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domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar (1930-2016)

      Morreu hoje de pneumonia, no Rio de Janeiro, aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, dramaturgo e escritor Ferreira Gullar. Eleito em 2014 para a Academia Brasileira de Letras, colecionou vários prêmios, ao longo da carreira.

                                                        (Foto: pt.wikipedia.org.)

      Nascido em São Luís do Maranhão (1930), mudou-se para o Rio de Janeiro nos anos 1950, destacando-se pela intensa participação no cenário cultural. Juntamente com Lígia Clark e Hélio Oiticica, atuou na consolidação do movimento artístico denominado Neoconcretismo. Foram desenvolvidas marcantes contribuições no sentido de projetar novos processos e suportes para a pintura, além do quadro, com recusas e repercussões polêmicas. A subversão de noções tradicionais no campo das artes plásticas determinou um sistema de trocas entre pintura e escultura, pintura e teatro, alargando os postulados conceituais em vários campos artísticos. Nos anos de 1970, perseguido pela ditadura militar, por ser comunista, exilou-se do país. Retornando ao final da década, numa operação de solidariedade organizada por amigos influentes e jornalistas, foi preso, depois liberado. Dentre os prêmios, destacam-se dois Jabutis, o primeiro em 2007, pelo livro de crônicas Resmungos, o segundo, recebido em 2011, pelo livro de poesia Em alguma parte alguma. Concedido pela Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, veio em 2005. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, maior láurea destinada a escritor de língua portuguesa.


      Dentre seus principais livros, numa produção multifacetada e central para o debate estético nas últimas décadas, merecem ser referidos: na poesia, A luta corporal (1954), com a visível ruptura com o verso linear, Dentro da noite veloz (1975), seguido de Poema sujo (1976), escrito no exílio argentino, título decisivo para se desvencilhar do radical impasse diante do verso discursivo, Na vertigem do dia (1980); no ensaio, Teoria do não objeto (1959), Vanguarda e subdesenvolvimento (1969), Experiência neoconcreta: Momento-Limite da arte (2007): no teatro, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966), Um rubi no umbigo (1978); Rabo de foguete (1998), de memórias.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Quinquilharias, lixo cultural e boas intenções

      Continuam em vigor as práticas de explorar a ingenuidade e boa fé das pessoas. Em operação, a manjada armadilha de autores e editores inescrupulosos. Fim de ano, época de festas e de dar presentes. Fim de ano, época de lançamento de livros de autoajuda à fartura. Predominam aqueles de extração religiosa, oriundos das mais diversas raízes e tendências. Em alguns casos, são os mesmos livros de anos passados, com novos títulos e um ou outro remanejamento. Fique esperto.

                                              
                                                     (O desenho é de Almada Negreiros)


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Conferindo títulos



Estrela da manhã, Manuel Bandeira.
Estrela polar, Vergílio Ferreira.
Luz da estrela morta, Josué Montello.

O baile da despedida, Josué Montello.
Antes do baile verde, Lygia Fagundes Telles.

Casa Grande & Senzala, Gilberto Freire.
A velha casa, José Régio.
Casa grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro.
Relíquias da casa velha, Machado de Assis.
A Casa Verde, Vargas Llosa.



Festa, Mário Garcia de Paiva.
A festa, Ivan Ângelo.

Inquieta viagem ao fundo do poço, Elias José.
A viagem sem regresso, Josué Montello.

Memorial do convento, José Saramago.
Memorial do fim, Haroldo Maranhão.
Memorial de Isla Negra, Pablo Neruda.
Memorial de  Aires, Machado de Assis.

Memórias sentimentais de João Miramar, Oswald de Andrade.
Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.
Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida.

A república dos sonhos, Nélida Piñon.
A república das abelhas, Rodrigo Lacerda.


Os sertões, Euclides da Cunha.
Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa.

Ano novo, vida nova, Maria José de Queiroz.
Feliz ano velho, Marcelo Rubem Paiva.
Feliz ano novo, Rubem Fonseca.

A cinza das horas, Manuel Bandeira.
A cinza do purgatório, Otto Maria Carpeaux.
Cinzas do norte, Milton Hatoum.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lawrence Durrell

Livro do mês:

Quarteto de Alexandria


Como decorre em algumas temporadas, pus-me a reler o Quarteto de Alexandria, obra máxima do escritor britânico, nascido na Índia, Lawrence Durrell (1912-1990), grande e arrebatadora descoberta literária da minha adolescência. Como se sabe, o autor, em breve nota ao último estágio da narrativa, confirma que os quatro volumes (Justine, Baltasar, Mountolive e Clea) formam “um corpo homogêneo e como tal deve ser considerado”. Na nota de apresentação a Baltasar, deixou uma trilha: “o eixo deste livro é uma investigação do amor moderno”. Sentimento visceral, como tal reconhecido numa das páginas: “Compreendi, então, a verdade do amor: um absoluto que tudo aceita ou tudo despreza. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura, e assim por diante, só existem à periferia, são aquisições da vida social e do hábito. A austera e impiedosa Afrodite é legitimamente pagã. Não é do nosso cérebro, nem dos nossos instintos, que ela se apodera – mas da nossa medula” (DURRELL, s.d.a,125-126).

                  (Durrell com a filha Penelope. Imagem: Durrelliana-WordPress.com)

A opção da vez foi Clea, o último da série, talvez o mais trágico. E como sempre, acabo me envolvendo naquele universo mágico de mulheres fatais, alto mundo das finanças, emoldurado por tiradas filosóficas e literárias bastante sofisticadas. A re-leitura de um relato motiva inevitavelmente a procura de passagens de outro, enleados que somos pelas íntimas conexões existentes nesse círculo obsessivo de personagens: “Justine, Melissa, Clea... Éramos tão poucos que na verdade um livro devia ser suficiente para esgotar-nos. Eu também acreditei que assim fosse. Agora dispersos pelo tempo e pelas circunstâncias, quebrado para sempre o circuito...” (DURRELL, 1970a, 14).


Meu preferido tem sido Mountolive, o terceiro volume. Em seguida, Baltasar. Neles são mais nítidos os traços romanescos desta saga fabulosa, em que as surtidas amorosas surgem envoltas em camadas de significação secreta, devastando os bastidores da política internacional (ainda sob a combalida hegemonia da Inglaterra), o cotidiano de uma embaixada inglesa no Oriente, bancarrotas e ruínas de poderosos grupos. Mas os quatro relatos são excelentes. Tudo narrado com invulgar domínio da técnica romanesca, sob a lupa vertiginosa de um observador esmerado em se arriscar em análises psicológicas, extremamente atento aos mínimos detalhes, projetando uma temática ainda atual – o conflito Ocidente/Oriente, dentre outras investigações. Algumas associações inesperadas, aliadas a recursos poéticos incisivos, produzem efeitos por vezes surpreendentes, como neste flash ao rosto de Memlik Paxá: “Os seus lábios eram muito vermelhos, o inferior, principalmente; e a sua aparência de fruto maduro sugeria a epilepsia” (DURRELL, s.d.b, 304). Os ambientes sociais glamourosos de Cairo e de Alexandria funcionam como cenário decadente para um enredo diversificado, excessivamente amplo e aberto para acolher desvios, aberrações e situações-limites como rubricas, suporte ou pano de fundo ao eixo narrativo principal. São célebres as descrições do luxo feminino, envolvendo Justine, Melissa, Clea, Liza, Leila, dentre outras deusas esplendorosas, flagradas em salões exuberantes, reluzentes. Não menos famosas as descrições de suntuosos palácios de armadores e empresários, vazadas sob impressões que respingam em referência ao Rio de Janeiro, como esta a respeito da arquitetura urbana, extraída de Mountolive: “Seja nas ruas de Roma ou do Rio, uma pessoa fica pasmada diante das suas fachadas sinistras. Os pilares curtos e grossos sugerem um mamute atacado de elefantíase, uma sobrevivência grotesca, ou talvez o renascimento, de algo genuinamente macabro – uma espécie de gótico-otomano-egípcio (DURRELL, s.d.b,302)”. Como estratégia para fugir à sedução da Unidade, que o narrador supõe ter desaparecido do mundo moderno, somos conduzidos a perceber os eventos e as personagens filtrados por uma abrangente visão prismática, continuamente renovada. O colapso do império britânico esbate-se num mural impiedoso da decadência da aristocracia inglesa, numa crônica indiscreta, de personagens densos, bizarros, algo sinistros. O encontro final entre Mountolive e Leila assume uma dimensão dramática, patética.


São surpreendentes e poéticos os relatos noturnos de Alexandria que reverberam, de forma transfigurada, o percurso misterioso e o destino marginal do poeta grego Constantino Caváfis. “...E, embora ocupado o meu espírito por estas recordações, ia vendo com outra parte de minha consciência aquela Alexandria que se desbobinava uma vez mais diante de mim – com seus cativantes pormenores, o seu insolente colorido, a sua pobreza e a sua beleza esmagadora” (DURRELL, 1970b,37). Somos a cada página tocados por uma paisagem inesquecível, um rosto marcante, um olhar devastador ou por um pensamento, como este, exarado diante do corpo inerte de Melissa: “Creio que nós, os escritores, temos um coração de pedra. Os mortos não contam. São os vivos que nos interessam desde que lhes possamos arrancar a mensagem que se esconde no cerne de toda a experiência humana” (DURRELL, s.d.a, 278). Difícil ficar indiferente aos terríveis encantos de Justine, de quem o marido, Nessim Hosnani, afirma: “Nem sequer posso afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as pessoas de seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural que isso seja doloroso e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela lhes infligia” (DURRELL, s.d.a, 39).


DURRELL, Lawrence. Justine. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, s.d.a.
DURRELL, Lawrence. Baltasar. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970a.
DURRELL, Lawrence. Mountolive. Trad. Daniel Gonçalves. Rio de Janeiro: Ulisseia, s.d.b.
DURRELL, Lawrence. Clea. Trad. de Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970b.


sábado, 22 de outubro de 2016

Um pesadelo


            “Baios e sonhos semelham-se. Não se esperem, daqueles, coerência e moderação nas disparadas pelos prados, quando não busquem um fim; nem dos sonhos que se desatem com método” (MARANHÃO, Haroldo, 2004, p. 64).

            Tenho um sonho com sobressaltos. Acordo nervoso e trêmulo, suando a púcaros.
          Um velho esgrouvinhado, barba por fazer, aspecto entre arrependido e assustado, parecido com a imagem gasta impressa em jornais, aproxima-se de mim. Nada de anormal, até perceber tratar-se de um ser alado. Não só, os adjetivos em fileira mostram-se impotentes para a exata configuração: astuto, demagogo, dissimulado, falastrão, inescrupuloso, patusco, solerte. Eu estava então como Inês: posto em sono sossegado. Andava impávido num passeio urbano, defronte de grades de um hotel, nitidamente aterrorizantes. Se me evadisse para as estrelas, projetado por satélites, mesmo assim o encontro dar-se-ia.
            Antes de prosseguir, impõe-se uma divagação preliminar a respeito de sonho e derivados. Se me atenho ao narrador de Haroldo Maranhão, em reflexão transcrita na epígrafe, sou levado a comparar os sonhos a cavalos desembestados, que galopam sem rumo certo. Se resolvo seguir o conselho de Madredeus, o grupo musical português, não devo prosseguir, porque “contar um sonho é proibido”. Preciso refinar o conceito: o que tive não foi um sonho, mas um pesadelo. Em que pesem os elementos inconscientes envolvidos num pesadelo, contar um pesadelo é abominável. Em que pesem idênticos traços, pesadelo é matéria de descarrego, tendente a dissipar-se. Em vista disso, desisto de fornecer os detalhes da cena, divulgo apenas o essencial, no caso, o diálogo travado, entre um profissional das letras (eu) e a tortuosa e velhusca criatura. Extintas ficam circunstâncias anódinas, relativas à escolha do logradouro, a hora aprazada, o papel de intermediários.

                                              (Imagem: www.hdwalls.syz)

            O improvisado escriba abanca-se à mesa de um bar, ofegante. Traz, abrigados nos calores das axilas, os calores crispados da polêmica, envoltos em fitilha vermelha.
“Gostaria que corrigisse este artigo”, ele diz, passando para as minhas mãos um manuscrito ensebado, letras em garrancho em laudas e laudas de almaço. “Preciso me explicar ao povo, alguém deve corrigir este artigo, fazendo-o submeter-se aos parâmetros da gramática. O estilo não deve ser mexido”.
“As denúncias não desaparecem, diante de argumentos esfarrapados”, atrevo-me a retrucar.
“Denúncias infundadas, diante de mimos e benfeitorias desinteressadas, um sítio bucólico e airoso, uma banal casa de praia”.
            “Uma tarefa embaraçosa”, afianço, na expectativa de me safar.
            “Sem dúvida, uma tarefa trabalhosa, mas será recompensado à altura”.
            “Centenas de profissionais, igualmente capacitados, aceitariam atendê-lo graciosamente”, atiro no escuro da noite, sutil estratégia de elogio e desistência.
            “Você foi escolhido. Diga seu preço, sem tergiversar”. Os olhos são esferas chamejantes. Sinto-me no exato beco sem saída, na noite opressora, opaca.
            “Trinta reais a página”, retruco, inflacionando em dobro o serviço. “Mais: pagamento em cheque, referendado por assinatura, seguido de recibo, com especificação do labor prestado”.
            “De menos. Contratado!” exclama em tom firme e impositivo.
            Acordo, frio e trêmulo, suando a púcaros.


MARANHÃO, Haroldo. Memorial do fim: a morte de Machado de Assis. 2ª. ed. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004.

sábado, 15 de outubro de 2016

Fala, Caetano

      O compositor, cantor e escritor Caetano Veloso afirmou, recentemente: "Quando eu era jovem, o show era só um rápido detalhe da viagem. Esticadas noturnas, museus, pessoas locais, bairros típicos é o que mais importava. Hoje preciso me resguardar".
      Esta declaração ratifica impressões partilhadas por alguns amigos e o breve relato, aqui exarado, há algum tempo. Os curiosos podem clicar no nome do artista no sumário ao lado para comprovar. Ao se referir à necessidade de "se resguardar", no atual contexto, seria desejável que tal cuidado, justificável e natural,  não se misturasse a apoio a políticos corruptos, como tem ocorrido. Sem chance de ser diferente. Afinal, trata-se de um dos maiores beneficiados pelo Ministério da Cultura nos governos petistas.

    
                                              (Foto: osul.com.br)

VELOSO, Caetano. O tempo. Magazine, Lupa, Belo Horizonte, 13/10/2016, p.12.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Afonso Arinos de Mello Franco

      Livro do mês

        Há livros que dizem menos do que esperamos. Dito de outro modo: livros que nos decepcionam. Que deviam ficar pela metade de suas páginas. Este é o caso de Diário de bolso seguido de Retrato de noiva, de Afonso Arinos de Melo Franco, (1905-1990), dois livros, editados num único volume. O que tento dizer ficará agora cristalino: este livro deveria conter apenas o Diário de bolso. A sequência, registro de um episódio sentimental, alusivo a um arrebatado namoro, interessa apenas aos dois agentes envolvidos na teia amorosa. Retrato de noiva enfeixa a correspondência entre o autor e a noiva, Ana G. Rodrigues Alves, no período entre 1925, quando se conhecem, até 1928, quando se casam. A urgência da publicação só se justificaria em caso de notória relevância seja da linguagem, seja das vivências e desdobramentos. Nem uma, nem outra se observam. No prefácio, no entanto, Carlos Drummond de Andrade tem posição contrária, em arenga poética de compadre.

                                                            (Foto: origem.biz)

            De aristocrática ascendência mineira, Afonso Arinos de Melo Franco desempenhou variadas funções: promotor de justiça, professor universitário; deputado e senador (participou da Constituinte de 1988); membro da Academia Brasileira de Letras; ministro de relações exteriores do governo Jânio Quadros (1962). A simplicidade da grafia despojada de seu Afonso, com um único F, (ao contrário do que ocorre com outros intelectuais mineiros, Affonso Romano de Santana e Affonso Ávila, mais conformados com a objetividade moderna) acaba, no entanto, desmontada pelo estilo protocolar, excessivamente empolado, formal e solene. O ponto alto de sua obra equilibra-se entre os livros de história (como Um estadista da República; Afrânio de Melo Franco e seu tempo, de 1955) e os de memórias: A alma do tempo (1961), Planalto (1968), Alto mar, maralto (1979), que colige os anteriores, Amor a Roma (1982).
            Devemos ao político Afonso Arinos, sobrinho do autor de Pelo Sertão, o primeiro do nome, a lei contra o racismo. A personalidade do autor, evocado nos livros de memórias de Antônio Carlos Villaça como um cavalheiro sofisticado, o “finíssimo” diplomata, é sobejamente conhecida. Reproduz uma afirmação do cientista alemão Schwege, em descrição de um baile, sobre as mulheres paulistas de oitocentos: “Elas tinham a fama de serem belas, pois em São Paulo a pele clara predominava, ao contrário do que ocorria nas capitanias situadas mais ao norte”.
            De temática difusa, os registros recobrem os anos de 1977 e 1978, dando relevo à análise do contexto político, ao contato com figuras representativas da política, da diplomacia e das artes (Carlos Lacerda, Petrônio Portela, Prudente de Morais, Rubem Braga, Ribeiro Couto, dentre outros). Os livros de memória servem para nos revelar eventos, lugares e pessoas que não conhecemos ao vivo. Passamos a conhecê-los de ler, diferindo da maneira machadiana de conhecer, através da visão, o conhecimento “de vista e de chapéu”, como afirma o narrador de Dom Casmurro. Com o acúmulo de leituras, vamos formando um mosaico de referências e alusões, cada vez mais rico e diversificado. Ao referir-se ao Jockey Clube do Rio de Janeiro, lembra como se aproximou de Manuel Bandeira, autor na plenitude criativa. As memórias de um escritor acabam por se cruzar com as memórias de outro, ainda que sob perspectivas distintas. Alguns lugares ou eventos firmam-se em nosso espírito, em decorrência de critérios subjetivos de assimilação. Estas evocações, disseminadas no rol de eventos, notas eruditas, impressões de viagens e de leituras configuram-se como a parte mais viva e interessante.  Dentre elas, as passagens que reverberam a amizade com Ribeiro Couto, a informação de que o poeta de Jardim das confidências, quando promotor em Pouso Alto, no sul de Minas, hospedou Bandeira em 1928 por um mês. Ou descrições soltas, como esta, sobre a cidade do Porto: “O Porto conserva o seu orgulhoso status de ser a cidade mais européia de Portugal, nada perde de seu jeito de feitoria inglesa” (FRANCO, l979, 133). Um índice Onomástico seria oportuno, não fosse pedir demais às edições da época.
      Uma singularidade da escrita diarística, traço para análise, é sua reduzida parcela de invenção e fantasia. Se o escritor descreve um monumento ou edificação não pode exacerbar os elementos reais. O leitor não raro compara a descrição efetuada com sua própria aferição. Neste autor, a distância da ficção se faz acompanhar pela rasura de transcendência e fidelidade ao descolorido chão da realidade. O teor panorâmico das reflexões, constituída de breves súmulas, perpassa o volume.



FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Diário de bolso seguido de Retrato de noiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os sebos do Maletta

      O calor excessivo maltrata os belorizontinos. Tempestade anunciada nos ventos da madrugada. Setembro tropical bravo.
          Notas leves: garimpo em sebos no Maletta, sábado pela manhã. Referência para curtições noturnas em Belo Horizonte, o local é também pólo efervescente de cultura. O conhecido reduto de intelectuais  e artistas mineiros, cantado em prosa e verso, recentemente referido em poema de Marcelo Dolabela, como "coliseu da cidade", onde se convive com a "a baunilha dos vagabundos", não perdeu de todo o charme. Infelizmente, o bar Pelicano fechou as portas que davam para a Av. Augusto de LimaO famigerado prédio cosmopolita, de trepidantes lembranças desde os anos 70, no centro da cidade, abriga ainda célebres restaurantes (o Cantina do Lucas, o remanescente do antigo Lua Nova), e sebos famosos. Encontrei, em garimpo rápido, duas obras semirraras, Os saltimbancos da Porciúncula, de Antonio Carlos Villaça (Record, 1996) e Minérios domados, (Rocco, 1993) poemas de Hélio Pellegrino,  editados por Humberto Werneck, que assina uma apresentação jornalística. O acervo digitalizado poupa buscas inúteis. ACV concorre consigo, em patamar inferior, se confrontado com o clássico do memorialismo dos anos setenta, O nariz do morto, sem perder a importância de todo. Em geral, os acervos perderam consideravelmente o interesse: neles predominam os indefectíveis best-sellers, os títulos estrangeiros disparando na dianteira. Mas não deixa de ser um bom programa para quem gosta de bons livros.


(Imagem: entrelinhasdomaletta.com.br)
     

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sérgio Milliett

Livro do mês:

Diário crítico II de Sérgio Milliet: o remate mineiro



As sete páginas finais do Diário crítico de Sérgio Milliet, v.II, assinalam a importância de Minas Gerais no quadro geral da nossa cultura. A obra completa estende-se por dez volumes, em coedição com a USP, mantém fielmente a grafia do autor; critério este discutível, por dar margem a certo desleixo, no que tange à ortografia e acentuação. Dizer que se mantém fiel ao original transfere a responsabilidade a terceiros: no caso, o original já se mostra manipulado, sujeito à mediação jornalística. O contexto histórico registra os anos devastadores e sangrentos da Segunda Grande Guerra. O mundo não está para docilidades e delicadezas. O material recolhido neste exemplar, alusivo a expoentes da moderna literatura brasileira (apreciação de livros surgidos à altura, no calor dos lançamentos), e a consagrados intelectuais europeus, pauta-se por notória desenvoltura conceitual, larga erudição e produtivas sugestões de análise. Em notas breves, corridas, mas consistentes, sucedem-se comentários sobre Mário de Andrade, Clarice Lispector, Ledo Ivo, Jorge Amado, Augusto Frederico Schmidt, João Cabral Melo Neto, Bueno de Rivera, Mário de Andrade, José Geraldo Vieira, Henriqueta Lisboa, Fernando Sabino, dentre muitos outros, ao lado dos desconhecidos Ivan Pedro de Monteiro, Darcy Azambuja, do repertório nacional. Georges Bernanos, Thomas Mann, Roger Bastide, Charles Baudelaire, Charles Péguy, André Gide e Anatole France predominam dentre os estrangeiros. Do gosto pelas artes plásticas, segunda paixão do autor, dão conta matérias sobre Lasar Segall, Pedro Américo, Tarsila do Amaral, Portinari, Goya, Alfredo Volpi, Almeida Júnior, entre outros. O interesse do labor intelectual dessa natureza engloba conhecimento literário profundo, receptividade ao novo, abertura à inquietação e capacidade de conexões, não tanto exaurir os contornos de uma suposta verdade, mas apontar sua provável silhueta. Em avaliação sobre a produção de Euclides da Cunha, o autor assevera: “uma obra de ciência se mede mais pela fecundidade de suas sugestões que pelo dogmatismo de suas certezas” (MILLIET, 1981, p.82).


                                                     (Imagem: abca.art.br)

O registro impresso sob a data de 19 de dezembro de 1944 inicia-se com uma nota apressada e aparentemente depreciativa sobre o conto, ao aludir à possibilidade de ser o conto um gênero menor. “Entretanto, Maupassant...” (MILLIET, 1981, P. 117). Nesse “entretanto”, seguido de uma referência ao mestre francês, acrescido de reticências, instala-se a autocrítica do autor que, de pronto, apressa-se a reconsiderar o lugar elevado atingido por determinados autores no gênero. “Pois se Maupassant se caracteriza pela objetividade e a precisão equilibradíssima do estilo, se Machado de Assis nos seduz especialmente pela penetração psicológica e a ironia, se Monteiro Lobato alcança um clímax graças à caricatura sarcástica das gentes e das coisas, Aníbal Machado comove pela expressão poética” (MILLIET, 1981, p.317).

                                                          (Imagem: estante virtual)
            Na sequência, Milliet, após citar João Alphonsus e Carlos Drummond de Andrade, envereda por uma análise da produção ficcional de Aníbal Machado, detendo-se em algumas novelas do escritor (“Vila Feliz”, “A morte da porta-estandarte”, “O telegrama de Ataxerxes”), como suporte ao argumento que se esforça por desenvolver, ou seja, a primazia de Minas na elaboração da grande ficção nacional: “Se o nordeste nos deu a consciência da terra e da tragédia do homem dentro do meio hostil, se Rio e São Paulo nos deram o humor, e o sul o pitoresco sadio, Minas trouxe a introspeção, a análise melancólica, de pouco brilho, mas de vigorosa intensidade. Por isso, creio eu, de Minas virá o grande romance brasileiro da maturidade nacional” (MILLIET, 1981, p.318). Sérgio Milliet erra apenas o alvo imediato, ao apostar que Aníbal Machado estaria capacitado para empreender a construção do grande romance nacional, ao salientar no autor mineiro alguns traços que para tal o teriam gabaritado: “complexidade, a análise cuidadosa, a multiplicidade de ações” (MILLIET, 1981, p.319). Doze anos mais tarde, com a publicação de Grande sertão: veredas e Corpo de baile, em 1956, pelo mineiro Guimarães Rosa, estaria consolidado o prognóstico de Sérgio Milliet.
            A seguir, o crítico paulista dedica comentários ao poeta Murilo Mendes (23 dezembro), direcionados ao livro recém-publicado, O discípulo de Emaús. Discute algumas máximas do poeta mineiro, empenhado em confrontar o poeta ao acadêmico e ao filósofo, dentre outras oposições de estatuto. “E assim se o acadêmico é homem que procura a poesia e a cerca por todos os modos, com pés e rimas, o poeta é o homem que a encontra sem procurá-la e quando a percebe deixa-a livre. Idêntico é o paralelo possível do poeta com o filósofo: este anda à cata da verdade mas quem a vislumbra é aquele. E também quem a exprime melhor” (MILLIET, 1981, p. 322).
            Quem deseja debruçar-se sobre o discurso crítico produzido no país não pode passar ao largo do escritor paulista. O volume encerra-se com um verdadeiro fecho de ouro, ao se voltar para a compreensão (é sabido o interesse básico de seu método, mais focado em compreender do que julgar as obras) do livro Voz de Minas, de Alceu Amoroso Lima. Expert em detectar tiradas impressionistas de Alceu Amoroso Lima, o crítico, contudo, não lhe poupa crédito de aprovação, referindo a elegância do estilo e a sutileza de algum raciocínio. Alerta para os traços afetivos que o brasileiro divide com Minas, pioneira na luta pela liberdade nacional: “O mistério de Minas, o humor mineiro, a sua densidade específica, o seu tradicionalismo, tudo isso forma um complexo exigente de contínuas interpretações” (MILLIET, 1981, p. 325).




MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet. II (1944). 2ª. ed. São Paulo: Martins-EDUSP, 1981.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Temporada caipira


Passei uma semana longe da civilização, do trânsito de Belo Horizonte, de contas para pagar, de livros. O feriado emendou a semana inteira. Vida rústica. O lugar, um sítio entre Baldim e Santana do Riacho, propriedade do sogro, na área da Serra do Cipó. Um mergulho na vida rústica do cerrado, com literais mergulhos em poços e rios da região, um lugar meio paradisíaco, no meio das veredas de Guimarães Rosa, muito sol, água pura, campos de mato, pedregulho e carrapato. Comida regional: frango ao molho pardo, jurubeba, peixe, costela de boi, angu de fubá de moinho de água, feijão novo. Sossego, canto de passarinho, cerveja em boteco, alguma cachaça de alambique conhecido. Dez por cento de estrada de terra, asfalto novo. Tudo temperado com música sertaneja, ao vivo, com a típica toada caipira.
Para matar a sede de leitura que, infelizmente, não desgruda, nas duas vezes que bateu: uma seleção de poemas de Walmir Ayala, da Global editora. Voos ligeiros e de jeito arrebatado, surpreendentes por sinal.