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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Aluísio Azevedo Júnior

  

      Uma espessura autoritária recobre o narrador, simultaneamente agente e paciente do ato de narrar. A todo instante conquistado. A história fica refém desse narrador onipresente, controlador de estrutura, personagens e digressões: "Nesta narrativa, há laços que não se desamarram, nunca" (Azevedo Jr., 2020, 80). Não à toa, trata-se de um juiz de direito, habituado ao hábito de julgar e punir, envolvido afetivamente com um delegado em relação tumultuada. Poucos recursos narrativos mantêm a submissão ao ritmo em ziguezague em que o relato se desenvolve, as cenas intercalam-se de jeito artificial, numa visão maniqueísta, em que ao mendigo resta um tratamento depreciativo, misturado a compaixão.O contraditório, os desvios, a nódoa da miséria e do que foge à normalidade lutam por se expressar. Os aparelhos de controle multiplicam-se. O peso difuso de uma culpa sufoca o narrador. Contorce-o, derruba-o, pisoteia seu corpo.Uma dor obscura, vinda da miséria aliada à violência, perpassa o percurso das pessoas. Remorsos vagueiam, braços dados a rompantes de um poder jurídico pouco acessível, atravessado de ambiguidade, constantemente questionado e ameaçado.  O apelo ao misticismo costura uma tosca analogia entre o humano e o divino.

       "Alfredo desiste, provisoriamente, de repreender, mais uma vez, o pobre subalterno social. Não consegue ou não quer depreender da sua fala algum traço de deboche. Dispõe de várias cartas na manga, para fazer praticamente o que quiser com esse desgraçado. Inclusive com a minha ajuda. A nossa parceria sempre foi irrestrita; delegado e juiz, em condução implícita. Combinávamos quase todas as operações especiais, em nossos grupos de trabalho com o ministério público. Comunhão total do mesmo mecanismo. Conseguimos conformar uma eficiente máquina de moer criminosos" (Azevedo Jr., 2020, 57-58).

       Enigmas (alguns) que se esboçam: o equilíbrio entre a tradição e a modernidade, o lugar tenso do feminino, o fundo de religiosidade presente nas reações sociais, a clandestinidade da relação homoerótica, a manipulação do poder jurídico, a fronteira entre a violência e a sobrevivência, o controle das rebeliões sociais. Apesar da excessiva presença do narrador, trata-se de um belo romance, arquitetado num recorte alegórico, vertido numa linguagem inspirada, sugestiva e plástica.Com semelhante densidade poética, a obra-rima de Jorge de Lima, Invenção de Orfeu. 


AZEVEDO JR., Aluísio. Raios de Sal. Natal: Unilivreira, 2020.