Usos e abusos de linguagem
Existem alguns hábitos de linguagem, usados por quase todos, que acabam se tornando parentes de lugares comuns, até se tornarem de todo desprovidos de sentido ou contíguos a vícios linguísticos. São expressões que se transferem de professores a alunos, de idosos a jovens. Refiro-me à popularidade gaiata de alguns vocábulos, usados indiscriminadamente por gregos e troianos (perdoem o uso), sem critério algum. Um desses léxicos é inexorável, adjetivo usado de preferência em frase de efeito ou de recorte cabalístico. Quem nunca disse (ou pensou) coisa assim: “o inferno é o castigo inexorável dos que praticam o mal”? Alguém, por acaso, já usou o contrário: o adjetivo exorável? De acordo com o Aurélio, exorável o que cede às súplicas, que se compadece.
Anoto a seguir curiosidades diversas. O poeta modernista Manuel Bandeira disse que Augusto dos Anjos era “poeta para soldado de polícia”. Foi a maneira que encontrou para registrar a “surpreendente popularidade” do poeta, tenta explicar Gilberto Freire. Bons tempos em que os soldados liam poetas de qualidade. (Cf. artigo de Gilberto Freire. Colóquio-letras, 121/122, 1991)
Muitas vezes a originalidade do estilo decorre da agilidade em se usar o lugar comum, fazendo um jogo com o usual. Millôr Fernandes, que se considerava “professor de ciências ocultas e letras apagadas”, dizia: “Foram realizados inúmeros jantares para debater a fome do Nordeste”.
O ácido crítico literário Agripino Grieco assim se expressou, referindo-se ao prêmio Nobel dado a Gabriela Mistral. “Pensar que deram a Gabriela Mistral o mesmo prêmio conquistado por Anatole France, Tomas Mann, etc… é bastante desagradável. Gabriela Mistral é uma grande educadora. O prêmio Nobel não é o prêmio de virtude da Academia”.
“A única vantagem de se viver só é poder ir ao banheiro com a porta aberta”, advertia o cronista Antônio Maria.
(Imagem: Jornal da Paraíba)
