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domingo, 16 de abril de 2017

Ministro do Supremo autoriza investigar mais políticos

      Na última semana, um terremoto abalou a elite política brasileira. O Ministro do Supremo, Edson Fachin, autorizou a Justiça a investigar 76 políticos envolvidos em corrupção. Para corroborar o processo, um dos maiores empresários do país, Emílio Odebrecht veio a público confirmar a parceria estreita com o ex-presidente Lula, rendosa para os dois lados. O país tomou conhecimento de que a República estava nas mãos de uma empreiteira. A Odebrecht comprou o presidente petista em várias frentes (prestando suporte ao filho do presidente, reformando o sítio de Atibaia, depositando dinheiro para parentes, construindo estádio, além de depósitos mensais para quitar supostas palestras). Assim, a Odebrecht ampliou sua atuação no mercado, expandindo-se internacionalmente, tendo o governo petista financiado obras em Cuba e em Angola. Ficamos sabendo que a "Carta aos brasileiros" foi escrita pelo quadro jurídico da Odebrecht, em troca de favores e regalias. Na sequência, para facilitar aprovação de leis que lhe eram vantajosas, a empreiteira favoreceu quase uma centena de políticos sem escrúpulos, que receberam propinas através de um departamento criado para equacionar todo o esquema. 

                                                           (Imagem: mundoedu.com.br)

      Muitos desses políticos eram já conhecidos pela desfaçatez com que sempre trataram o ofício. Outros viram a máscara de honestidade se desfazer em pó, até pouco tempo atrás se arvoravam como reservas de moralidade - a lista abrange quase todos os partidos,  mas o PT e o PMBB estão na dianteira, com o maior número de citados. Além dos contumazes frequentadores de listas do naipe, como o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT)e o senador Romero Jucá (PMDB), a nova listagem contempla oito ministros do governo Temer, três governadores, e uma enfiada de políticos, tais como os deputados Maria do Rosário, Humberto Costa, Lindbergh Farias, Paulo Rocha, Arlindo Chinaglia, Vicentinho, Zeca do PT, Zeca Dirceu, Marco Maia e outros do PT, mais de uma dezena do PP, do PMDB, do PSDB (incluindo o senador Antônio Anastasia de Minas), do PC do B (Vanessa Graciotin, senadora por Amazonas), do DEM (o deputado Ônix Lorenzoni). O que antes se dizia como interpretação dos fatos pelos cientistas políticos, agora se pode dizer que fazia parte de um projeto de perpetuação no poder por parte do PT, arquitetado por aquele que se apresenta como o mais honesto de todos os políticos desse país. Todos devem ser investigados e aqueles que a Justiça provar que cometeram atos ilícitos devem ser exemplarmente punidos.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Nuno Camarneiro

       
Livro do mês:


             O projeto ficcional de Nuno Camarneiro, neste romance que é sua estreia na literatura, assenta-se, a princípio, num mosaico em homenagem a três autores – Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e Kafka.  Dois personagens replicam o nome dos primeiros autores – Fernando e Jorge; o terceiro protagonista, Karl, remete ao personagem principal do romance de Kafka, America. Os personagens postam-se, à partida, como clones imaginários dos autores, em rotas que apontam para pistas especulares.


                Fernando passa os dias numa Lisboa sombria, envolvido em intrigas com as tias, a preocupação em alugar um quarto, o encontro com amigos em tavernas urbanas, a escrita de poemas e incontáveis devaneios melancólicos, que lhe inspiram versos e frases marcantes. “Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as indiazinhas, as americanazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?” (CAMARNEIRO, 2012, 22).  Jorge nasceu e vive com a avó num bairro popular de uma Buenos Aires idealizada, divide as tarefas infantis com a irmã Norah, “sempre que aprende algo novo faz traços no caderno” (CAMARNEIRO, 2012, 14); a sua casa é a única casa com jardim no bairro, que abriga também um cão de três pernas, inventado pelo garoto que adora inventar animais. Na verdade, Jorge inventa ainda jogos e cenários que lhe propiciem sonhar, além de conceitos surpreendentes. “Jorge comprovou uma ideia que era sua: qualquer animal que possa ser inventado pelos homens tem de existir em algum sítio” (CAMARNEIRO, 2012, 33). Karl é um operário, de descendência europeia que, no início, lava as paredes de vidro em arranha-céus de Nova Iorque.  “Quando acaba de limpar a última janela, detém-se por alguns momentos a olhar a cidade lá em baixo. Dali sente-se capaz de pensar coisas novas, de ver longe e de descobrir significados até aí ocultos. Na verdade nada disso acontece, talvez por não estar habituado a pensar coisas novas, talvez porque Nova Iorque não permita que se pense muito” (CAMARNEIRO, 2012, 24-25). Em torno desses eixos, são construídos os capítulos, intitulados com os nomes de cidades e bairros onde vivem os protagonistas.
                Sabemos que a arte contemporânea desenvolveu-se tributária de uma concepção moderna que encarece a complexidade, herdada dos inúmeros conflitos estéticos das primeiras décadas do século XX, o seu teor enigmático e obscuro.  Já afirmava Hugo Friedrich, em sua monumental La estructura de la lírica moderna:  “El acceso a la lírica europea del siglo XX no es cosa fácil, en cuanto ésta se expresa por médio de enigmas y de misterios” (FRIEDRICH, 1974, 21). Um dos aspectos produtivos da empreitada levada a cabo por Camarneiro consiste em elaborar frases, algumas postiças, nem de longe isentas de efeitos espetaculares, como se tiradas de legendas de revistas burguesas. Dentre os conceitos desenvolvidos, sobressaem vagas sugestões de duplicidade, melancolia, solidão e o poder da linguagem. “Ele explica-lhe que é um livro onde estão todas as coisas, mas a irmã continua sem entender.  Pergunta-lhe se esse livro é como a bíblia, de que a avó já lhe falou.  Jorge diz que não, a enciclopédia tem todas as ideias dos homens, a bíblia apenas as de um deus” (CAMARNEIRO, 2012, 94). Os protagonistas lembram os autores renomados, mas não se confundem inteiramente com eles.  A identificação completa seria reducionista, embora as pistas continuem a ser feitas: “Fernando nasceu para ser um homem que ainda não existia, cheio de palavras novas a quererem ser ditas, frases assombrosas que não são do céu nem da terra” (CAMARNEIRO, 2012, 35). Karl, o imigrante judeu, protagonista com maior aderência ao real, ao concreto e à tragédia, acaba demitido, após provocar um acidente; ao final, retorna ao velho mundo.  “Karl foi buscar o mundo novo e leva-o agora para casa. Tão novo e já tão estragado. Traz também um língua que cedo esquecerá, algumas poucas palavras hão de resistir porque Karl não as sabe traduzir, palavras como subway ou chinatown, nomes de bebidas e palavras ordinárias cheias de sexo”(CAMARNEIRO, 2012, 176).  Hesitante entre o registro direto e o poético, o dito e o por dizer, o determinado e o indeterminado, a linguagem não consegue livrar-se de uma inflexão semelhante, patente nas melhores páginas de Saramago.

CAMARNEIRO, Nuno. No meu peito não cabem pássaros. Rio de Janeiro: Leya, 2012.

FRIEDRICH, Hugo. La estructura de la lírica moderna. Barcelona: Seix Barral, 1974.

quinta-feira, 30 de março de 2017

João Gilberto Noll (1944-2017)

      



                                                     (Imagem: zh.clicrbs.com.br)

      Morreu ontem em Porto Alegre, aos 70 anos, João Gilberto Noll, um dos mais talentosos e representativos escritores brasileiros contemporâneos, reconhecido e admirado por seus pares.  Surgido nos anos 70, Noll despertou a atenção com o notável livro de contos O cego e a dançarina, em 1980. Com este livro faturou o primeiro Jabuti, que se somaria depois a mais outros quatro. Seguiram-se quase duas dezenas de títulos, entre os quais,  A fúria do corpo, na minha opinião, uma verdadeira obra-prima, de 1981,  Bandoleiros (1985), Rastros de verão, de 1986, Hotel Atlântico (1989), Harmada  (1993).  Ao todo, treze romances, três coletâneas de contos e dois infanto-juvenis. Por seus contos e romances marcantes, elaborados com refinada espessura técnica, tratando em profundidade temas ousados e impactantes, tornou-se referência fundamental para a literatura brasileiras das três últimas décadas, grande influência para novos escritores. Muitos de seus relatos ultrapassaram as páginas dos livros, através de adaptações cinematográficas.  Além dos cinco Jabutis, conquistou ainda o Prêmio Fundação Guggenheim (2002) e o Prêmio da Academia Brasileira de Letras (2004).

terça-feira, 21 de março de 2017

Adriana Versiani

      Comemora-se hoje o Dia mundial da poesia. Aqui se apresenta Adriana Versiani, que faz poesia em Minas Gerais, com densidade e delicadeza. Publicou, em 2009, Livro de papel, atravessado por uma "respiração neobarroca", de acordo com Osvaldo A. de Mello, livro que integra duas coletâneas, Biografias de vocês que não existem e Mandrágora, entremeadas de coloridas e inventivas soluções gráficas e estéticas.


                                                       (Foto: luisprado.com.br)

          Poema
          Adriana Versiani ¹
          hoje sonhei ser segredo,
          seu segredo,
          algo distante de mim.
          aquilo que mora no pulmão do maestro,
          enquanto pausa, enquanto lembra, enquanto espera o som.
          sonhei ser antes da pintura da nave,
          antes da tinta ou das mãos,
          antes da ideia.
          sonhei ser segredo,
          seu segredo.
¹ Adriana Versiani
Ouro Preto, MG. 1963

terça-feira, 7 de março de 2017

Ensaios de poesia contemporânea

      Foi lançado o site que abriga o volume com os trabalhos apresentados no I Congresso FALE de Poesia contemporânea em língua portuguesa, assinados por especialistas e pesquisadores brasileiros e portugueses. O evento ocorreu no ano passado (18,19 e 20 de abril, na UFMG, em Belo Horizonte). O resultado é um trabalho de muito bom gosto e serventia. Os organizadores estão de parabéns. Participo com uma comunicação sobre a poesia de António Franco Alexandre. A quem se interessar, vai aí o site: https://tamanhapoesia.wordpress.com/


sexta-feira, 3 de março de 2017

Antônio César Drumond Amorim

Livro do mês


         De Milena, circo e sonhos, narrativa lírica de Antônio César Drumond Amorim, faturou o primeiro Prêmio Guimarães Rosa, do Governo do Estado de Minas Gerais, em 1975. Bastaria este prêmio, de alto montante, para torná-lo um livro representativo de toda uma década. Ilustrado por Gilberto Abreu, a quem se deve também a expressiva e ingênua capa, com vagas reminiscências dos desenhos de Exupèry, foi editado pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, no âmbito da cobiçada premiação. O próprio autor sentiu “o fardo”, como se observa na erudita apresentação, com preâmbulo em homenagem a Sartre: “Acabo de receber um prêmio muito importante, não discuto o valor objetivo da coisa. Sobrenado muito bem disposto, muito burguesmente instalado em toda essa situação. É terrível”.  Algumas linhas depois, confessa: “Eu não poderia nunca me manifestar fazendo música, pintando, esculpindo. Literatura é a maneira mais completa de a gente se manifestar, dizer que está aí, contar que vive. Estou falando de mim”.



O livro foi aquinhoado de tantos agrados oficiais que a crítica considerou de bom alvitre silenciar a respeito. Por paradoxal que possa parecer, diante de sua estrutura esgarçada e do distanciamento dos gêneros, tudo coroado ao fim e ao cabo pelo prêmio, instalou-se uma tácita indiferença.  A presença de posturas vanguardistas para a época – pontuação pouco rigorosa, uso de minúsculas após o ponto final, excesso de figuras de linguagem, - serviu para cercar o livro de uma cortina de olvido.  Poucos se deram ao trabalho de lê-lo, esta a verdade.  Isto é o que acabei fazendo, nos últimos dias. Trata-se de um relato lírico, permeado de elementos circenses e folclóricos. Recria situações amorosas entre um suposto Palhaço e a idealização feminina. Milena corporifica o eterno feminino e agrega traços constitutivos da amada etérea, impossível, distante.
“Na minha roupa recolhi estas estrelas. Eu as apliquei, mas não renderam juros. Gastei a minha vida recolhendo estrelas, recontando flores.
Senhoras e Senhores,
Estarei sendo irreverente? Por momentos as palavras reassumirão a sua autonomia bruta e a mente oca deste palhaço se encarregará de estraçalhar ideias” (AMORIM, 1975, 28).
           Há mais de quarenta anos, o livro de Drumond Amorim projeta-se, como espaço de mistura de gêneros, na medida em que abriga traços estruturais épicos e dramáticos, além dos elementos líricos evidentes.  
          “Desmaiava em festas a cidade, naquele tempo, bela-adormecida entre três montanhas e o mar. Não constava dos livros de geografia, não constituía nem mesmo ponto em qualquer dos mapas existentes nos mundos, rebrilhando ao sol para poucos.
Espero justificar a ênfase com que distingo o dia de festas na destruída e já soterrada cidade: - fora Milena a princesa que atraíra forasteiros, beijos e olhares,
         tão impressionista, em tom maior esclarecerei: Milena firmara-se com relevância misteriosa, senhora encantada e inconquistável” (AMORIM, 1975, 52).
          Formado por Heráclio Salles, José Guilherme Merquior e Rui Mourão, o júri destaca no Relatório alusivo à escolha: “A sua estrutura se constrói por meio de pequenos segmentos poemáticos – às vezes de um mero sintagma – que vão sendo dispostos sobre a página com autonomia marcada pelo destaque dos espaços em branco mas que ao mesmo tempo se interligam para constituir um fluxo contínuo, através de procedimentos retóricos de grande eficiência e que acabam se tornando nos maiores responsáveis pelo ritmo geral da composição”.

AMORIM, Antônio César Drumond. De Milena, circo e sonhos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1975.


quinta-feira, 2 de março de 2017

Dicionário de Fernando Pessoa...

      Folheei, na Biblioteca da Faculdade de Letras da UFMG, o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo português, organizado por Fernando Cabral Martins. O título, numa aproximação breve, deveria ser Dicionário de Pessoa e de Leila Perrone. Excesso de citações de artigos da professora da USP, verbetes superficiais, redundantes, dizendo o óbvio, pouca novidade, se comparado a obras de maior fôlego, já existentes. Organizado com interesse no público francês, alvo de explícitas piscadelas, (efeito da globalização europeia?), ignora parte substancial da bibliografia sobre Pessoa produzida em solo brasileiro. Reflete certa indisposição com os pioneiros da área (Gaspar Simões, Prado Coelho, Berardinelli), Decepção maiúscula, proporcional ao ruído de marketing da época do lançamento.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Desmontando as teses

Não sei se alguém já se atreveu a contar: o que antecede a escrita de um copião de tese acadêmica. Acompanhar o percurso desorientado, as anotações apressadas, as impressões desguarnecidas que poderiam fornecer mais tarde uma pista. 

                                     (Imagem: escrevendo o futuro. org.)

À frente, um livro inteiro, páginas inteiras coalhadas de riscos, chaves, colchetes, anotações, marcações de página onde a mesma ideia retorna, ref. bibliográfica. A marginália interpretativa, o comentário ingênuo destinado ao lixo. Riscos indicativos, na maioria incongruentes, de um pensamento fugaz, que não chegou a se consolidar, riscos que o leitor cansado (ou enfadado) faz à margem de um poema, uma descrição. Por vezes, um desenho grosseiro e tosco.
Registro as hesitações e tensões que antecedem a hora do lobo. Os inúmeros recheios, notas, reflexões, suposição que vamos alinhando, em geral, entusiasmados no fulgor provisório. As mutações e sobressaltos, em gradação só justificável no instante da colheita. Notas escritas a lápis alternam-se a outras, a tinta permanente, em cores variadas, vermelho, azul, preto, verde. Excertos de leituras variadas superpõem-se, Levinas, Barthes, Deleuze, Foucault, Todorov, Blanchot, Benveniste, Eduardo Prado Coelho, Fernando Pessoa. Ocioso frisar a importância da citação, nos moldes éticos e científicos.

Um livro de mais de 600 páginas abriga muito espaço para glosas – sérias, idiotas, explicativas, de sinonímia, ou simplesmente hilárias. Como o autor investigado era um poeta contemporâneo, um rol de palavras reiteradas: mãos, mágoas, corpo, rosto, riscos, folha, vento, sol, casa, ruas, versos, Um consolo, calado digo a mim mesmo: se tivesse aproveitado metade das sugestões, talvez a versão definitiva teria sido mais abrangente. O que poderia ter sido e não foi. O que não se reporta ao orientador. Os resíduos de um intricado jogo de xadrez.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Antônio Carlos Villaça


      O livro de Antônio Carlos Villaça foi um fenômeno de lançamento nos anos 70. Só recentemente tive condição de ler. É um caso raro de excelência num gênero pouco comum no país, o de memórias. A ciranda do autor entre um convento e outro, sua indecisão diante da vocação monástica, a busca desesperada de um sentido para a vida são questões fundamentais nesse livro pungente. A dilacerante busca de saída reflete a inquietude humana. A impressão é de que assim como se entra num convento, também se entra num associação benemérita, a condição humana não se dá por realizada. Os depoimentos a respeito de intelectuais com os quais conviveu são preciosos. Sobre Graciliano Ramos: “Graciliano era áspero e delicado, como os tímidos de seu tipo, o dos moralistas, inconformados, exigentes. Era um solitário” (VILLAÇA, 2006, 278). O escritor francês Bernanos, radicado num sítio perto de Barbacena, tinha um vozeirão. O poeta Augusto Frederico Schmidt era célere, apesar de gordo. A proximidade, o companheirismo entre os dois, fortalece a ideia de que o poeta teria sido um dos mediadores intelectuais da trajetória do autor. Sobretudo, fica o registro de uma autêntica vocação literária, o atribulado percurso de alguém que se não se contentava com a mediocridade.


      O autor traça um cuidadoso panorama do pensamento católico no país, dos anos de 1950 a 1970, detendo-se em nomes expressivos da nossa inteligência. Alceu Amoroso Lima, Bernanos, Gustavo Corção, Padre Penido (reconhecido na França como um expoente do tomismo), Padre Leonel Franca, Carlos Sussekind de Mendonça, Dom Abade Tomás Keller, Galdino do Valle, Augusto Frederico Schmidt, Osvaldo Neiva, Álvaro Americano, Rui Otávio Domingos, Dom Marcos Barbosa, Carlos Drummond de Andrade, Rodrigo Otávio Filho, João Condé, Manuel Bandeira, D. Aquino Correia, figuras centrais de nossa intelectualidade, formam o diversificado círculo em que se movimentava.
      Por vezes mostra-se áspero em relação a amigos. Como Alceu Amoroso Lima. “Repete-se muito, vive preso a seus esquemas, divisões, subdivisões. É seu feitio e ele próprio o confessa, o admite e nos diz que recorre aos esquemas para não se perder. Como seria bom para nós e para ele que se perdesse. Alceu me pôs em contato com a cultura universal, através de seus livros maçudos, seus artigos maçadões, suas conferências desordenadas” (VILLAÇA, 2006, 131).
      Muitas páginas, ainda que impregnadas de religiosidade, não perdem o elo visceral com a vida, revelando por vezes a vaidade e o artificialismo das relações. "Oh interminável estrada, ó ruas do mundo, ó caminhos da vida, ó rio dos homens por onde incessantemente rolamos como gloriosos destroços" (VILLAÇA, 2006, 215). Vindo de um intelectual de tendência universalista, de raízes humanistas, alguns pensamentos fulguram: “Creio na extrema lucidez do irracional. E desconfio da clareza, da sistematização, da logicidade, que é pobre, da racionalidade ordenadora”. (...) “A grande arte não admite pressa. Mas a grande arte exige amor e ódio” (VILLAÇA, 2006, 328). O Nariz do morto desmitifica a ideia de que o conhecimento do mundo seria patrimônio de cientistas pragmáticos, ateus acima de tudo. Aprendemos com o autor a extrair do mínimo percepções profundas.

VILLAÇA, Antônio Carlos. O nariz do morto. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2006.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Cabo Frio

      E lá fomos, curtir oito noites em Cabo Frio. Para quem não sabe, Cabo Frio abriga atualmente mais mineiros que as praias capixabas, depois que um prefeito de Guarapari anunciou que ia cobrar pedágio aos turistas oriundos das Gerais. Bom para nós, uma vez que somos brindados com melhor infraestrutura, praias mais descoladas (limpas, de areia branca) e o humor dos cariocas. A cidade, além de oferecer boas praias (Dunas, do Forte, Peró), é também porta de acesso a outros destinos, como Arraial do Cabo, Búzios, Rio das Ostras, com praias para todos os gostos (Azeda, Azedinha, Ferradura, Tartaruga, Geribá). Todas praticamente lotadas de turistas nesse final de férias.

                                       (Forte São Mateus. Foto; soguimóveis.com.br) 

      Mas nem tudo é maravilhoso com areia branca e fina, ela tem seu lado predatório: por refletir o sol, queima mais intensamente no seu entorno, o calor excessivo chega a incomodar. Isto aliado ao clima úmido e quente da região é um tanto perigoso, acelera o bronzeamento, com os riscos inerentes. Todo o cuidado é necessário. No meu caso,voltei tão queimado que pareço egresso da Índia, toda manhã preciso me certificar de que eu sou eu mesmo. As praias de Arraial do Cabo têm água super gelada, parece que fomos levados para a Antártida. A praia do Peró, a preferida pelas famílias, depois da praia do Forte,  é retalhada por buracos na areia onde o mar bate. 
      Observar os vendedores ambulantes é um espetáculo à parte: homens, mulheres, garotos e idosos. Aliás, os idosos detêm melhor desempenho de marketing: aproximam-se das barracas, entabulam conversa, oferecem seu produto. Vendem quase tudo: sacolés, espetinhos, cocos, sucos, cerveja, salgados, queijo de coalho, bolinhos de aipim, quibes, empadas. No próximo ano tem mais, mas então vou evitar época de férias. Congestionamentos, filas para todo lado.