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segunda-feira, 18 de junho de 2018

Erros de linguagem


      Devido ao hábito de corrigir os textos lidos, como professor de português por dilatados anos, irritam-me os erros de gramática. E eles têm brotado cada vez mais em jornais nos dias que correm. Ontem, numa inocente crônica, que nem é má, veiculada na grande imprensa, encontrei um erro de concordância verbal. Falando da importância da Copa em nossa vida, a cronista Ruth Manus escreveu: "...mas aqueles gritos de allez les bleus me tira do sério até hoje." (Estadão, 17/06/2018). Hoje, em breve nota sobre o apreço dos russos por sua história, em jornal mineiro, deparo a seguinte pérola, transgressora no item adequação vocabular: "...ao andar pelas ruas de qualquer cidade do país, em cujas praças se exibem oponentes estátuas..." (O tempo, Cad. Copa, p.14). Não seriam imponentes estátuas?



                                                        (Imagem: shopmasp.com.br)


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Vivaldi Moreira

     Livro do mês

      A rubrica acima não intenta indiciar obras máximas da cultura, colhe um título lido recentemente. Por algum motivo impôs-se entre outros igualmente disponíveis. Vivaldi Moreira (1912-2001) foi por muitos anos presidente da Academia Mineira de Letras, conhecida como “Casa de Vivaldi”, em reconhecimento à efetiva atuação cultural por ele exercida (a preservação da casa Borges da Costa, uma das mais belas do início do século em Belo Horizonte, a construção da sede da AML). Autor de um livro emblemático no memorialismo brasileiro, O menino da mata e seu cão piloto (1981), entre outros do gênero e este curioso Viagens, no qual por ora me debruço brevemente.


      Capitulei diante do estilo culto, límpido, refinado, algo retorcido, de Vivaldi Moreira. Relatar viagens realizadas por si só não motiva geralmente o leitor. Neste caso, o diferencial vai por conta do estilo elaborado e reflexivo. Antes de contar a viagem a Buenos Aires, o “bordejo pelo Prata”, o autor nos delicia com alguns comentários ambíguos, discutindo se vale a pena ou não continuar. “Rogo-vos, pois, perdoar-me se vos falo de coisas sabidas. Eu sei que todos as sabem. É que estou cheio, estou repleto de Rio da Prata” (MOREIRA, 1996, 28). E emenda, a seguir: “Paisagens, aspectos, sim, mas só ficam se houver reflexão sustentando o arcabouço. Descrever, só, é tarefa infantil” (MOREIRA, 1996, 45). Na sequência, já fomos fisgados e acompanhamos o périplo, ou bordejo, do autor por cidades da América do Sul, Buenos Aires, Montevidéo, e da Península Ibérica, as portuguesas Lisboa, Porto, Lamego, Alcobaça, Leiria, Évora, e as de Espanha, Madrid, Ávila, Salamanca. Os lugares visitados tornam-se pretextos para a digressão em torno de grandes vultos originários da região, acrescida de situações pitorescas, flagrantes colhidos do contato com a gente, os monumentos e a paisagem física. Tudo pontilhado por associações com um rico acervo de conhecimento adquirido em vasta leitura de clássicos. A fundamentar todo esse precioso arquivo, sólidas bases de cultura histórica, repassadas vez por outra por uma discreta pitada de poesia. “A Europa é uma re-visão, é um reconhecimento e não uma descoberta” (MOREIRA, 1996, 184). As notas de viagens misturam-se a páginas de diário, deitadas no papel por um homem maduro, marcado pelo desencanto, ilustrado e tocado desde jovem pela febre da escrita, em suma, “trôpegas reflexões de um pobre diabo que gastou sua vida procurando aprimorar a expressão verbal, para mitigar a dor de haver nascido” (MOREIRA, 1996, 180).


MOREIRA, Vivaldi. Viagens. Belo Horizonte: Edições Caraifas, 1996.

sábado, 26 de maio de 2018

O país que eu quero

      O Brasil que eu quero para o futuro. Com este nome, a Rede Globo de TV criou um programa que permite que os cidadãos verbalizem as aspirações em relação ao país desejado. E a resposta tem sido positiva. Muita gente participando. As pessoas não se afastam muito de algumas questões básicas - investimentos em educação, saúde, transporte, segurança, em geral nessa ordem de prioridade. Seguem depois apelos veementes contra a corrupção, contra o racismo, manifestações de respeito à diversidade, necessidade de ética na atividade política, incentivo ao trabalho rural. Questões ligadas à cultura têm menos interesse. Como se trata de intervenções espontâneas, diretas, voluntárias, algumas são interessantes, outras chegam a ter graça. Por mais que aceitemos as modulações e deslizes do registro coloquial, é penoso ouvir coisas assim: "Gostaria que tivesse menas corrupção...".  Menos corrupção não resolve. Corrupção não pode existir em escala alguma. A flexão do termo invariável só ratifica a necessidade de melhorias na educação. Esperamos que aconteçam.

                                                 (Imagem: Rede Globo de TV)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Philip Roth (1933-2018)

      Não li muita coisa de Philip Roth, escritor americano que morreu ontem, autor de vasta obra romanesca. Um livro e meio, para ser exato, o ácido Adeus, Columbus e O professor do desejo, (1977), de que gostei menos e nem terminei. Dos recentes comentários sobre  autor, destaco este: "Desde sua morte em Nova York ontem à noite, seu nome está na lista daqueles que nunca precisaram do Nobel para serem reconhecidos como os melhores, aqueles que serão para sempre imitados e reverenciados - lista que inclui Marcel Proust, James Joyce, Tolstói, Jorge Luis Borges ou Machado de Assis" ( Hélio Gurovitz) .

                                                (Imagem: veja.abril.com.br)

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Roberto Farias (1932-2018)

      Boa pedida para essas noites geladas de inverno: assistir ao clássico do cinema brasileiro, O assalto ao trem pagador, dirigido por Roberto Farias (1932-2018), recentemente falecido. Com elenco de primeira (Grande Otelo, Eliezer Gomes, Reginaldo Farias, Jorge Dória, Ruth de Souza, Luíza Maranhão), o filme, realizado em 1962, conta com realismo como a gangue comandada por Tião Medonho assalta o trem de pagamentos do Banco do Brasil, explodindo os trilhos com dinamite. Genial como documento da história nacional recente, tem como um dos pontos altos o conflito racial, culminando com o diálogo entre o favelado branco, Nilo (Reginaldo Farias), e o chefe do bando, interpretado por Eliezer Gomes. O diretor assinou outros bons filmes, como Pra frente, Brasil (1982) e a trilogia focada no cantor Roberto Carlos, iniciada com Roberto Carlos em ritmo de aventuras (1968).

                                               ( Imagem: Produção Herbert Richers)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Pedro Rogério Moreira

Livro do mês:

      Filho de Vivaldi Moreira (1912-2001), forte referência das letras em Minas Gerais (dinâmico presidente da AML, memorialista renomado, em O Menino da mata e o seu cão piloto), Pedro Rogério terá herdado do pai o gosto da leitura e o amor aos livros. Desse quadro, ainda que por desdobramentos difusos, se poderá dizer que o fator genético não foi rompido. Também integrante da Academia Mineira de Letras, tem-se destacado como ficcionista (Bela noite para voar) e memorialista, com mais de uma dezena de títulos, dentre os quais, Hidrografia sentimental, Jornal amoroso, Amor a Roma, e o mais recente, Diário da falsa cruz de Caravaca.


      Miscelânea de assuntos, irregular, o último título recolhe crônicas jornalísticas, registros autobiográficos e casos pitorescos, ocorridos na região amazônica, sendo alguns marcados pela fatalidade de acidentes que ceifaram a vida de pilotos. Recordações de companheiros desaparecidos, fixação de perfis humanos, instantâneos da rotina da redação um grande jornal misturam-se a casos de rios, igarapés, curimatãs, flagrados nas “perambeiras de Taguatinga” ou ao longo do rio Madeira, coalhado de borboletas amarelas.

A Amazônia leva a fama histórica de ser valhacouto de aproveitadores. Volta e meia aparece um sabichão para nos passar a manta. A região ainda está envolta num quê de mistério que conspira contra nossa inteligência e facilita os que tiram dela mau proveito. A literatura e o cinema ajudam muito a mistificação, quando falam de elos partidos e de eldorados” (MOREIRA, 2018, 150).

      O tom coloquial e a linguagem viva, colorida, eivada de expressões regionais, transferem aos relatos um halo de aventura partilhada e de calor humano. Referências à agenda “Pombo”, ao cigarro “Mistura Fina”, ao pente “Flamengo de bordas curvas” entrecruzam-se à cerveja “Malzbier”, ao perfume “Lancaster” e ao avião "Catalina, conhecido como pata-choca" dos ares. Dentre as evocações, numa perspectiva literária, avulta o registro de uma temporada inesquecível, no barco Carvajal, cruzando rios da região amazônica, em companhia do escritor Mário Palmério. O autor dos “célebres romances Vila dos Confins e O chapadão do bugre” discorre sobre a “recente expedição que empreendera ao rio Javari, lá onde Judas perdeu as botas”. Diversão garantida, entremeada de notas marotas, picantes, de  informes verdadeiros de uma região que suscita a curiosidade de milhares de pessoas, em todos os quadrantes.

MOREIRA, Pedro Rogério. Diário da falsa cruz de Caravaca. Brasília: Thesaurus, 2018.

domingo, 6 de maio de 2018

Arte e outros sistemas

      Em dias recentes, o escritor Paulo Coelho afirmou que o politicamente correto pode acabar com a literatura. Com toda a razão, o mago sabe das coisas. Poderia ter ampliado, pode acabar com a arte. A relação entre arte e moral sempre foi desastrosa. A arte atua numa esfera distanciada dos ditames e conceitos inerentes ao código moral. Sua aproximação com a política, também perniciosa, tem gerando monstrengos artísticos. Ou panfletos. 


                                                            ( Quadro de Palolo)

      Kiara, minha cachorra, é politicamente correta: quando sai para passear, não faz cocô na rua. A frase, até agora, é informativa. Se me detiver a analisar os motivos do fato, passo a fazer literatura. O que não é o caso.     
      A conclusão não significa que a arte seja necessariamente imoral. Amoral, talvez. Oscar Wilde afirmava que a moral sempre se deu bem com a opressão. Foi condenado, num processo odioso e hipócrita. Não confundir criação artística com criação de couve-flor. Poetas, escritores e artistas devem ser livres, para criar. Livres para viver. A previsibilidade, o bom mocismo, a boa intenção não são bons companheiros para a arte.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Literatura brasileira: os narradores preferidos

1. Machado de Assis - D. Casmurro
2. Raul Pompéia - O ateneu
3. Graciliano Ramos - São Bernardo
4. Lúcio Cardoso - O Desconhecido
5. Osman Lins - O fiel e a pedra
6. Erico Veríssimo - O Continente
7. Jorge Amado -  Tenda dos milagres
8. Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas
9. Clarice Lispector - A hora da estrela
10. Antônio Olinto - A casa da água






quinta-feira, 12 de abril de 2018

Massaud Moisés (1928-2018)

      Registro, com pesar, o falecimento ontem, 11 de abril, do professor e crítico literário Massaud Moisés, catedrático de literatura portuguesa da USP. Publicou trabalhos marcantes de literatura portuguesa e no campo da teorização literária, tais como A literatura portuguesa  (29 ed.), A literatura portuguesa através de textos (26 ed.), além do que, talvez, seja seu trabalho mais importante,  A criação literária, em  3 volumes, Poesia, Prosa I e Prosa II. Encontramo-nos em 2002, trocamos livros, enviou-me, pelo correio, autografados, os três volumes de  A criação literária, com afetuosa dedicatória. Guardo a lembrança de um homem culto, elegante e atencioso.


                                                (Foto: academiapaulistadeletras)


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Rodrigo Octavio


      Livro do mês:


      Rodrigo Octavio (1866-1944), jurista e renomado magistrado brasileiro, nascido em Campinas, formou-se bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo. Serviu como secretário da Presidência da República do governo de Prudente de Morais (1894-1896). Delegado do Brasil em diversas conferências internacionais (Haia, 1910 e 1912; Bruxelas, 1909-1912; Washington, 1916; Paris, 1919), foi ministro do Supremo Tribunal Federal de 1929 a 1934. Ocupou a cadeira 36 na Academia Brasileira de Letras. Além de volumes de memória (Coração aberto, 1928, Minhas memórias dos outros, 1934-1936)), publicou obras de direito e política internacional, como: Domínio da União e dos Estados (1897), Direito do estrangeiro no Brasil (1909), a codificação do direito internacional privado (1910), Questão de Lambari (1916), Dicionário de direito internacional privado (1935).
      Quando representa o prefeito de Lambari (Hugo Werneck) na contenda jurídica da água mineral, defronta-se, no tribunal, com ninguém menos que Rui Barbosa, contratado advogado pelo Estado de Minas Gerais.




      Em Minhas memórias dos outros, seu livro de maior fôlego, sob o ponto de vista literário, de acordo com especialistas, Rodrigo Octávio registra sua amizade com Machado de Assis, já autor consagrado. “A lembrança que guardo de Machado de Assis é das mais intensas de minha vida”, afirma, no início do capítulo III. A atenção ao velho bruxo prossegue por mais de vinte páginas: “Pode-se afirmar que o prestígio e o sucesso da Academia Brasileira eram a grande preocupação do Mestre. // Machado não era um homem sociável, era mesmo de difícil familiaridade. Finamente polido, atencioso para com toda a gente, tinha ele, entretanto, um muito limitado círculo de relações de visita, e essas mesmas, confinadas no seu bairro, dentro de um pequeno raio da casa em que, por tantos anos, viveu” (Octavio, 1979, 54-55).

      Outros encontros com homens representativos da cultura e da política são também relatados, ao lado de eventos de alta relevância histórica de que o autor participou. O final do século XIX e o início do novo século, vistos de uma forma direta e detalhada por alguém que partilhou os acontecimentos, ressurgem de maneira fluente e viva. Machado de Assis, Salvador de Mendonça, Luís Guimarães, Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Guimarães Passos, Luís Murat, Pardal Malet, Coelho Neto, Aluízio Azevedo, Rodolfo Bernardelli, Duque de Caxias, José do Patrocínio, Olavo Bilac, dentre outros, movimentam-se nestas páginas, escritas com o tom de reminiscência e a nota do afeto. Os primeiros anos da Academia Brasileira de Letras, desde a fundação, de que participou junto do autor de Dom casmurro, sua jornada como núcleo de desenvolvimento intelectual do país, os membros da primeira hora compõem preciosa memória da vida cultural do país. O memorialismo do autor não cultiva ressentimentos e fatos pitorescos, impõe-se como testemunho sereno e analítico.

OCTAVIO, Rodrigo. Minhas memórias dos outros. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1979.