Total de visualizações de página

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Alceu Amoroso Lima

Livro do mês:    

       Atualizado e publicado em 1956, em primeira edição, por Alceu Amoroso Lima (1893-1983), há pouco mais de sessenta anos, Quadro sintético da Literatura Brasileira ocupa posto singular em nossa historiografia literária, tendo em vista a importância do autor no contexto cultural desde os anos de 1940. Corresponde a uma significativa reavaliação do legado modernista, além de seu estatuto de registro privilegiado, decorrente da participação de Alceu A. Lima, principal liderança católica entre os intelectuais, em inúmeros eventos dignos de relevo.

                                            (Foto: Núcleo de memória PUC-Rio)

            A busca de uma visão abrangente nem sempre logra resultados positivos; o recorte que se pretende abreviado mostra-se por vezes excessivamente resumido (no caso do Simbolismo). A esse aspecto, releve-se o reiterado cuidado do organizador em referir o caráter panorâmico, de voo de pássaro, adotado. No último parágrafo do capítulo dedicado ao Simbolismo, após referir Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães e Mário Pederneiras, afirma; “sem mencionar os poetas menores que esta curta memória não comporta” (LIMA, 1959, 60). A matéria apresenta-se sob um enfoque geral tripartido (Fase colonial, Fase imperial, Fase moderna), em que as duas primeiras vertentes parecem denotar inferências sociológicas ou políticas; as subdivisões acolhem critérios baseados nos estilos de época (a Fase imperial cobre dois momentos –“Romantismo (1830-1870)” e “Realismo e Naturalismo (1870-1890)”. A denominação da terceira fase aparentemente foge ao formato seguido nas duas primeiras: sua nitidez decorre do lastro de autonomia que subentende. Inventário cuidadoso de nomes e obras,  o livro alcançou largo prestígio ao longo dos anos de 1960 a 1970. A fundamentação filosófica que alicerça o esboço dos distintos contextos assenta-se em produtivo diálogo com o movimento das ideias instalado no solo europeu. No prefácio desta segunda edição, somos informados que algumas alterações teriam sido efetuadas levando em conta a “colaboração crítica de leitores”. Alguns comentários e posturas interpretativas revelam as esperadas idiossincrasias do autor: a destacada importância atribuída ao grupo de escritores católicos dos anos 1940 e 50 e a defesa da crítica impressionista, considerada como “uma forma indireta de humanismo”. No primeiro tópico, percebe-se a vigilância de alguém que viveu de perto aquela inquietação, como se acompanhasse o próprio percurso de convertido.
            Com a distância de mais de meio século, alguns temas desenvolvidos, hoje, se ressentem de uma postura um tanto apressada, em abordagem ziguezagueante, num movimento ondulatório, que avança um passo, atrasa dois. Josué Montello, romancista, tem uma referência rápida, sem referência a obras, embora receba destaque como ensaísta. O colaborador Eduardo Portela é assinalado de forma equivocada, Eduardo Fontela (p.82). A atuação de Oscar Mendes é reconhecida, sem alusão a títulos publicados. Alceu, como todo crítico, gosta de inventar tendências ou palavras, como “gramaticalidade metalógica”, de conceituação obscura. O gosto dos confrontos tem no autor um praticante entusiasta. A publicação modernista mineira, Revista, ocorreu em 1925, não em 1930, como se lê à página 81. A ausência de uma bibliografia geral e de um índice onomástico alinham-se como falhas capitais. Os capítulos focados no Modernismo e Neomodernismo são o ponto alto, com avaliações ainda válidas e oportunas. “A beleza é essencialmente mutável e relativa. Não há modelos, nem fórmulas, nem formas válidas para sempre” (LIMA, 1959, 126).



LIMA, Alceu Amoroso. Quadro sintético da Literatura Brasileira. 2a. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1959

domingo, 1 de janeiro de 2017

Augusto Meyer


            Acredita-se que a poesia foi a primeira manifestação humana. Em muitos países, os poetas foram os pioneiros no uso estético das palavras, na elaboração de seus sentimentos e emoções.


O escritor gaúcho Augusto Meyer (1902-1970), hoje mais conhecido como ensaísta, um dos principais nomes brasileiros nesta área, iniciou, muito novo, publicando livros de poesia, A ilusão querida (1923), Coração verde (1926), Giraluz (1928), Poemas de Bilu (1929).

                                             (Augusto Meyer por C. Portinari)

 Dirigiu o Instituto Nacional do Livro, desde a sua criação (1938), no governo Vargas, ao longo de quase duas décadas (até 1956). Eleito em 1960 para a Academia Brasileira de Letras, tomou posse em 1961. No ensaio, destacam-se os títulos Machado de Assis (1935), À sombra da estante (1947), Preto e branco (1956), Camões, o bruxo, e outros estudos (1958), A forma secreta (1964). Em 2008, a editora José Olympio deu a lume Augusto MeyerEnsaios escolhidos, com seleção e prefácio de Alberto da Costa e Silva. Augusto Meyer foi também tradutor. Camões, Eça de Queirós, Garrett e Machado de Assis figuram entre os autores analisados.
      Sobre sua poesia, afirma Péricles Eugênio S.Ramos: "É a principal figura do modernismo gaúcho, (...) projeta-se a partir de Coração verde, livro no qual praticou uma poesia melancólica, embora otimista, cheia de presença da terra, bem como de doçura e humildade, e tocada eventualmente por uma ponta de ironia. A expressão é por vezes meiga e idílica" (RAMOS, P. E. S., 1969,159).Para saudar o Ano Novo, um poema de sua autoria.

GAITA

Eu não tinha mais palavras,
vida minha,
palavras de bem-querer;
eu tinha um campo de mágoas,
vida minha,
para colher.

Eu era uma sombra longa,
vida minha,
sem cantigas de embalar;
tu passavas, tu sorrias,
vida minha,
sem me olhar.

Vida minha, tem pena,
tem pena da minha vida!
Eu bem sei que vou passando
como a tua sombra longa;
eu bem sei que vou sonhar
sem colher a tua vida,
vida minha,
sem ter mãos para acenar,
eu bem sei que vais levando
toda, toda a minha vida,
vida minha, e o meu orgulho
não tem voz para chamar.

(Coração verde, 1926.)

RAMOS, Péricles E. S. Verbete Augusto Meyer. PAES, J. Paulo; MOISÉS, Massaud. Org. Pequeno dicionário de Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1969, 159.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O seu a seu dono

     A pressa, a correria dos últimos dias do ano impedem-nos às vezes de perceber a beleza dos dias de sol após as chuvas continuadas. Uma beleza por vezes, infelizmente,  toldada por deslizamentos e inundações que trazem prejuízos e mortes, que poderiam ser prevenidos e evitados. Somos eficientes em creditar toda a culpa ao poder público e tocamos o barco.
      Passamos por cima de revelações simples, ainda que dotadas de grande sabedoria. Como a frase que ouvi na rua, de um senhor idoso, camelô de verduras, nas imediações do Mercado: "Abaixo o preconceito". Como lhe respondesse, em tom de apoio, ele emendou, sorridente: "Só felicidades". Ganhei o dia, pensei, seguindo o meu caminho, em meio às pessoas de cenho carregado, mergulhadas em mil e uma preocupações.
      Da mesma sorte, corremos o risco de não perceber a beleza alcançada de outras formas. O objetivo principal da imprensa é informar, desde os atos de governo, eventos esportivos e artísticos aos desastres e curiosidades. Isto não impede a presença de charges engraçadas, passatempos e outros textos mais amenos, como as crônicas. Por falar em crônicas, uma me emocionou recentemente - "Cerejas da vida", de Vitorio Medioli, publicada no jornal O tempo, domingo passado, 18/12/2016, reflexões de teor filosófico destiladas em linguagem sugestiva e poética.

"Os dias amanhecem como presentes raros: para serem aproveitados, sem ansiedade, mas até o fim". 
                                                                                                                 (Vitorio Medioli)

                                             (Imagem: Gabriel)

      Apesar dos contratempos e dificuldades, feliz Natal e um Ano Novo de paz e prosperidade a todos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O filho de Machado de Assis

      José Martiniano de Alencar (1829-1877). Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Mário Cóchrane de Alencar (1872-1925). Três nomes ilustres, tendo em comum aparentemente o fato de serem escritores. Até recentemente, a tradição aceitava que Mário de Alencar era filho de José de Alencar. A partir de uma crônica de Humberto de Campos, passou-se a suspeitar que o verdadeiro pai de Mário de Alencar teria sido Machado de Assis, que todos acreditavam não ter tido filho. Para tanto, eram aventadas as palavras finais do narrador de um de seus livros, Memórias Póstumas de Brás Cubas, : "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".
      Transcrevo, a seguir, passagem da crônica citada de Humberto de Campos (1886-1934), extraída de Diário secreto, obra póstuma publicada em 1954e trecho de crônica de Carlos Heitor Cony, ambas tratando do tema. A ser verdade, cai por terra todo um repertório crítico, desenvolvido em torno de um homem desencantado, cético, estéril.

                                   (Machado de Assis. Imagem: saocarlosemrede.com.br)

           "Havia, realmente, nos dois, traços fisionômicos que corriam paralelos. E aquela afeição paternal de Machado de Assis, tão desconfiado nas suas amizades e, no entanto, tão ligado a M. de A., cuja presença na velhice não dispensava um só dia?
Meses depois, em uma das minhas visitas ao consultório de Afonso Mac-Dowell, meu médico e amigo, este me recebe exclamando:
 Se você chega dois minutos antes, encontraria aqui um colega seu, da Academia.
 Qual deles?
 O M... M. de A.
Sem a menor lembrança, no momento, das palavras de Goulart de Azevedo, falei-lhe do nervoso do M., o qual não saía à rua sem companhia de um ou dois filhos.
 Nervoso, só, não  atalhou o médico.
E com ares misteriosos:
 Eu lhe digo aqui com a devida reserva: o M. é epilético.
Essa informação pôs um raio de luz em minha dúvida. J. de A. jamais sofreu de epilepsia. Machado de Assis morreu dessa moléstia. Como explicar, pois, a epilepsia de M. de A.?
Mergulhei no oceano desse mistério, tateantes as mãos do meu pensamento. Dom Casmurro não será uma história verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que fica de uns amores clandestinos, não seriam páginas de uma autobiografia?"
                                                                
(Trecho de crônica de Humberto de Campos, em que o autor insinua que Machado de Assis teve um caso com a mulher de José de Alencar.)

                                                           (Mário de Alencar. Imagem: geneall.net)

      "Todos sabiam da amizade final de Machado de Assis por M. de A. - simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo crespo, alguns tiques iguais. Indo a um médico, por causa desses tiques, teve diagnosticada a epilepsia - doença hereditária que tanto maltratara Machado. Tão discreto quando o autor de Helena, viveu na sombra, passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele".
                                        (CONY, Carlos Heitor. Folha de São Paulo. São Paulo, 04/08/1999)

domingo, 11 de dezembro de 2016

Josué Montello

    Livro do mês:

  Antes de focar o autor referido no título, permito-me desfiar algumas palavras preliminares. Em consideração aos mais de trezentos acessos diários, entabulo (algumas palavras precisam ser usadas de vez em quando para não perderem a serventia) mais um breve papo de fim de ano.
      Vivemos tempos complicados no país. A corrupção grassa nas altas esferas, com reflexos negativos para toda a sociedade, como se sabe. O ensino público nunca esteve tão precário, a universidade chega a nos envergonhar por suas opções e ineficiência, não há segurança efetiva que nos proteja de bandidos e o pior, o que já padecia de abandono, vai ao deus dará. A cultura. Vivemos num país em que os valores culturais são distorcidos, os verdadeiros obreiros da cultura não são reconhecidos. Anos atrás dizia-se que um par de chuteiras de Pelé valia aqui mais que as obras completas de Machado de Assis. Não mudou nada. Pelo menos, nos últimos anos testemunhamos a Justiça acordar de seu sono profundo e algumas investigações começaram a cursar, mirando aqueles que praticaram ilícitos, mesmo entre os poderosos. A sociedade, vigilante, apóia esse esforço para prender os culpados, aqueles que se serviram do dinheiro público em proveito próprio.
      Leio um romance de Josué Montello, um autor de grandes méritos, que deixou uma obra imensa e de alta qualidade. Participa do rol dos grandes criadores, numa posição de destaque que os pares ratificam. Sua importância evidencia-se quando o vemos analisado entre os grandes romancistas do século XX, em lugar merecido na monumental obra A literatura no Brasil, dirigida por Afrânio Coutinho. Infelizmente, esquecido. Em tempos em que os maiores prêmios se veem um tanto descaracterizados (o Nobel de 2016 o ilustra a contento), esperar o que, em proporções nacionais?

                                                   (Imagem: pt.wikipedia.org)

      Pela primeira vez, o livro do mês é um livro que ainda leio, e com grande interesse: Cais da sagração. Escrito por um autor talentoso, dotado de pleno domínio dos processos romanescos: apuro de linguagem, gosto pelo detalhe, enredo atraente, sem efeitos mirabolantes. O romance elege como protagonista um barqueiro de grande experiência, o Mestre Severino. À sua volta, movimentam-se personagens pitorescas e histórias vivas, com amplo espectro de motivações e surpresas. Divirto-me um bocado.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar (1930-2016)

      Morreu hoje de pneumonia, no Rio de Janeiro, aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, dramaturgo e escritor Ferreira Gullar. Eleito em 2014 para a Academia Brasileira de Letras, colecionou vários prêmios, ao longo da carreira.

                                                        (Foto: pt.wikipedia.org.)

      Nascido em São Luís do Maranhão (1930), mudou-se para o Rio de Janeiro nos anos 1950, destacando-se pela intensa participação no cenário cultural. Juntamente com Lígia Clark e Hélio Oiticica, atuou na consolidação do movimento artístico denominado Neoconcretismo. Foram desenvolvidas marcantes contribuições no sentido de projetar novos processos e suportes para a pintura, além do quadro, com recusas e repercussões polêmicas. A subversão de noções tradicionais no campo das artes plásticas determinou um sistema de trocas entre pintura e escultura, pintura e teatro, alargando os postulados conceituais em vários campos artísticos. Nos anos de 1970, perseguido pela ditadura militar, por ser comunista, exilou-se do país. Retornando ao final da década, numa operação de solidariedade organizada por amigos influentes e jornalistas, foi preso, depois liberado. Dentre os prêmios, destacam-se dois Jabutis, o primeiro em 2007, pelo livro de crônicas Resmungos, o segundo, recebido em 2011, pelo livro de poesia Em alguma parte alguma. Concedido pela Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, veio em 2005. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, maior láurea destinada a escritor de língua portuguesa.


      Dentre seus principais livros, numa produção multifacetada e central para o debate estético nas últimas décadas, merecem ser referidos: na poesia, A luta corporal (1954), com a visível ruptura com o verso linear, Dentro da noite veloz (1975), seguido de Poema sujo (1976), escrito no exílio argentino, título decisivo para se desvencilhar do radical impasse diante do verso discursivo, Na vertigem do dia (1980); no ensaio, Teoria do não objeto (1959), Vanguarda e subdesenvolvimento (1969), Experiência neoconcreta: Momento-Limite da arte (2007): no teatro, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966), Um rubi no umbigo (1978); Rabo de foguete (1998), de memórias.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Quinquilharias, lixo cultural e boas intenções

      Continuam em vigor as práticas de explorar a ingenuidade e boa fé das pessoas. Em operação, a manjada armadilha de autores e editores inescrupulosos. Fim de ano, época de festas e de dar presentes. Fim de ano, época de lançamento de livros de autoajuda à fartura. Predominam aqueles de extração religiosa, oriundos das mais diversas raízes e tendências. Em alguns casos, são os mesmos livros de anos passados, com novos títulos e um ou outro remanejamento. Fique esperto.

                                              
                                                     (O desenho é de Almada Negreiros)


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Conferindo títulos



Estrela da manhã, Manuel Bandeira.
Estrela polar, Vergílio Ferreira.
Luz da estrela morta, Josué Montello.

O baile da despedida, Josué Montello.
Antes do baile verde, Lygia Fagundes Telles.

Casa Grande & Senzala, Gilberto Freire.
A velha casa, José Régio.
Casa grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro.
Relíquias da casa velha, Machado de Assis.
A Casa Verde, Vargas Llosa.



Festa, Mário Garcia de Paiva.
A festa, Ivan Ângelo.

Inquieta viagem ao fundo do poço, Elias José.
A viagem sem regresso, Josué Montello.

Memorial do convento, José Saramago.
Memorial do fim, Haroldo Maranhão.
Memorial de Isla Negra, Pablo Neruda.
Memorial de  Aires, Machado de Assis.

Memórias sentimentais de João Miramar, Oswald de Andrade.
Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.
Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida.

A república dos sonhos, Nélida Piñon.
A república das abelhas, Rodrigo Lacerda.


Os sertões, Euclides da Cunha.
Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa.

Ano novo, vida nova, Maria José de Queiroz.
Feliz ano velho, Marcelo Rubem Paiva.
Feliz ano novo, Rubem Fonseca.

A cinza das horas, Manuel Bandeira.
A cinza do purgatório, Otto Maria Carpeaux.
Cinzas do norte, Milton Hatoum.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lawrence Durrell

Livro do mês:

Quarteto de Alexandria


Como decorre em algumas temporadas, pus-me a reler o Quarteto de Alexandria, obra máxima do escritor britânico, nascido na Índia, Lawrence Durrell (1912-1990), grande e arrebatadora descoberta literária da minha adolescência. Como se sabe, o autor, em breve nota ao último estágio da narrativa, confirma que os quatro volumes (Justine, Baltasar, Mountolive e Clea) formam “um corpo homogêneo e como tal deve ser considerado”. Na nota de apresentação a Baltasar, deixou uma trilha: “o eixo deste livro é uma investigação do amor moderno”. Sentimento visceral, como tal reconhecido numa das páginas: “Compreendi, então, a verdade do amor: um absoluto que tudo aceita ou tudo despreza. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura, e assim por diante, só existem à periferia, são aquisições da vida social e do hábito. A austera e impiedosa Afrodite é legitimamente pagã. Não é do nosso cérebro, nem dos nossos instintos, que ela se apodera – mas da nossa medula” (DURRELL, s.d.a,125-126).

                  (Durrell com a filha Penelope. Imagem: Durrelliana-WordPress.com)

A opção da vez foi Clea, o último da série, talvez o mais trágico. E como sempre, acabo me envolvendo naquele universo mágico de mulheres fatais, alto mundo das finanças, emoldurado por tiradas filosóficas e literárias bastante sofisticadas. A re-leitura de um relato motiva inevitavelmente a procura de passagens de outro, enleados que somos pelas íntimas conexões existentes nesse círculo obsessivo de personagens: “Justine, Melissa, Clea... Éramos tão poucos que na verdade um livro devia ser suficiente para esgotar-nos. Eu também acreditei que assim fosse. Agora dispersos pelo tempo e pelas circunstâncias, quebrado para sempre o circuito...” (DURRELL, 1970a, 14).


Meu preferido tem sido Mountolive, o terceiro volume. Em seguida, Baltasar. Neles são mais nítidos os traços romanescos desta saga fabulosa, em que as surtidas amorosas surgem envoltas em camadas de significação secreta, devastando os bastidores da política internacional (ainda sob a combalida hegemonia da Inglaterra), o cotidiano de uma embaixada inglesa no Oriente, bancarrotas e ruínas de poderosos grupos. Mas os quatro relatos são excelentes. Tudo narrado com invulgar domínio da técnica romanesca, sob a lupa vertiginosa de um observador esmerado em se arriscar em análises psicológicas, extremamente atento aos mínimos detalhes, projetando uma temática ainda atual – o conflito Ocidente/Oriente, dentre outras investigações. Algumas associações inesperadas, aliadas a recursos poéticos incisivos, produzem efeitos por vezes surpreendentes, como neste flash ao rosto de Memlik Paxá: “Os seus lábios eram muito vermelhos, o inferior, principalmente; e a sua aparência de fruto maduro sugeria a epilepsia” (DURRELL, s.d.b, 304). Os ambientes sociais glamourosos de Cairo e de Alexandria funcionam como cenário decadente para um enredo diversificado, excessivamente amplo e aberto para acolher desvios, aberrações e situações-limites como rubricas, suporte ou pano de fundo ao eixo narrativo principal. São célebres as descrições do luxo feminino, envolvendo Justine, Melissa, Clea, Liza, Leila, dentre outras deusas esplendorosas, flagradas em salões exuberantes, reluzentes. Não menos famosas as descrições de suntuosos palácios de armadores e empresários, vazadas sob impressões que respingam em referência ao Rio de Janeiro, como esta a respeito da arquitetura urbana, extraída de Mountolive: “Seja nas ruas de Roma ou do Rio, uma pessoa fica pasmada diante das suas fachadas sinistras. Os pilares curtos e grossos sugerem um mamute atacado de elefantíase, uma sobrevivência grotesca, ou talvez o renascimento, de algo genuinamente macabro – uma espécie de gótico-otomano-egípcio (DURRELL, s.d.b,302)”. Como estratégia para fugir à sedução da Unidade, que o narrador supõe ter desaparecido do mundo moderno, somos conduzidos a perceber os eventos e as personagens filtrados por uma abrangente visão prismática, continuamente renovada. O colapso do império britânico esbate-se num mural impiedoso da decadência da aristocracia inglesa, numa crônica indiscreta, de personagens densos, bizarros, algo sinistros. O encontro final entre Mountolive e Leila assume uma dimensão dramática, patética.


São surpreendentes e poéticos os relatos noturnos de Alexandria que reverberam, de forma transfigurada, o percurso misterioso e o destino marginal do poeta grego Constantino Caváfis. “...E, embora ocupado o meu espírito por estas recordações, ia vendo com outra parte de minha consciência aquela Alexandria que se desbobinava uma vez mais diante de mim – com seus cativantes pormenores, o seu insolente colorido, a sua pobreza e a sua beleza esmagadora” (DURRELL, 1970b,37). Somos a cada página tocados por uma paisagem inesquecível, um rosto marcante, um olhar devastador ou por um pensamento, como este, exarado diante do corpo inerte de Melissa: “Creio que nós, os escritores, temos um coração de pedra. Os mortos não contam. São os vivos que nos interessam desde que lhes possamos arrancar a mensagem que se esconde no cerne de toda a experiência humana” (DURRELL, s.d.a, 278). Difícil ficar indiferente aos terríveis encantos de Justine, de quem o marido, Nessim Hosnani, afirma: “Nem sequer posso afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as pessoas de seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural que isso seja doloroso e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela lhes infligia” (DURRELL, s.d.a, 39).


DURRELL, Lawrence. Justine. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, s.d.a.
DURRELL, Lawrence. Baltasar. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970a.
DURRELL, Lawrence. Mountolive. Trad. Daniel Gonçalves. Rio de Janeiro: Ulisseia, s.d.b.
DURRELL, Lawrence. Clea. Trad. de Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970b.


sábado, 22 de outubro de 2016

Um pesadelo


            “Baios e sonhos semelham-se. Não se esperem, daqueles, coerência e moderação nas disparadas pelos prados, quando não busquem um fim; nem dos sonhos que se desatem com método” (MARANHÃO, Haroldo, 2004, p. 64).

            Tenho um sonho com sobressaltos. Acordo nervoso e trêmulo, suando a púcaros.
          Um velho esgrouvinhado, barba por fazer, aspecto entre arrependido e assustado, parecido com a imagem gasta impressa em jornais, aproxima-se de mim. Nada de anormal, até perceber tratar-se de um ser alado. Não só, os adjetivos em fileira mostram-se impotentes para a exata configuração: astuto, demagogo, dissimulado, falastrão, inescrupuloso, patusco, solerte. Eu estava então como Inês: posto em sono sossegado. Andava impávido num passeio urbano, defronte de grades de um hotel, nitidamente aterrorizantes. Se me evadisse para as estrelas, projetado por satélites, mesmo assim o encontro dar-se-ia.
            Antes de prosseguir, impõe-se uma divagação preliminar a respeito de sonho e derivados. Se me atenho ao narrador de Haroldo Maranhão, em reflexão transcrita na epígrafe, sou levado a comparar os sonhos a cavalos desembestados, que galopam sem rumo certo. Se resolvo seguir o conselho de Madredeus, o grupo musical português, não devo prosseguir, porque “contar um sonho é proibido”. Preciso refinar o conceito: o que tive não foi um sonho, mas um pesadelo. Em que pesem os elementos inconscientes envolvidos num pesadelo, contar um pesadelo é abominável. Em que pesem idênticos traços, pesadelo é matéria de descarrego, tendente a dissipar-se. Em vista disso, desisto de fornecer os detalhes da cena, divulgo apenas o essencial, no caso, o diálogo travado, entre um profissional das letras (eu) e a tortuosa e velhusca criatura. Extintas ficam circunstâncias anódinas, relativas à escolha do logradouro, a hora aprazada, o papel de intermediários.

                                              (Imagem: www.hdwalls.syz)

            O improvisado escriba abanca-se à mesa de um bar, ofegante. Traz, abrigados nos calores das axilas, os calores crispados da polêmica, envoltos em fitilha vermelha.
“Gostaria que corrigisse este artigo”, ele diz, passando para as minhas mãos um manuscrito ensebado, letras em garrancho em laudas e laudas de almaço. “Preciso me explicar ao povo, alguém deve corrigir este artigo, fazendo-o submeter-se aos parâmetros da gramática. O estilo não deve ser mexido”.
“As denúncias não desaparecem, diante de argumentos esfarrapados”, atrevo-me a retrucar.
“Denúncias infundadas, diante de mimos e benfeitorias desinteressadas, um sítio bucólico e airoso, uma banal casa de praia”.
            “Uma tarefa embaraçosa”, afianço, na expectativa de me safar.
            “Sem dúvida, uma tarefa trabalhosa, mas será recompensado à altura”.
            “Centenas de profissionais, igualmente capacitados, aceitariam atendê-lo graciosamente”, atiro no escuro da noite, sutil estratégia de elogio e desistência.
            “Você foi escolhido. Diga seu preço, sem tergiversar”. Os olhos são esferas chamejantes. Sinto-me no exato beco sem saída, na noite opressora, opaca.
            “Trinta reais a página”, retruco, inflacionando em dobro o serviço. “Mais: pagamento em cheque, referendado por assinatura, seguido de recibo, com especificação do labor prestado”.
            “De menos. Contratado!” exclama em tom firme e impositivo.
            Acordo, frio e trêmulo, suando a púcaros.


MARANHÃO, Haroldo. Memorial do fim: a morte de Machado de Assis. 2ª. ed. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004.