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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sylvio Vasconcellos

       Nas últimas férias, fomos a Diamantina, a derradeira cidade setecentista mineira que faltava conhecer. Estima-se a população em torno de 48 mil habitantes. Em 1938, recebeu o título de “patrimônio histórico nacional”, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Desde 1999, o centro antigo é considerado Patrimônio cultural da Humanidade pela UNESCO. Dista aproximadamente a 360 km de Belo Horizonte, em estrada asfaltada, em boas condições de uso. No caminho, bem depois de Curvelo, somos surpreendidos com paisagens belíssimas, indescritíveis. O texto que acompanha as fotos (na verdade, fragmentos dele) tem a assinatura do arquiteto e historiador Sylvio Vasconcellos (1916-1979), extraído do Suplemento Literário do Minas Gerais, 122, de 28 dez. de 1968. Em relação às fotos: as duas primeiras focalizam aspectos do centro histórico; a terceira flagra o passadiço que une os dois casarões que formam a Casa da Glória, no passado, colégio de freiras; a quarta foca um ângulo da praça do Mercado.

       Texto de Sylvio Vasconcellos:

            Enquanto as povoações alimentadas pelo ouro crescem orgânica e espontaneamente, espichando-se pelos caminhos que as servem, o Arraial do Tejuco concentra-se. As estradas o tangenciam, confinando-o. Do Mercado vai em direção à capela de N. S. do Rosário; desta procura a capela Carmelita; a seguir envieza para a capela de São Francisco de Assis e Matriz, encontrando novamente o Mercado.  Diagonais ligam pontos extremos, triangulando o centro.


            Nada lembra o traçado longilíneo de Ouro Preto ou Sabará, por exemplo. O diamante impôs domínio restrito, contenção e controle.


            Contida é a própria arquitetura local. Bem mais pobre que a realizada em outras povoações mineiras. (...)

            Os interiores das igrejas inundam-se de luz. Convidam melhor às aleluias que ao cantochão. Mais às esperanças que ao arrependimento. Mais ao louvor que à penitência. São poucos os dourados; os frontões externos armam-se em tábuas provisórios. A pompa ausenta-se de todo. Nenhuma igreja procura agigantar-se em competição com as demais. Nenhuma casa pretende ofuscar a próxima. O conjunto se desdobra em harmonias, como ser elaborado de uma só vez, obedientes a uma só elaboração. Dispostas em discreta postura, as construções ostentam apenas requintada displicência. (...)


            O conjunto urbano, concentrado e, praticamente, de plano, facilita a comunicabilidade humana, aproxima as gentes, promove a solidariedade.
                                                                                                         

VASCONCELLOS, Sylvio. O ser e o porque de Diamantina. Minas Gerais, Suplemento Literário. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura, 122, p. 1, 28 dez 1968.

      Sylvio Carvalho de Vasconcellos, nascido em Belo Horizonte (1916), dirigiu a Coordenadoria Regional do IPHAN, em Minas Gerais, por indicação de Rodrigo de Melo Franco, de 1940 a 1969. Professor da Escola de Arquitetura da UFMG, da qual foi também Diretor, cargo de que foi afastado em 1964, pelo Governo Militar. Coordenou a conversão do prédio do Cassino da Pampulha no Museu de Arte da Pampulha, de 1952 a 1957, tendo sido o primeiro Diretor do Museu  do MAP. Impossibilitado de atuar no país, por intrigas políticas, exilou-se em Paris em 1965, estagiou posteriormente em Portugal, com bolsa da Fundação Gulbenkian. Trabalhou nos EUA, em organismo da OEA. Residiu algum tempo em Santiago, onde lecionou na Universidade do Chile (1966). Como arquiteto, projetou inúmeras residências em Belo Horizonte, construindo uma singular aliança entre recursos tradicionais e soluções modernas. Projetou ainda na mesma cidade as sedes do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFMG (bairro de Lourdes) e do ICBEU (Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos), além do prédio de apartamentos MAPE, conhecido como Xodó, na Praça da Liberdade. Intelectual atuante, colaborou ativamente nos jornais Estado de Minas, Estadão, Jornal do Brasil. Publicou, dentre outros, os seguintes livros: Vila Rica: Formação e Desenvolvimento (INL,1956; Perspectiva, 1977); Arquitetura colonial mineira (1957); Arquitetura no Brasil: sistemas construtivos (1958); Pintura colonial mineira e outros temas (1959)Nossa Senhora do Ó (1964); Minas: cidades barrocas (1969, em convênio com a USP). Faleceu em Washington, DC, onde morava desde 1970, em 1979.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lúcio Cardoso

Livro do mês:

       Acabo de ler a novela O enfeitiçado, de Lúcio Cardoso. Mais um mergulho no exercício da ficção de tendência psicológica, experimentada em várias trilhas e matizes, através de exuberante fluxo verbal, dividido entre a reconstituição cuidadosa do cenário e a captação do universo interior das personagens, marca inconfundível do autor mineiro.


      Surpreende-me o final niilista, absolutamente desesperado, desesperançado. Após um longo percurso em busca do filho, o enigmático Rogério Palma, com o qual desfruta apenas breves momentos de abandono e fuga, em cenários decadentes, Inácio Palma confessa sua desistência, esquadrinhado num beco sem saída. Vê-se desprezado, relegado à sarjeta, pressionado a dar cabo da própria vida, sob a pérfida e implacável vigilância de um bandido, pago para exterminá-lo. “Mas isto era eu, unicamente eu, minha pobre matéria enganada e triste” (p.276). Em sua tumultuada demanda pelo reencontro com o filho, o protagonista não se constrange em pactuar com a mais descarada sordidez, nos arredores periféricos do submundo da prostituição. 
      Alguns críticos que se debruçaram sobre a obra polêmica do Autor usam a imagem do “poço sem fundo” para expressar o pessimismo nela presente e, sobretudo, a ousadia como desvenda as forças obscuras que dominam as personagens, atormentadas, incapazes de fugir de uma destinação trágica. Lúcio Cardoso denominou de “o mundo sem Deus” à trilogia formada por três novelas – Inácio, de 1944, O enfeitiçado, publicada em 1954 e Baltazar, que ficou inacabada. As páginas derradeiras exalam o gosto depressivo da degradação e da morte. 

CARDOSO, Lúcio. Inácio, O enfeitiçado e Baltazar. Rio de Janeiro: Record, 2002.




terça-feira, 19 de julho de 2016

Pampulha, Patrimônio cultural da Humanidade

     


      Na última quinta-feira, o Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte, recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, por unanimidade pelos 19 países membros do Comitê do Patrimônio Mundial, da Unesco. O complexo arquitetônico abrange os edifícios e jardins da Igreja de São Francisco de Assis, Casa do Baile, Iate Tênis Clube e Museu de Arte (nas fotos), construídos entre 1942 e 1943, por grandes nomes brasileiros da arte e da arquitetura, Oscar Niemeyer, Roberto Burle Marx, Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti e José Pedrosa. Todo o conjunto instala-se na orla da Lagoa da Pampulha, idealizada pelo então prefeito Juscelino Kubitschek para ser uma área de lazer e turismo.

                                                (Imagem: portal.iphan.gov.br)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Lino de Albergaria

Livro do mês:

            Lino de Albergaria tornou-se conhecido na década de 80 como autor de livros infanto-juvenis, com mais de meia centena de títulos publicados na área. Mais recentemente tem-se dedicado à ficção para adultos, tendo relançado, pela Scriptum, novas edições de Em nome do filho e A estação das chuvas, além de novos títulos, Os 31 dias e Um bailarino holandês. Deste último me ocupo por ora.


            Trata-se de um romance urbano, direcionado de forma emblemática a aspectos inerentes às artes. Literatura, dança, teatro, fotografia, pintura, música, cinema e arquitetura fornecem elementos condicionantes que se misturam com harmonia na narrativa. Concentração de foco. Cenário minimalista, reduzido ao essencial. Um vendedor de livros aproxima-se de um cliente, um fotógrafo em passagem acidental pela livraria, interessado em comprar ingresso para um espetáculo de dança. Antes, revela-se um ávido e atento leitor. O resultado é um confronto sutil, na esteira de um jogo de sedução, em que olhares, gestos vão se adensando e intensificando. As referências aventadas privilegiam um refinado universo artístico, povoado de conotações que recobrem um multifacetado mosaico de citações e contextos culturais. À medida que os jogos de aproximação se sucedem, alargam-se os reflexos de um instigante caleidoscópio de ressonâncias afetivas e eróticas. Os lances da mútua descoberta justapõem-se como etapas constitutivas e especulares do processo da escrita e da leitura. O cenário exterior – espaços situados no prédio do Palácio das Artes, em Belo Horizonte – oferece substrato ao desafiante processo de conhecimento e aproximação de dois homens. No anonimato do caminho de cada um não há lugar para assomos de posse e usurpação.
A estrutura narrativa opera em blocos pendulares, em que dois narradores vão construindo um arcabouço em ziguezague, cujas sendas terminam por se entrelaçar.  Límpida e despojada, a linguagem sabe tirar proveito de imagens e tomadas sugestivas.  



ABERGARIA, Lino de. Um bailarino holandês. Belo Horizonte: Scriptum, 2015.


           

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Helder Moura Pereira

Livro do mês:

      Helder Moura Pereira revela em Um raio de sol uma aparente oposição às referências sombrias de outros títulos (De novo as sombras e as calmas, Nem por sombras) sugerindo uma via mais aberta e positiva. Signatário de um verso paradigmático – “A mágoa é um vício” – e conhecido pela paciente “ordenação da mágoa”, para usar um comentário de Joaquim Manuel Magalhães, o escritor apresenta neste livro uma produção poética caudatária de novas e arejadas sensações e descobertas, fugindo às cristalizações do discurso crítico: “Vou escrever o destino do meu ser. / Mas é tudo contrário a um livro / que mesmo agora tiro da estante e abro / com as pontas dos dedos magoadas” (p.11). Entretanto, os poemas e o próprio título (pelo que sugerem de restrição e sinal de menos – “um raio” – para já não falar de ironia) não se conformam com uma relação opositiva apaziguadora. Estabelecem antes um modelo dialético de forças que se atraem e se neutralizam, uma rede de associações tensas que se entrecruzam com o intento de minar, na sequência de prerrogativas tradicionais da modernidade, a pretensa ordem burguesa. A tristeza
e a melancolia não desaparecem de todo, convivem com notações eufóricas ou flagrantes de um contexto social degradado num discurso flexível, impregnado da sensação de mistura e impureza de registros: “Aquela versão da realidade falava / de um homem com um só cobertor / de estanho, deitado entre jornais / com escândalos sexuais, baratos, ao som / de disco-house, neo-swuing, flipper music” (p.43). A linguagem torna-se receptiva a instantâneos expressivos, como em “unhas hardcore tamborilando” (p.65).

     
     
      
       A associação entre poesia e música (raio/clave de sol) constitui-se num dos eixos centrais, enunciada no primeiro poema – “A música é sem dúvida imortal” (p.11) – e retomada várias vezes como exercício lúdico ou suporte de elaboração conceitual: “Dar-me-ia por muito feliz / assim no soalho deitado? / A toda a frase sensata / eu torço sempre o nariz” (p.22). Para além das intenções galhofeiras, os significantes produzem ecos, ilustrando a epígrafe de I. A. Richards e a ideia de que o trabalho poético é antes de tudo um trabalho de linguagem: “No meu bairro ladram cães, / ladram cães, ladram cadelas. / E as minhas emoções, meu deus, / que é feito delas?” (p.47). As constantes ligações do poema à música configuram uma percepção do real por meio de vetores diversificados, despertando a memória involuntária do leitor e alianças fundadoras da modernidade poética (“Art poétique” de Verlaine, o “celestial girassol” de Eugênio de Castro, “Chuva oblíqua” de Pessoa – “E a música cessa como um muro que se desaba”): “Verdadeiras lágrimas salgadas, ó / baía de cascais, quantos dos teus iates / matavam a fome em moçambiques e que tais?” (p.46). A evocação da poesia de Pessoa serve ainda para outras ressonâncias: “Eu ponho um laço, / o meu primeiro laço de menino, / e faço de conta que o mundo é uma bola / que chutaram para dentro do meu quintal” (p.14).
      A obra de Helder Moura Pereira propõe-se uma percepção da realidade contaminada por traços de ironia, quase sempre articulada com elementos de denúncia desencantada. Desencantada e perplexa, na medida em que ultrapassa a atmosfera fronteiriça do humor e se equilibra perigosamente à beira do abismo. Permeada de incertezas, esta é uma poesia escrita com o artifício do enigma – o enigma de construir uma duplicidade que ao mesmo tempo constitui e condena à perda o sujeito da linguagem: “Meu coração igual ao meu / outro coração, vive comigo, / vive e faz do meu viver / o teu viver. Fui várias vezes / o mesmo, aceitei a primavera, / descontei contas por ti, / ó meu outro coração” (p.20). Inúmeras formas de questionar a realidade radicam na dificuldade de o sujeito se compreender a si próprio, seja através de alusões a contextos supostamente biográficos – “Procuras na minha secção de música / do mundo onde estará o destino / daquele povo agora muito em moda / nos filmes” (p.54), ou através da memória interessada em compreender a interlocução com o outro: “Ouve, sócio, então já não te lembras / de mim dos tempos do liceu? / Roubaste-me o que era meu, / não sei se também te lembras” (p.76).
     Um raio de sol reverbera uma realidade alterada pela elaboração estética (a longa tradição na poética ocidental do motivo do Sol como agente criador, revitalizada pelo Cesário Verde de “Num bairro moderno”: “Subitamente, - que visão de artista! - / Se eu transformasse os simples vegetais, / À luz do sol, o intenso colorista”) e captada por uma subjetividade esgarçada, dispersa e cética – “qual escrivão do vento / condenado à intempérie dos sentidos. (...) Se não traçarmos nenhum risco nada / nos pode perder, temos um lago, temos / um deserto, que mais podemos querer?” (p.41).


PEREIRA, Edgard. Helder Moura Pereira: tu vês a minha sombra. Lisboa: Aldeiabook, 2014, p.119-121.
PEREIRA, Edgard. Um raio de sol. Resenha em Colóquio-letras, 159-160, Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 2002, p.450-451.
PEREIRA, Helder Moura. Um raio de sol. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. A esta edição prendem-se os números entre parênteses, nas citações.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Massacre em Orlando, EUA

      Repúdio total ao massacre ocorrido em boate gay em Orlando, nos EUA. Foram mortas 50 pessoas, outras 53 ficaram feridas. Dentre os assassinados, a maioria é de jovens de 20 a 30 anos. O matador é um americano, Omar Mateen, homofóbico, simpatizante do Estado Islâmico, filho de afegãos, morto pela SWAT. 
      Solidariedade às famílias das vítimas. A violência contra minorias sexuais reflete o discurso de ódio disseminado na sociedade, em que grupos intolerantes à diversidade mostram-se determinados a impor sua opinião. No âmbito da violência contra gays, quando transferimos a questão para o nosso país, os números registrados no Brasil são vergonhosos, indicadores de um estágio civilizacional pré-barbárie; em 2015, 320 gays foram assassinados.
      Enquanto os políticos não votam leis para criar políticas públicas que minorem os conflitos na área, nós, educadores, não podemos nos omitir, se queremos um mundo mais humano e justo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Hélio Fraga

      Hélio Fraga, conceituado jornalista e escritor, atuou durante anos no Estado de Minas, com matérias de teor político, esportivas e crônicas de mérito considerável. Sob o título de "Prejudicando o Brasil", publicou ontem no jornal O tempo um artigo em que faz comentários pertinentes sobre os dias que correm, em especial sobre o comportamento da presidente afastada. Transcrevo, por considerá-lo oportuno, algumas passagens do artigo.

      "O direito à liberdade de expressão é sagrado em cada ser humano, mas pede-se e espera-se que a verdade dos fatos seja respeitada. Muitos brasileiros se sentiram constrangidos quando, no festival de Cannes, artistas do filme Aquarius exibiram cartazes afirmando que "un coup d'etat a eu lieu au Brèsil" e "a coup took place in Brazil".  Pode ser a opinião pessoal desses artistas e do diretor - eles, sorridentes, e ele, de óculos escuros. Mas estavam divulgando uma mentira e sujando a imagem de nosso país.
      A classe artística depende de verbas e isenções oficiais, e suas manifestações têm forte conteúdo corporativo. Os cofres federais sempre estiveram abertos para esses ativistas culturais produzirem filmes e shows para os quais o cidadão paga ingresso - portanto, nada têm de filantropia. Mamam nas tetas do governo e defendem suas boquinhas.
      Agora que o Brasil passa a ter, pala primeira vez nos últimos 13 anos, um Ministério das Relações Exteriores disposto a rechaçar o desrespeito aos direitos humanos e os ataques à democracia, não se submetendo mais aos governos populistas e autoritários de Bolívia, Venezuela e Equador, é importante que nossas embaixadas não deixem sem resposta nenhum ataque desse tipo, porque estão distorcendo a verdade dos fatos.
      Admitir que houve golpe, que uma presidente da República foi afastada do poder de forma arbitrária e inconstitucional, é aceitar que estejam sendo traídas e renegadas a Constituição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República (PGR). Tudo foi feito dentro da lei. E a PGR ainda tem muito mais a mostrar - esperem.
      Após exaustivos debates, com amplo direito de defesa, a presidente perdeu em todas as votações: de 367 a 137 na Câmara Federal; de 15 a 5 na Comissão de Investigação do Senado; e de 55 a 22 no plenário do Senado Federal - daí seu afastamento provisório por 180 dias. Durante todo o processo, desde o início do ano, em todos os momentos, a presidente denunciou um golpe. Foi a primeira a manchar publicamente a imagem institucional do país ao reunir correspondentes estrangeiros no Planalto para insistir em sua tese, e eles transmitiram essa mentira aos mais poderosos meios de comunicação de todos os continentes."
      (...)

FRAGA, Hélio. Prejudicando o Brasil. O tempo. Belo Horizonte, p. 19, 31 maio de 2016.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Referência cultural ameaçada

      O Governo de Minas Gerais enviou um Projeto de lei à Assembleia Legislativa com o objetivo de desativar a Imprensa Oficial do Estado. A medida tem gerado indignação entre os intelectuais, escritores e artistas plásticos. O Governo que patrocina o projeto é o mesmo cujo titular é alvo de investigação na operação Acrônimo. Será que o intento seria contratar a gráfica do amigo Bené, também investigado? A Imprensa Oficial firmou-se como referência cultural do Estado há mais de um século, tendo em vista seu papel pioneiro de divulgador de notícias, atos administrativos e livros há quase cento e vinte anos. Os historiadores atestam a data de 1898 como sendo o ano em que saiu a primeira edição de um órgão informativo do Estado.

                                              (Imagem: Divulgação IO MG)

      O prédio neoclássico da Avenida Augusto de Lima acolheu no passado nomes expressivos da política e das letras do país. Juscelino teria clinicado em seu recinto, num posto médico lá instalado, José Maria Alkmim, José Aparecido de Oliveira, Mário Casasanta, Darcy Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Francisco Iglésias, Manoel Hygino dos Santos, Vivaldi Moreira, José Bento Teixeira Salles, Paulo Campos Guimarães, Guimarães Alves e outros nomes figuram como ilustres diretores da Casa ou publicaram obras em suas oficinas gráficas. 
      A importância da Imprensa Oficial para a literatura brasileira é incalculável. Murilo Rubião fundou em fins dos anos de 1960 o prestigioso Suplemento literário, órgão cultural hoje cinquentão, num país em que as folhas literárias não passam de duas ou três edições. Muitos escritores ali iniciaram publicando poesia ou ficção ou prestigiaram as páginas do Suplemente, como Cyro dos Anjos, Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Lúcia Machado de Almeida, Affonso Ávila, Dantas Mota, Bueno de Rivera, Benedito Nunes, Murilo Mendes, Pascoal Motta, Laís Corrêa Araújo, Fábio Lucas, Adélia Prado, Duílio Gomes, Mário Garcia de Paiva, Letícia Malard,  Fritz Teixeira Salles, Rui Mourão, Manoel Lobato, Ildeu Brandão, Silviano Santiago, Sérgio Santana, Carlos Ávila, Osvaldo André, Márcio Almeida, Hugo Almeida, Anelito de Oliveira, Adalgisa Botelho de Mendonça, Luiz Vilela, Lucienne Samôr,  Jaime Prado Gouvêa e  muitos outros nomes, que não se restringem aos limites do Estado. As matérias literárias apresentavam-se ilustradas por grandes nomes da arte mineira, como Yara Tupinambá, Márcio Sampaio, Chanina, Álvaro Apocalypse, Nelo Nuno, Bax, Liliane Dardot, Ferruccio, Eimir, Wolney, Eliana Rangel, Gilberto Abreu, Sebastião Nunes e muitos outros. Não é pouco.
      Desativar um órgão com extensa folha corrida de altíssima qualidade na área cultural é um verdadeiro atentado à história mineira. Como tem sido demonstrado, nos dias recentes, a Imprensa Oficial nem é deficitária. O sensato seria injetar recursos para modernizar o seu parque gráfico, em reconhecimento pelo muito que contribuiu e continuará gerando de relevante em termos de cultura para a sociedade.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Boris Schnaiderman (1917-2016)

      Morreu ontem no Hospital Samaritano, em São Paulo, o escritor e tradutor Boris Schnaiderman, aos 99 anos. Internado há uma semana, não resistiu a uma pneumonia. Nascido em 1917, na Ucrânia, veio para o Brasil em 1925, na companhia dos pais. Como tradutor, verteu para o português grandes autores russos, Dostoiévski, Tólstoi, Maiakóvski, dentre outros. Registrou na ficção a experiência da guerra - a campanha da FEB na Itália- no romance Guerra em surdina (1964), reeditado pela Cosac Naify em 2004. Em parceria com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, participou da tradução de dois importantes lançamentos da década de sessenta: Poemas de Maiakóvski (1967), Poesia russa moderna (1968). Grande intelectual.
      Tenho uma carta de Boris Schnaiderman, devo a ele minha apresentação ao Suplemento literário do Estadão, no qual publiquei artigos nos anos de 1970. A carta consta do meu Mosaico insólito (2006).

                                              (Foto: youtube.com)


domingo, 8 de maio de 2016

Louis-Ferdinand Céline

Livro do mês:  

       O livro escolhido para a rubrica do mês atravessou o Atlântico duas vezes: pela autoria, focando um grande nome da literatura francesa; por força da tradução e edição portuguesas. Para tempos conturbados nos trópicos, recheados de líderes hipócritas e populistas, um mergulho num período escuro da história universal: Viagem ao fim da noite, romance publicado em 1932, do polêmico Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Um retrato realista do tempo da guerra, empreendido por alguém que viveu todos aqueles horrores e desespero. Querer encontrar um escritor otimista, cheio de esperança e bons sentimentos, é gostar de ver o mundo de olhos vendados. Execrado por expressiva parcela da inteligência ocidental, Celine retruca com algum cinismo erudito. Tomado pelo medo e atrocidades, retrata os anos de pavor e falta de perspectiva da primeira guerra, estendendo-se até os anos 30. Não hesita em celebrar a perigosa aliança entre a poesia e a violência: “Os tempos já não estão para atuações mesquinhas! Abaixo as literaturas empedernidas! Uma nova alma floresce no meio do grande e nobre tumulto das batalhas!” (p. 110). Impiedoso em relação à cultura ocidental alicerçada na crença em valores transcendentes, o autor ataca os intelectuais: “Nunca mais tornei a vê-lo, ao Princhard. Tinha o vício dos intelectuais, era fútil. Sabia coisas de mais, aquele rapaz, e as coisas confundiam-no. Tinha necessidade de uma porção de expedientes para se excitar, para se decidir” (p.82).

                                                    (Foto: write-aholic.com)

             O escritor, em panfletos escritos em fins dos anos 30, não esconde seu ódio à sociedade capitalista (por extensão, aos judeus), explicitado nos anos de pânico e barbárie, motivo de sobra para merecer, mais tarde, acusação de Sartre (não de todo convincente) de que teria colaborado com nazistas. A obsessão pela morte, a imersão numa noite ameaçadora e interminável, não lhe dão trégua: “Nesta profissão de sermos mortos, não devemos mostrar-nos difíceis; temos de proceder como se a vida vá continuar, o mais duro é isto, esta mentira” (p. 46). Em meio aos relatos bélicos, acrescidos de inúmeras peripécias e situações exóticas, inclui uma extensa narrativa, de extração autobiográfica, que retrata uma temporada exótica entre os negros africanos, nos confins do Congo. Cenas de apelo sensual misturam-se ao perigo de epidemias, leitos a tresandar urina, diarreias tropicais, sob o calor tórrido, o perigo de ataque de crocodilos, corrupção desenfreada em meio à mais degradante miséria.
Entre descrições de episódios violentos e sórdidos, tiroteio, saques, deserções, extermínios a sangue frio, de mistura a flagrantes de bordéis ignóbeis, o narrador dá vazão a um sem número de confidências e queixas: “Tudo aquilo em que tocávamos estava falsificado: o açúcar, os aviões, as sandálias, os doces, as fotografias; tudo quanto líamos, engolíamos, chupávamos, admirávamos, proclamávamos, refutávamos, defendíamos, não passava de fantasmas odiosos, contrafacções e mascaradas. Os próprios traidores eram falsos” (p.66). Transmite ceticismo e uma visão amarga, nada piedosa do sofrimento humano, abalado frontalmente pela constatação da instabilidade e colapso das formas civilizadas de vida dadas como válidas, nem se intimida em mostrar sua impotência e fragilidade diante da civilização compactuada com a loucura da guerra. Diante de certezas que se esfumam, revela-se destituído de espiritualidade, num mundo em que os valores materiais se tornaram hegemônicos. Os recursos narrativos encarecem a sátira feroz, o realismo e o insólito de cenas, o registro linguístico calcado na oralidade, o uso equilibrado de adjetivos e a ênfase na descrição.

CÉLINE, Louis-Ferdinand. Viagem ao fim da noite. 3ª. ed., trad, apres. e notas de Aníbal Fernandes. Lisboa: Frenesi, 1997.