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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Josué Montello

Livro do mês

                                                      (Imagem: levyleiloeiro.com.br)

      Josué Montello (1917- 2006) ocupa, nas letras nacionais, um singular espaço, em decorrência de diversificada e rica produção. Romancista, dramaturgo, ensaísta, memorialista, cronista, espraia-se em vários modos expressivos. O próprio escritor, ao apresentar este Diário da manhã encarrega-se de esclarecer: “Orientei-me, ainda moço, para a literatura, convivendo mais com os livros e o papel da escrita do que com os companheiros de geração. Talvez isso explique, simultaneamente, a extensão de minha obra e a inquietação de minhas leituras” (Montello, 1984, 9).
      As anotações e os registros que permeiam o seu diário, impregnados da atmosfera do tempo (1952-1957), acabam repassados de sinais emotivos e de efeitos inusitados, monitorados por um emissor afeito às astúcias da ficção. Agrega as qualidades de memorialista e os méritos de ficionista experiente. E produz páginas no calor dos eventos, capazes de interessar não apenas ao leitor comum, mas ao sociólogo e pesquisador social. O périplo às moradas de acadêmicos, no âmbito de sua campanha pelo ingresso na ABL, serve de motivo para o esboço analítico da obra de alguns escritores, representativos das décadas de 50 e 60 (Afonso Arinos, Gustavo Barroso, João Neves da Fontoura, Viriato Correia, Manuel Bandeira, Álvaro Lins, Osvaldo Orico, Viana Moog, Jorge de Lima). Os perfis delineados não se reduzem a referência fria, Graciliano Ramos, por exemplo, é flagrado na Livraria José Olympio “rindo, quase a sufocar-se com a fumaça de seu cigarro Selma” (Montello,1984, 184). Retrata a Academia Brasileira de Letras como lugar de reconhecimento de méritos, mas também de intrigas, invejas, despeito e ressentimento. A morte trágica de Getúlio Vargas (24 de agosto de 1954) paralisa o país: “Mais do que uma figura política, Vargas é uma figura histórica para a minha geração. Todo um largo período de vida brasileira o envolve, e é ele quem domina a cena, ainda moço, na Revolução de 1930, para continuar a dominá-la ainda agora, já velho, no derradeiro lance de sua biografia. (…) Foi ao encontro das massas operárias, dando-lhes um novo estatuto, por intermédio de uma legislação social mais humana. Defendeu o petróleo brasileiro, no momento em que os técnicos estrangeiros se recusavam a admiti-lo. Prendeu Graciliano Ramos? Sim. Levou ao extremo as luas contra adversários? Também é verdade. Sufocou a imprensa, canalizando-a para o culto da personalidade através do DIP? Perfeitamente. Mas não era o homem dos rancores irremovíveis. Eu próprio, acusado de duras críticas à sua pessoa e ao seu governo, estava a receber dele, agora, os votos que me levariam à Academia – assim como nomeou fiscal de ensino ao Graciliano Ramos, logo que o restituiu à liberdade” (Montello,1984, 281-282). Integrante do secretariado de Juscelino Kubitschek, o autor reporta passagens relacionadas ao criador de Brasília: “… veio da extrema pobreza e venceu sucessivos obstáculos para chegar à Presidência da República pelo voto popular, não se desfigurou ou transfigurou ao longo de seus triunfos. Aperta a mão do barbeiro como abraça o presidente do Senado - com a mesma naturalidade” (Montello,1984, 432). O aprendiz de teoria literária, o aspirante ao ofício de escritor não experimentam a sensação de perda de tempo. Pelo contrário, sempre se aprende com um bom escritor: "Cada geração tem uma curiosidade própria, constituída por suas angústias e aspirações. Quando o escritor se faz intérprete dessas angústias e aspirações, ajusta-se a seu tempo, e encontra o seu público"  (Montello,1984, 634).
      
      Mais do que notas asséticas e inexpressivas, Montello brinda-nos ainda com páginas elaboradas, refinadas impressões derivadas de leituras, da convivência com grandes personalidades e do fervor gerado por alguns mestres da escrita ou cidades especiais, como Paris, recriada em quadros de pinceladas excessivas.

Montello, Josué. Diário da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

domingo, 16 de setembro de 2018

Maria da Conceição Elói

Livro do mês: Arcas, arcazes e baús




       Em recente evento, realizado em Divinópolis, capitaneado por Osvaldo André de Melo, entre debates sobre poesia e intercâmbio, quis o acaso que me caísse às mãos um belo livro de poemas. Com capa florida de Yara Tupinambá, escrito por Maria da Conceição Elói, traz um despretensioso título - Arca, arcazes e baús. Embora desponte aqui como livro do mês, na verdade foi lançado em 1978. Vem, em decorrência de seu contexto, marcado por contingências propícias ao florescimento de uma geração especialmente ungida para o labor poético, em Divinópolis, divulgando nomes até hoje importantes no cenário da poesia brasileira: Fernando Teixeira, Lázaro Barreto, Sebastião Milagre, Osvaldo André de Mello, Adélia Prado e outros, sem esquecer a autora referida. As circunstâncias que dizem respeito à evolução poética não ocorrem arbitrariamente, apresentam-se encadeadas, num misterioso desígnio, cujo alcance e sentido ultrapassam os limites da coincidência. Desse contexto fazem parte a convivência, a pesquisa individual e o esforço coletivo de criação em torno do fenômeno da poesia. Não ocorrem de forma inconsequente as artimanhas dos deuses da arte. De outro lado, como explicar a sucessão de liames singulares, a junção de estrelas propícias numa via-láctea luminosa, a comemoração do centenário da morte de um grande poeta (Olavo Bilac), ocorrida neste ano de 2018, o reencontro de pessoas aparentemente dispersas?  
       Todo este preâmbulo visa a repisar uma noção básica: nada ocorre de forma isolada. Os eventos culturais ligam-se obscuramente a ditames superiores: a estreia literária de Adélia Prado, a mais expressiva poeta brasileira da atualidade (Bagagem, 1976) decorria de um ambiente propício à criação artística no centro-oeste mineiro. Mas o foco agora tenta entender parte da criação poética de Maria da Conceição Elói, neste seu segundo momento, na sequência do volume anterior, Luz ausente. No prefácio, Yeda Prates Bernis assevera: "Temperamento delicado e ansioso de beleza, a autora vai tecendo seu canto em tempo de nostalgia e em tentativa constante de reconstruir um passado que, inexorável, jamais voltará". Com certeza, estamos diante de um canto entoado em registro melancólico, em face de um mundo inóspito, em relação às conquistas do espírito: "trago para junto de mim, / o passado, /  descortinado / guardado na memória" (segundo poema da coletânea, "Magia"). Além de resgatar guardados, trastes antigos, baús domésticos, os objetos dos antepassados, as relíquias coloniais e familiares, os poemas desta arca buscam desvendar o  "véu de nostalgia" que os torna românticos e sonhadores. Instalados em "tampos de vinhático / e base de jacarandá", os vestígios do passado, mais do que ornamentos decorativos, como "painel variado de emoções / moldura para a nostalgia" (em "Caraça") encharcados de vivências, fitam-nos com um fundo sentido histórico e religioso.

ELÓI, Maria da Conceição. Arcas, arcazes e baús. Belo Horizonte: Ed. Comunicação, 1978.





segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Incêndio destrói Museu Nacional no Rio

      Como se não bastassem as notícias aziagas, os brasileiros defrontam-se com mais uma tragédia. Esta de proporções irreparáveis para a cultura nacional, com reflexos na preservação do conhecimento de todo o mundo. Um incêndio destruiu ontem à noite o Museu Histórico Nacional instalado na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro. O prédio, uma relíquia arquitetônica de dois séculos, onde residiu a Família Imperial, ardeu em chamas. Desaparece todo um acervo da história colonial, acrescido de riquíssimas coleções, como a coleção egípcia recolhida por D. Pedro II, inúmeras doações de realezas estrangeiras, o acervo indígena, coleções científicas (fósseis, inclusive o de Luzia, documentos), além de peças de valor histórico e científico inestimável (a sala da Coroação, mantos e coroas imperiais, o mais completo arquivo de história natural da América Latina, etc.|).  Tudo aquilo que a incúria havia condenado à ruína, (cupins, rebocos deteriorados), acabou de vez. O país precisa repensar todo o processo de preservação da riqueza histórica e científica, no qual inúmeras gerações no passado se envolveram de forma pioneira. Na imagem, detalhe da fachada, antes do fogo.

                                         ( Imagem: pt.wikipedia.org.)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Rodrigo Lacerda


Livro do mês:

      A república das abelhas


      Carlos Lacerda (1914-1977) ocupa, na história do Brasil dos anos 1930 a 1960, um papel importante, um lugar incontornável no complexo xadrez político. Sua atuação como tribuno corajoso e destemido, capaz de aglutinar forças contrárias a Getúlio Vargas, já seria um feito grandioso. Para muitos, sua luta por transparência e democracia, em tempos de presidencialismo exacerbado, com sinais de corrupção, estaria na origem do desfecho trágico assumido por Getúlio, ao se matar em 24 de outubro de 1956. A capacidade de enfrentar a corrente, correndo riscos extremos, sem desistir ou abandonar os princípios nos quais acreditava, transparece no perfil acalorado, esboçado por Rodrigo Lacerda, neste admirável romance histórico, A república das abelhas. A carreira do controvertido homem público, presença marcante do debate político da época, está na base do perfil densamente abordado pelo narrador  póstumo, em primeira pessoa, o próprio Carlos Lacerda. O título refere o frenesi em torno da colmeia, metáfora sobre os vários grupos lutando pelo poder na primeira metade do século. 



      Um dos pontos altos - infelizmente, reduzido, num tijolo de 515 páginas - constitui o capítulo "Bananas e matemáticas". O tema aí restringe-se à sumária aproximação entre o jovem Carlos Lacerda e o poeta paulista Mário de Andrade. O tom adotado, irônico, sutil e metafórico, perpassa todo o episódio; reporta-se aos anos 1938-1941, que correspondem ao exílio carioca de Mário de Andrade, após ser demitido, em 1937, do Departamento de Cultura da prefeitura de São Paulo. Muitos historiadores assinalam o efeito destruidor, pessimista, deste período na atuação do autor de Pauliceia desvairada. Afirma o narrador: "Durante esses poucos anos, o tom descontraído da sociabilidade lhe fez bem. Apesar de ser vinte anos mais velho que nós, o Mário gostava de conviver com os mais jovens, então eu e meus colegas de certa forma o adotamos, ou fomos adotados por ele" (LACERDA, 2013, 355-256). Nas conversas, o assunto delineia-se em torno da função social da arte, o compromisso social do escritor. Mário lhe confessa a turbulência que envolveu a escrita do poema "O carro da miséria", reformulado em três momentos posteriores. Lacerda registra as contradições em que se movimentava: apesar de comunista, colaborava em revistas financiadas pelo capitalismo (Diretrizes, bancada pela Light): justifica-se afirmando que precisava sobreviver, com filhos para criar -"bananas" denota alimento; "matemáticas" corrobora finanças. Quando associa o conceito de felicidade ao de justiça, Mário de Andrade retruca de forma irônica: "Mas onde está a justiça? A Justiça é uma velha ceguinha, que inscreve na sua militaríssima ordem do dia: 'Hoje todos terão de gostar de matemáticas com bananas'. A arbitrariedade de qualquer noção de justiça humana é fatal, estou convencido de que é fatal" (LACERDA, 2013, 357). O narrador transcreve um diálogo com Mário de Andrade. O político defende que a a arte deve ter uma função social.  Para Mário, a função social deveria decorrer do fato de a arte ("manifestação extrema da inteligência")  proceder de um ser humano: 
      "O que eu quero, o que eu amo, o que eu não renego, é a sublime safadeza da inteligência humana. O despudor, a mentira, o pragmatismo da arte. Ao supremo blefe, a justiça, não será apenas melhor o jardinzinho de cada um, aquilo em que somos um: o indivíduo?"
      "Isso iria acaber com o papel social da arte. Ela teria tanta importância quanto uma laranja podre na feira". 
      "Não me interessa o laranjismo da arte, mas a humanidade da arte. Aquilo em que ela não é nem Rilke nem matemáticas, não é champanhe nem bananas, mas simplesmente tudo isso. Um direito, um exercício de todos nós". 
      "Claro que a arte é um direito!"
      "Sim, mas não no sentido político. A arte é simplesmente humana. Respirar é uma necessidade, como o exercício cotidiano da arte. É uma harmonia do ser. Não importa que os outros fiquem sendo os Camões e os Shakespeares. Ninguém deixa de respirar só porque não tem tromba de elegante" (LACERDA, 2013, 357-358).
      A ficcionalização da vida inflamada do político termina antes de 1954, antes que a luta contra Juscelino Kubitschek e Goulart viesse à tona com veemência. Ficam fora duas passagens da vida de Carlos Lacerda: a atuação como governador da Guanabara (1960-1965) e sua ligação com o golpe militar de 1964.  

                                                    (Rodrigo Lacerda: oglobo.globo.com)


LACERDA, Rodrigo. A república das abelhas. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Poesia brasileira: Os melhores livros



1. Gonçalves Dias. Primeiros cantos.
2. Castro Alves. Navio negreiro. 
3. Olavo Bilac. Poesias (ed. 1902, inclui "O caçador de esmeraldas").
4. Augusto dos Anjos. Eu. 
5. Manuel Bandeira. Poesias completas (ed. 1948).
6. Jorge de Lima. Invenção de Orfeu.
7. Cecília Meireles. Poesia completa.
8. Murilo Mendes. Poesias (1959).
9. Carlos Drummond de Andrade. Antologia poética (1962).
10. Vinícius de Morais. Antologia poética (6a. ed., 1967).
11. João Cabral de Melo Neto. Poesias completas (1940-1965). (Sabiá, 1968).
12. Ledo Ivo. Antologia poética (1965).
13. Bruno Tolentino. A imitação do amanhecer  1979-2004. (Globo, 2006).








quinta-feira, 5 de julho de 2018

Walmir Ayala

               Livro do mês:

      No variado leque de possibilidades oferecidas pelo gênero, temos o diário cultural, o diário familiar, o diário íntimo, o diário político, entre outros. Em Diário I, difícil é o reino, de Walmir Ayala, (capa de Loio Persio) encontramo-nos diante de uma mistura do diário íntimo com o cultural; dois volumes se sucederam a este. Publicado em 1962, pelas edições GRD, este livro coloca-nos, por conta do extraordinário fingimento proporcionado pela literatura, em contato com os eventos, as peripécias, os contatos, os encontros, os pensamentos, os projetos literários da época, os amores do escritor à altura dos últimos anos da década anterior e o início dos anos 60, um gaúcho que abandonou Porto Alegre ainda jovem e veio para o Rio de Janeiro para dedicar-se à carreira de escritor. Dedicou-se a vários gêneros, tendo-se se destacado como poeta, dramaturgo, romancista, diarista e bem sucedido crítico de artes plásticas, na grande imprensa carioca nas três últimas décadas do século XX. Escreveu ainda mais de uma dúzia de livros infantojuvenis.



      Ao se dispor a registrar as efemérides pessoais, os apontamentos reflexivos sobre si e os outros, o autor de um diário acaba por revelar aspectos decisivos de sua postura intelectual e literária. Amigo íntimo de Lúcio Cardoso, com quem conviveu alguns anos, e de sua irmã,  Lelena, (Maria Helena Cardoso), Walmir Ayala (1933-1991) revela, neste diário, seus primeiros anos no Rio de Janeiro, as amizades que se foram consolidando, as estreias como poeta, dramaturgo e romancista. E sobretudo, a euforia e as mágoas decorrentes de sua opção pelo homoerotismo, posição perante a própria sexualidade assumida com serenidade e integridade. Algumas reflexões se ressentem de uma certa espessura dramática, como calha a um dramaturgo: “Eu me achava munido de uma defesa contra a insensatez do amor – agora aqui me encontro, um animal ferido, sorvendo aos haustos o último ar do mundo” (AYALA, 1962, 28). Talvez tenha sido o nosso último grande outsider, vibrante de metáforas inquietas, ensimesmadas, ousado no embate com sua própria interioridade, por vezes dilacerada. Logo no início, retomando o título, escreve: “Difícil é o reino, ninguém atinge os cavalos e os férteis campos, sem que isto lhes signifique uma custosa renúncia. Difícil é o reino, de se construir, de se respirar sua profunda realidade, seu organismo cotidiano – os panos de prato, os canteiros onde é preciso extirpar os maus capins, a poeira que é preciso varrer, o pão com manteiga de que se faz a infância, e o casaco de pelúcia aquecendo como carícia de mãe. Difícil é o reino da solidão, o que começa assim.”(AYALA, 1962, 12).

                                                 (Foto: www.escritas org.)
      O esforço de produzir uma escrita como depoimento de uma época, sem deixar de auscultar o mundo interior, os conflitos existenciais, acarreta uma corajosa postura, no sentido de se desnudar e se revelar em público. Walmir Ayala não se intimida diante desse compromisso. No seu caso, a válvula positiva, a ferramenta doadora de equilíbrio chama-se fé, espiritualidade: “Hoje no mosteiro de São Bento, o impacto com a magnificência da casa de Deus, que me reduziu ao mínimo, e deixou bem evidente uma presença invisível. Pelo menos me proporcionou ambiência à comunicação do mistério do Ser total no que me sinto integrado, e com o qual estou comprometido” (AYALA, 1962, 59). Noutro registro:

Porque é orando que se espera. Porque se sabe que algo virá – alguém. Então se reza. E as mãos realizam um curioso ritual de objetivos em favor do esperado. Às vezes se coloca uma rosa num copo de opalina, ou se estica a colcha de toalha azul sobre o divã, e se frequenta o espelho atrás de aparências que não duram (porque a espera inclui também aquela meia-hora entre a hora marcada e a chegada – e então tudo começa a apodrecer, a ruir dentro da gente, e se transpira no corpo e na alma um suor ácido de frustração que nos faz desejar num momento: “Que não venha ...”Às vezes vem, às vezes não. De ambas as maneiras deixa após si os detritos de uma permanência sem reciprocidade). (AYALA, 1962, 13).

      Os críticos literários têm o vezo de dispensar a consciência expressa pelos autores em seus textos Recorto a seguinte confidência, importante no que esclarece sobre seu método ao explicitar a veia discursiva de sua poesia: “Meu livro, pela sinceridade, talvez, comova. Não me preocupei em construir o poema (não sabia disso ainda) mas em comunicar poesia… e era tanta a que me vinha. Acho os meus poemas desimportantes, por isso. Que interessa aos outros o meu encontro com um maravilhoso gato, e a presença dele na minha solidão daquela noite? A universalidade é difícil, principalmente para o poeta, tão voltado para si mesmo” (AYALA, 1962, 27). Ao longo do diário, dois grandes eixos vão se firmando: o exercício da escrita, a busca amorosa. Sobre o primeiro tema, transcrevo mais duas passagens: “Vou aos concursos sempre, porque não sou editor, e não acredito que os editores me escutem porque não sou o que se chama um autor comercial” (AYALA, 1962, 86). Sobre seus poemas, anota: “A só aglutinação de palavras, a só presença delas no poema, não me satisfaz. Por mais que se pregue a desdramatização (e isto me parece útil) não me convence o extremo de transformar o poema em relatório das coisas, e o poeta em suposta voz de Adão chamando o Ser do fundo do seu poema. O poema deve ter um nó de síntese, deve definir alguma coisa referida quer no título quer nas entrelinhas do verso, mas deve” (AYALA, 1962, 30-31).

AYALA, Walmir. Diário I – difícil é o reino. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1962.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Vivaldi Moreira

     Livro do mês

      A rubrica acima não intenta indiciar obras máximas da cultura, colhe um título lido recentemente. Por algum motivo impôs-se entre outros igualmente disponíveis. Vivaldi Moreira (1912-2001) foi por muitos anos presidente da Academia Mineira de Letras, conhecida como “Casa de Vivaldi”, em reconhecimento à efetiva atuação cultural por ele exercida (a preservação da casa Borges da Costa, uma das mais belas do início do século em Belo Horizonte, a construção da sede da AML). Autor de um livro emblemático no memorialismo brasileiro, O menino da mata e seu cão piloto (1981), entre outros do gênero e este curioso Viagens, no qual por ora me debruço brevemente.


      Capitulei diante do estilo culto, límpido, refinado, algo retorcido, de Vivaldi Moreira. Relatar viagens realizadas por si só não motiva geralmente o leitor. Neste caso, o diferencial vai por conta do estilo elaborado e reflexivo. Antes de contar a viagem a Buenos Aires, o “bordejo pelo Prata”, o autor nos delicia com alguns comentários ambíguos, discutindo se vale a pena ou não continuar. “Rogo-vos, pois, perdoar-me se vos falo de coisas sabidas. Eu sei que todos as sabem. É que estou cheio, estou repleto de Rio da Prata” (MOREIRA, 1996, 28). E emenda, a seguir: “Paisagens, aspectos, sim, mas só ficam se houver reflexão sustentando o arcabouço. Descrever, só, é tarefa infantil” (MOREIRA, 1996, 45). Na sequência, já fomos fisgados e acompanhamos o périplo, ou bordejo, do autor por cidades da América do Sul, Buenos Aires, Montevidéo, e da Península Ibérica, as portuguesas Lisboa, Porto, Lamego, Alcobaça, Leiria, Évora, e as de Espanha, Madrid, Ávila, Salamanca. Os lugares visitados tornam-se pretextos para a digressão em torno de grandes vultos originários da região, acrescida de situações pitorescas, flagrantes colhidos do contato com a gente, os monumentos e a paisagem física. Tudo pontilhado por associações com um rico acervo de conhecimento adquirido em vasta leitura de clássicos. A fundamentar todo esse precioso arquivo, sólidas bases de cultura histórica, repassadas vez por outra por uma discreta pitada de poesia. “A Europa é uma re-visão, é um reconhecimento e não uma descoberta” (MOREIRA, 1996, 184). As notas de viagens misturam-se a páginas de diário, deitadas no papel por um homem maduro, marcado pelo desencanto, ilustrado e tocado desde jovem pela febre da escrita, em suma, “trôpegas reflexões de um pobre diabo que gastou sua vida procurando aprimorar a expressão verbal, para mitigar a dor de haver nascido” (MOREIRA, 1996, 180).


MOREIRA, Vivaldi. Viagens. Belo Horizonte: Edições Caraifas, 1996.

sábado, 26 de maio de 2018

O país que eu quero

      O Brasil que eu quero para o futuro. Com este nome, a Rede Globo de TV criou um programa que permite que os cidadãos verbalizem as aspirações em relação ao país desejado. E a resposta tem sido positiva. Muita gente participando. As pessoas não se afastam muito de algumas questões básicas - investimentos em educação, saúde, transporte, segurança, em geral nessa ordem de prioridade. Seguem depois apelos veementes contra a corrupção, contra o racismo, manifestações de respeito à diversidade, necessidade de ética na atividade política, incentivo ao trabalho rural. Questões ligadas à cultura têm menos interesse. Como se trata de intervenções espontâneas, diretas, voluntárias, algumas são interessantes, outras chegam a ter graça. Por mais que aceitemos as modulações e deslizes do registro coloquial, é penoso ouvir coisas assim: "Gostaria que tivesse menas corrupção...".  Menos corrupção não resolve. Corrupção não pode existir em escala alguma. A flexão do termo invariável só ratifica a necessidade de melhorias na educação. Esperamos que aconteçam.

                                                 (Imagem: Rede Globo de TV)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Philip Roth (1933-2018)

      Não li muita coisa de Philip Roth, escritor americano que morreu ontem, autor de vasta obra romanesca. Um livro e meio, para ser exato, o ácido Adeus, Columbus e O professor do desejo, (1977), de que gostei menos e nem terminei. Dos recentes comentários sobre  autor, destaco este: "Desde sua morte em Nova York ontem à noite, seu nome está na lista daqueles que nunca precisaram do Nobel para serem reconhecidos como os melhores, aqueles que serão para sempre imitados e reverenciados - lista que inclui Marcel Proust, James Joyce, Tolstói, Jorge Luis Borges ou Machado de Assis" ( Hélio Gurovitz) .

                                                (Imagem: veja.abril.com.br)

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Roberto Farias (1932-2018)

      Boa pedida para essas noites geladas de inverno: assistir ao clássico do cinema brasileiro, O assalto ao trem pagador, dirigido por Roberto Farias (1932-2018), recentemente falecido. Com elenco de primeira (Grande Otelo, Eliezer Gomes, Reginaldo Farias, Jorge Dória, Ruth de Souza, Luíza Maranhão), o filme, realizado em 1962, conta com realismo como a gangue comandada por Tião Medonho assalta o trem de pagamentos do Banco do Brasil, explodindo os trilhos com dinamite. Genial como documento da história nacional recente, tem como um dos pontos altos o conflito racial, culminando com o diálogo entre o favelado branco, Nilo (Reginaldo Farias), e o chefe do bando, interpretado por Eliezer Gomes. O diretor assinou outros bons filmes, como Pra frente, Brasil (1982) e a trilogia focada no cantor Roberto Carlos, iniciada com Roberto Carlos em ritmo de aventuras (1968).

                                               ( Imagem: Produção Herbert Richers)