Morreu o escritor Manoel Lobato, em decorrência de complicações da covid-19. Mais um intelectual que perdemos, vítima desse vírus implacável. Farmacêutico, jornalista, ficcionista, cronista, Manoel Lobato nasceu em Açaraí e deixa muitos admiradores e amigos. Entre 1996 e 2005, foi cronista diário no jornal O tempo, tendo produzido em torno de umas três mil crônicas. Em entrevista a Júlio Assis (em 2005), reconhecia que seus temas prediletos versavam em torno de sexo, misticismo e loucura: "Sexo porque Freud já mostrou que tudo gira em torno dele. O misticismo é algo sempre instigante pelo impasse entre os que acreditam e os que não crêem; e loucura porque acho que ninguém é normal, pelo menos eu acho que não sou". Gostava de ser chamado de cronista, cultivava com prazer a convivência com leitores, através de cartas e telefonemas. Grande papo, amigo afetuoso, guardo boas recordações das conversas que entabulamos, na farmácia instalada na região boêmia da cidade, na rua Oiapoque, perto da Rodoviária. Prezava a elaboração dos textos, com grande conhecimento da linguagem escrita, resultado de sérios estudos efetuados quando internado no Colégio Evangélico de Alto Jequitibá. Publicou em torno de dezessete livros, entre contos, crônicas, novelas, romances e memórias, dentre os quais, destacam-se: as coletâneas de contos - Garrucha 44 (1961), Contos de agora (1970), Os outros são diferentes (1971), Flecha em repouso (1977), O Anjo e o Anticristo (1991); os romances Mentira dos limpos (1967), sua obra-prima, A verdadeira vida do Irmão Leovigildo (1976); as crônicas selecionadas de Conversa mole, vida dura (2008); as memórias de Cartas na mesa (2002). Numa das cartas que me enviou, assim me tratava, de forma hilária, fazendo graça com meu sobrenome: "Edgard Pereira das Rainhas..."
