O presidente russo mantém a escalada de violência e agressão contra a Ucrânia, atacando e destruindo cidades, comandando o avanço de tropas em direção à capital, Kiev. O povo ucraniano tem resistido bravamente, mesmo em situação desproporcional, frente ao avassalador e gigantesco poderio bélico russo. As imagens da guerra são devastadoras, prédios em chamas, mísseis explodindo, pessoas fugindo e chorando diante do massacre. O pânico é justificável, diante da possibilidade de uso de armamento atômico.
Transcrevo, a seguir, trechos do artigo de João Gabriel de Lima, "Putin, o Convidado de Pedra", publicado na edição de hoje de O Estado de São Paulo.
"A melhor definição de Vladimir Putin foi dada por Angela Merkel, a ex-chanceler alemã. Segundo ela, o presidente russo é um líder do século 19 agindo no século 21, um nacionalista disposto a anexar Estados soberanos numa era de direito internacional e globalização. Merkel conhece bem Putin. Visitaram-se várias vezes enquanto coincidiram no poder, e conversavam sem intérprete – um é fluente na língua do outro. Merkel nasceu na Alemanha Oriental. Escapou de um totalitarismo para liderar informalmente a União Europeia, um clube de democracias. Putin é um nostálgico da Rússia totalitária, mais a czarista que a comunista. Merkel era frequentemente dura com Putin. Ele respondia ora com flores, ora soltando na sala seu labrador Koni. Merkel tinha medo de cães, mas não demonstrava na frente de Putin. E colocava os galanteios machistas na conta do século 19.
(...)
O problema de viver no passado é que o presente cobra a conta. Os cidadãos ucranianos – pesquisas acadêmicas já haviam sinalizado – não se sentem num quintal de Moscou. A resistência à invasão tem sido maior do que Putin esperava. Enquanto isso, sanções internacionais provocam estragos na economia russa, expondo o que talvez seja um erro de cálculo do homem do século 19. Idolatrado pela extrema direita que assedia a imprensa, Putin deu ordem para que os jornais de seu país não usassem as palavras “guerra” e “invasão”. O russo Dmitry Muratov, editor da Novaya Gazeta e vencedor do Nobel da Paz, afirmou em entrevista à The New Yorker que vai chamar “guerra” de “guerra”, desafiando a censura do autocrata. A condenação quase unânime a Putin, da esquerda democrática à direita liberal, foi uma reação do século 21 contra o século 19. Como o Convidado de Pedra da ópera Don Giovanni, Putin é uma estátua do passado a assombrar o presente – daquelas que acabamos por destruir, quando os ventos da História mudam de direção".
João Gabriel de Lima. ESCRITOR, Estado de São Paulo, 5 de março de 2022.
Imagem: agazeta.com.br)