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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Livro do mês

      Saindo do prelo, um mergulho no passado recente,
Dias portugueses. Aguarde.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Em louvor da cachaça


      A aguardente produzida com a cana-de-açúcar, vulgarmente conhecida como cachaça, cana ou pinga, é uma bebida bastante popular no Brasil. Com cachaça e limão, prepara-se a famosa caipirinha, coquetel fartamente celebrado. A cachaça também inspira poetas, como se observa nas quadras de Paschoal Motta e Hélio Petrus, em duelo poético.





BEBA, HÉLIO, A SUA ARCANA;
VOU DE SUPER DUBARROSO,
ESTA DA MAIS PURA CANA,
ME TORNA SEMPRE GARBOSO.
 
VALE A VIDA COM ALEGRIA,
NA PINGA DE PREFERÊNCIA,
SAUDÁVEL, SEM ALERGIA,
POR TODA MINHA EXISTÊNCIA.
 
... Aí:
 
HP, de pronto, joga verde com propostas sutis, numa manha:
 
    FAÇAMOS, ANTES, UM PACTO:
    SÓ DIZER O VERDADEIRO;
    NÃO VALE CAIR NO MATO
    E ESCORREGAR DO POLEIRO...

    SOU JUSTO EM MINHAS RAZÕES,
    DESDE PEQUENO EU BENDIGO:
    NUNCA TOMEI BELISCÕES
    ABAIXO DO MEU UMBIGO...
 
    SE ALGUMA MENTIRA DIZ,
    PEÇA PRIMEIRO LICENÇA:
    VOU CONSULTAR O JUIZ
    PRA VER SE EXISTE CLEMÊNCIA.
 
COM POUCOS VERSOS DERRUBO
ESSA LOQUAZ PRETENSÃO:
ARCANA NÃO É DO VULGO,
É CANA DE SELEÇÃO.
        
PM apela e recorda seu etéreo protetor etílico:      
 
 BACO PASSOU POR SÃO PEDRO
 ESPALHANDO A SUA GRAÇA,
 OS PURIS NO MATO TREDO
 SE ACALMARAM C’A CACHAÇA.

 COMO FOSSE NUM NIRVANA,
 OS ÍNDIOS VIVIAM AO LÉU,
 PLANTARAM ROÇAS DE CANA,
 PRA DUBARROSO DO CÉU...

 BACO ACERTOU A RECEITA
 PARA A ALEGRIA FUTURA,
 A PINGA ESPANTOU A MALEITA;
 E HOJE ARCANA QUEM ATURA?

 SÓ UM INCRÉU D’ARCANA INGERE
 UMA GOTA E MAIS NADA;
 DUBARROSO QUEM PREFERE
 TEM A FÉ RECUPERADA...
HP rebate com ameaça de seus protetores num juízo final:

TODO O JUIZ IRMANA
NUM JUÍZO PAVOROSO:
AOS BONS ELE DARÁ ARCANA;
AOS INFIÉIS, DUBARROSO.

ORDENARÁ A SEUS ANJOS
A SEPARAÇÃO ARCANA:
FAZENDO LINDOS ARRANJOS
À DIREITA, COM ARCANA.

DESPEJARÁ TODA IRA
DO SEU TRONO MAJESTOSO,
QUEIMANDO EM CELESTE PIRA
A INFERNAL DUBARROSO:
 
O POVO INGRATO E MALDOSO,
DE CAIM, RAÇA ESQUISITA,
ADORAVA DUBARROSO,
E EM JAVÉ NÃO ACREDITA!







sábado, 15 de julho de 2017

Miguel Torga

      O autor português Miguel Torga (1907-1995), pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, produziu obras literárias na área da ficção, da poesia, do teatro e do memorialismo. Na juventude, passou uma temporada de cinco anos no Brasil, mais precisamente na região de Leopoldina, Minas Gerais, em fazenda de um tio, tendo frequentado o Ginásio Leopoldinense. Sobre a permanência de Torga em solo brasileiro, registre-se o trabalho exemplar de Pedro Rogério Couto Moreira, desenvolvido a partir da leitura de páginas do Diário, do autor português e de pesquisas de campo - Geografia sentimental de Miguel Torga em Minas (Brasília, Thesaurus, 2016).

                            (Foto: formatura no curso de medicina, espacomigueltorga.pt)

"Coimbra, 25 de maio de 1949. O Marquês de Sade. Um calafrio que só as leituras proibidas dão. A gente volta cada página arrepiado, com a sensação de que está a meter a alma no Inferno. E é essa inquietação que todos os livros deviam provocar. (...) O homem necessita do pecado para viver, como de especiarias para comer. Julgo mesmo que o futuro se esforçará por contrariar cada vez mais a sonolência beócia das páginas cor-de-rosa.

Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935 — Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era".


Do Diário V.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Adélia Prado

Livro do mês:        


          Adélia Prado logra executar, em Os componentes da banda, uma partitura narrativa desfibrada, sem músculos. Fruto de uma arejada conceção do que seja uma novela, ou um concerto verbal de feição aglutinadora, a obra acolhe breves relatos, receitas domésticas, reflexões intempestivas, pensamentos aleatórios, esboços de poemas, lembranças do passado, registros diários e devaneios de uma anódina rotina doméstica. A narradora não faz segredos de seu estatuto de dona de casa, em segundo casamento, envolvida em tarefas corriqueiras, pequenos compromissos, eventos banais, efemérides citadinas e familiares. Na verdade, uma dublê de dona de casa e professora: “Em plena aula a cantineira abre a porta, sem bater: ‘ponho o que pra senhora hoje? Tem empada e biscoito frito.’ Sinto tanta vergonha que não tenho coragem de escolher. Põe qualquer coisa, falo depressa, pros meninos se esquecerem de que eu posso escolher entre empada e biscoito frito” (PRADO, 1985, 22). Sem esquecer as impressões fugidias sobre uma ou outra palavra – como “soturno”, a preferida do pai, ou “pudera”, considerada a mais bela palavra pela mãe. Prefere ser conhecida por compositora, não como escritora. Rodeada de frades solícitos, comadres espevitadas, amigas desconfiadas e parentes pernósticos, a narradora irascível se deixa contaminar pela poeta, religiosa e onipresente.



          “Não pinto o cabelo, os fios brancos têm excelente brilho, Deus me quer tão bem, as pessoas pensam que pinto as mechas esmeradamente. Penso em fazer balé, pra dar boa diligência aos gestos. Como se movem lindo os bailarinos. Senti uma sensação esquisita, a mocinha me elogiou: ‘que pés lindos!’ Papai tinha pés inacreditáveis, era bom ver ele descalço, pés para amoroso trabalho de estátua. Nunca soube. Fora melhor também eu não saber. Mãos não tenho bonitas, só quem acha é Pedro que se ri apenas de minhas orelhas” (PRADO, 1985, 78-79).

          Não há um enredo decisivo, uma ossatura de fatos encadeados logicamente. Mas os fatos narrados têm uma graça pitoresca, provocam um interesse dobrado em quem deles se aproxima, seduzido por uma descrição ingênua, uma situação simultaneamente grotesca e engraçada, o coloquial tosco. Sucedem-se, sem encadeamento rigoroso e uma fixação sólida em algum contexto, notações e comentários avulsos sobre eventos rarefeitos: um casamento na roça, um aniversário de criança, uma novena ensaiada. O que salva toda essa barafunda de intriga esgarçada é uma postura descontraída diante da linguagem, como se a cada linha a narradora se revelasse encantada pelo poder mágico das palavras. “Não sou carioca, por isso não uso verão, uso tempo de calor, quando a gente fazíamos piquenique na cachoeira do rio Lambari. Eu era má, eu já fui bem mazinha, quando comprava um queijo, era só pra mim. As mulheres na feira têm ancas de surrar marido, que belo manto adiposo, verdadeiras rainhas” (PRADO, 1985, 154).
          Por vezes o relato beira o universo infantil por ser poético, ou seria o contrário? A mistura de lucidez e sutileza, de lirismo e objetividade, com uma deliberada tentativa de embaralhar o universo referencial, culmina num mergulho desordenado no fluxo de consciência que só consegue pausa e respiração num apelo místico, cessado apenas com um ponto final.


PRADO, Adélia. Os componentes da banda. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Josué Montello

Livro do mês: Cais da sagração


      Retorna este título à rubrica - livro do mês, após encerrada a leitura. Impossível resistir ao poder de sedução do autor, que se impõe com perfeito domínio dos recursos narrativos. O leitor percebe quando o autor se entrega prazeirosamente à prática da escrita: Josué Montello (1917-2006) é bom exemplo dessa virtude. Transmite o gosto em descrever o rosto, as pestanas, as sobrancelhas das personagens, o que transparece a cada página. "A fisionomia devastada, sentia as mãos frias, o coração em disparada, o mesmo aperto na garganta"( MONTELLO, s.d.,53). Em poucas palavras, o narrador descreve a rotina de um grupo humano, sob a moldura ensolarada da orla de São Luís do Maranhão. Alguns aspectos singulares dão colorido às descrições vazadas em linguagem sóbria e elegante.

       "Os igaratés de pesca, com as suas pequenas velas triangulares, iam começando a voltar, na tarde que lentamente esmorecia. Uma claridade de cristal partido dançava por cima das ondas, enquanto uma luz mais suave, ora vermelha, ora rósea, diluindo-se em tonalidades violáceas, se estendia sobre as águas inquietas, riscada a espaços pelo balanceio calmo das asas das gaivotas. Um traço roxo, tirando a cinza, fechava o horizonte, no ponto em que o mar se encontrava com o céu, e acima desse traço alastrava-se a fulguração esbraseada do sol, que parecia também ondular no dorso das vagas a sua cabeça decepada" (MONTELLO, s.d.,72-73).



      Cais da sagração traz um protagonista rico de experiência, o velejador Severino. E o estilo é elegante, transparente, as descrições poéticas e sugestivas. Ainda atual, comove pela densidade humana e amplo espectro de motivações. O final flagra o conflito vivido pelo velho barqueiro, experimentado nas lides do mar, ao perceber o desinteresse do neto pelo seu ofício. Mestre Severino, de índole fria, assassino da mulher Vanju, ao espreitar artimanhas adversas, decide morrer no mar, lançando-se no perigo da grande tempestade que sacode as altas ondas alvoroçadas. O pior lhe ronda a mente: morrer, "arrastando na morte o neto que não queria ser barqueiro" (MONTELLO, s.d., 297). Josué Montello transfigura nesse desenlace o drama de muitos pais (ou avós) que sofrem a indiferença dos descendentes. Entre ondas agitadas e trovões, o barco avança "aos trombolhões", na treva escura oceano adentro, retalhado por relâmpagos. Os eventos sucedem-se dramáticos, nas malhas de uma destinação trágica, ampliada por vínculos religiosos. Nessa luta com o mar, o neto descobre seu destino, amparando o avô arquejante. 

                                                           (Foto: www.terra.com.br)

     Ao lado de Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcio Cardoso, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Osman Lins, Clarice Lispector, Josué Montello integra a seleção dos expoentes da moderna ficção brasileira. Autor de extensa obra ficcional, ensaísta de méritos, testado em vários títulos, publicou também biografias, peças teatrais, novelas e diários. Muitos livros de sua autoria figuram entre as mais expressivas criações romanescas do país, como A décima noite (1959), Os degraus do paraíso (1965), Cais da sagração (1971), Os tambores de São Luís (1975), A noite sobre Alcântara (1978), O largo do desterro (1981), O baile da despedida (1992).

MONTELLO, Josué. Cais da sagração. Rio de Janeiro: Record/Altaya, s.d.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Armando Silva Carvalho (1938-2017)

      Morreu esta manhã, em hospital de Caldas da Rainha, Portugal, o escritor Armando Silva Carvalho. Acima de tudo, como poeta, deixa uma obra relevante, embora a produção do ficcionista e tradutor também seja digna de apreço. Seus principais livros de poesia compreendem O comércio dos nervos (1968), Armas brancas (1977), Técnicas de engate (1979), Canis Dei (1995), Lisboas (2000), Sol a sol (2005), O amante japonês (2008), nos quais se evidenciam, ao lado da consciência do labor poético, um forte interesse pelas pulsões do afeto, do corpo, da experiência cotidiana, sem se contaminar de banalidade, acrescido pelas solicitações eruditas e um refinado registro de tradições lusas. O que não impedia a paixão pelos brasileiros Elis Regina e João Cabral de Melo Neto. O que foi passado a limpo (2007) é o título da obra poética que colige a produção completa até então. Em prosa, publicou Portuguex  (1977), Em nome da mãe (1994), O homem que sabia a mar (2001), O menino ao colo. Momentos, falas, lugares do sublime Santo António (2003), Elena e as mãos dos homens (2004), dentre outros. Traduziu Stéphane Mallarmé, Marguerite Duras, Samuel Beckett, Aimé Césaire, Jean Genet.

                                                   (Foto: www.sol.sapo.pt)

domingo, 21 de maio de 2017

A Lava Jato na soleira da Cultura

       A operação Lava Jato, desencadeada há três anos em Curitiba, com o objetivo de combater focos de corrupção no país, bate às portas dos umbrais da Cultura. Em alerta, ou às portas da prisão, alguns corifeus e mandarins da cena cultural dos últimos dez anos. Por enquanto, fiquemos com um único produtor. Surgido nos anos 70 em Belo Horizonte, como promessa nos redutos da literatura, Luiz Fernando Emediato perpetrou ao longo de vinte anos alguns livros de contos, inspirados numa concepção de arte socialista ao pé da letra. A fama de figura maldita, sob o viés político, espalhou-se. Tornou-se aos poucos figura exponencial no milieu,  como militante cultural nos governos petistas, promoveu saraus e a 2a. Bienal do Livro em Brasília, agregando empolgados simpatizantes do sistema. Como editor, publicou, com estardalhaço de marketing, o livro Privataria tucana. Recentemente, esteve envolvido até o pescoço num negócio bilionário entre a Odebrecht e o Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Trabalhador (FI do FGTS), com mafiosos graúdos, Eduardo Cunha no meio, em que teria recebido mais de três milhões, como Conselheiro do FI do FGTS. Foi demitido do Conselho. O noticiário de hoje é incisivo e fala por si. Cito, a seguir, o jornal O tempo:

                                        "J&F PAGA ASSESSOR DE MINISTRO 
        O diretor de relações institucionais do grupo J&F, Ricardo Saud, disse em delação premiada que pagou R$ 2,5 milhões a Luiz Fernando Emediato, quando trabalhava como assessor especial do Ministério do Trabalho, para aumentar a fiscalização de frigoríficos concorrentes da JBS."

O tempo, Belo Horizonte, Política, 21 maio 2017, p.3.

                                               (Imagem: culturamix.com)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Antonio Cândido (1918-2017)

      O crítico, ensaísta e intelectual Antônio Cândido de Melo e Sousa morreu nesta madrugada em São Paulo. Formado em ciências sociais pela USP, em 1941, passou a lecionar, na mesma instituição, sociologia e, depois, teoria literária. Dedicou-se ainda jovem à crítica, a princípio em rodapés de jornais, em seguida, em livros, que recolhem ensaios de natureza sociológica e de interpretação da cultura nacional. Com o livro Formação da literatura brasileira (1959), recebeu o primeiro prêmio Jabuti, alcançando indiscutível prestígio. Os principais traços em que fundamenta sua análise crítica compreendem a "síntese segura", a "exposição sistemática" e a "erudição discreta", reconhecidos em 1946 por Sérgio Milliet, em resenha ao trabalho Introdução ao método crítico de Sílvio Romero (1945). Um forte sentido nacionalista, por vezes com discutíveis desdobramentos, permeia a totalidade de sua produção ensaística, referência fundamental no campo dos estudos literários. Recebeu em 1998 o Prêmio Camões, em Lisboa; em 2005, o prêmio internacional Alfonso Reyes, no México. Faturou por quatro vezes o prêmio Jabuti (1960, 1965, 1988, 1993). 

                                                  (Foto: veja.abril.com.br)
                                               
      Seus principais títulos privilegiam o ensaio e a hermenêutica. Além dos citados, destacam-se: Brigada ligeira (1945), Ficção e confissão (sobre Graciliano Ramos) (1956), A personagem de ficção (1963), Tese e antítese (1964), Os parceiros do Rio Bonito (1964),  Literatura e sociedade  (1965), Vários escritos (1970), O discurso e a cidade (1993), A educação pela noite e outros ensaios (3a. ed. 2000).

MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet IV. 2a. ed.São Paulo: Martins EdUSP, 1981.

terça-feira, 2 de maio de 2017

José Régio

             Li com interesse As raízes do futuro, segundo volume da saga A Velha casa, belíssimo romance do autor português, José Régio (1901-1969). Agrada-me a narrativa lenta, discreta, votada a acompanhar o cotidiano de uma família, atenta aos pequenos gestos, celebrações e conflitos. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, o autor fundou a revista literária Presença, que circulou em Portugal durante treze anos, entre 1927 a 1940. José Régio escreveu poesia, ficção, teatro, crítica, memórias, ensaios, em alta espessura estética. Como autor dramático, teve uma peça de sua autoria, Jacob e o Anjo, encenada em Paris, em 1952. Nos anos de 1950, exerceu larga influência em novos autores, presidindo encontros em lugares públicos, como o Café Central, em Coimbra, depois em  Portalegre. “Grande parte do jantar decorrera sem novidades, com as conversas do costume no estilo e tom costumados. Porém a dada altura, num intervalo de silêncio, que havia de ocorrer ao primo Hipólito? Aludir à carta de João. Como se espalhara a notícia dessa carta entre todos os parentes e aderentes, não se sabia claro. O certo é que se espalhara. E se a prima Ricardina fora viva, Deus lhe perdoe!, não deixara de gulosamente agarrar o assunto como infalível meio de magoar os seus hospedeiros. Tal não era a intenção do primo Hipólito. Mas o primo Hipólito era um desatento e um tímido. E quando um tímido desatento procura mascarar a sua timidez – é capaz, sem querer, de desencadear catástrofes!” (RÉGIO, 1972, 129-130).


                Autor de extensa obra, publicou, no gênero poesia, Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As encruzilhadas de Deus (1936), Filho do Homem (1961), Cântico suspenso (1968). Em ficção, os principais títulos compreendem o primeiro romance Jogo da cabra-cega (1934); Davam grandes passeios aos domingos (1941); O Príncipe com orelhas de burro (1942); Histórias de mulheres (1946); os cinco volumes da saga A velha casa: Uma gota de sangue (1945), As raízes do futuro (1947), Os avisos do destino (1953), As monstruosidades vulgares (1960), Vidas são vidas (1966). Para o teatro, destacam-se Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem-mãe (1947). Revela-se memorialista em Confissões dum homem religioso (1971), publicação póstuma. O ensaísta afirma-se em Ensaios de interpretação artística (1964) e Três ensaios sobre arte (1967).
                Li depois o terceiro volume (Os avisos do destino). Encontrei o exemplar na internet, capa dura em bela encadernação de iluminuras douradas, a edição de 1980, pela ed. Brasília, do Porto. Dosada com ironia e cuidadosa análise de caracteres, acompanha a narrativa a formação de Lèlito, focando, em riqueza de detalhes, o ambiente de pensões de estudantes em Coimbra, a vida acadêmica, algum namoro, a boêmia de uma geração de jovens escritores. As discussões a respeito da criação literária sublinham os conceitos de autenticidade e literatura viva, que constituem o legado teórico deixado por Régio em artigos publicados em Presença.
               O enredo simples, ao redor do desenvolvimento social, afetivo e intelectual de Lèlito, parece reunir, transfiguradas, passagens biográficas de José Régio. O reencontro dos irmãos (Lèlito e João), após o longo desaparecimento do segundo, possibilita a discussão de temas ligados à militância social.  Esse aspecto, um dos sentidos sugeridos pelo título, insinua-se nesta fala, proferida num quarto de estudante, diante de alguns simpatizantes: “O que tenho a dizer-vos – recomeçou João – é, ao mesmo tempo, muito simples, e difícil de dizer. Ou talvez ainda mais de compreender, quando se não viveu a longa e complexa experiência que tenho vivido: experiência dos fatos, dos seres, dos ambientes diversos; e também outra forma de experiência, que chamarei íntima” (RÉGIO, 1980, 399). Na sequência, o jovem e improvisado orador assegura a importância de partilhar a experiência adquirida: "Viver, conviver, observar, meditar... - eis as bases, creio, de toda a cultura viva. Uma aventura predominantemente doutrinária e teórica bem poderá conduzir à estreiteza dum fanatismo intolerante" (RÉGIO, 1980, 401). No geral, as avaliações à produção ficcional de José Régio reforçam platitudes genéricas, por vezes indiciadoras de um orquestrado processo de silenciamento em torno de uma obra monumental, desafiadora, em face de rasos parâmetros socializantes.
               
RÉGIO, José. As raízes do futuro. 2ª. ed.  Porto: Brasília, 1972.

RÉGIO, José. Os avisos do destino. Porto: Brasília, 1980.