençóis/ a perna soa como
fruta vencida”
A
mudança de registro (do poema ao fragmento de ficção) acarreta um
mergulho no lado pragmático das coisas que costumam estar coladas às
histórias. Com uma pequena agravante metodológica, no caso:
discutir a existência de Deus, tendo por fundamento um prólogo
banal, em postura de preâmbulo, a tensão experimentada no contato
com uns tornozelos bem feitos: “redondos, aguçados”. O minucioso
conhecimento de um corpo de mulher. Sem deixar de acentuar que os
relatos contemporâneos jamais abdicam de encaixes complexos, típicos
das narrativas pop, ainda que centradas em proclamado recorte em
torno de um mero confronto entre um homem mediano e uma
mulher flagrada ao mesmo
tempo em sua representação
física e no seu simulacro escrito. Com as pequenas insinuações de
tragédia, de desfechos bizarros e as inescapáveis máscaras de que
se servem os narradores intempestivos, como Fernando Cabral Martins
se revela
nos dois relatos.
DIONÍSIO,
José Amaro et alii. Às escuras. Lisboa:
100 Cabeças, 1916.
