Livro do mês:
Vinícius Fernandes Cardoso recolhe poemas e fotos da juventude, registrando a militância cultural de um cidadão culto e
sensível, exercida episodicamente em bairros de Contagem nas décadas
de 80 e 90, além de um prêmio em certame poético na cidade de
Leopoldina (2014), onde morreu Augusto dos Anjos. O autor
identifica-se como “poeta, escrivão do tempo”, capacitado para
“cantar sua época” (“No fim sempre um começo”). Os poemas,
dados a lume numa coletânea, intitulada Com o coração na boca,
vestígios de um intenso e compartilhado percurso na urbe industrial,
procedem de livros anteriores,
como Arroubos e rompantes (1999),
Leituras e andanças (2004)
e A alma dos bairros (2007).
Em poema que dá título a este último livro, traça um esboço de
sua terra: “Contagem é uma cidade dispersa de flores / raras
nascidas em solo árido resistindo / ao cansaço dos transeuntes.”

Tentado a experimentar um poder divino, o da criação, o poeta
atinge o máximo desejo de exprimir a inquietude interior no ousado
poema “Oração a mim mesmo”, ponto alto de sua lírica: “Ah…
Eu queria escrever um poema que fosse música / e sensação, como o
solo contido de um baixo ou o / solo virtuoso de um cravo: som que
cria outra / realidade na realidade e que transfigura e encanta /
tudo ao nosso redor.” Inoculado desde adolescente pelo vírus da
poesia, Vinícius Fernandes Cardoso, adestrado numa tradição de
nomes tutelares (Bandeira, Quintana, Adélia Prado), revela uma rara
sensibilidade aos pequenos incidentes do cotidiano, aos lugares
acessados, às relações de amizade e parentesco, à surpreendente
magia das efemérides, como nesta dionisíaca “Odisseia
imaginária...”: “E agora, meu primo? /Pegue a chave, ligue o
carro, / -Vamos rodar por aí! / Se estou certo desta noite ? / Claro
que sim, / eu, você, a estrada e o som.” De tal forma busca
transfigurar os eventos e as contingências de uma pós-modernidade
massificante e estéril que, por vezes, seu estro mostra-se
dissidente e desafinado:
“Não
me dê telefone, e-mail,
Facebook, Whatsapp,
Instagran, Twiter…
Chega
de paraísos artificiais!
Estou
com saudades do real!”
(“Saudades
da Realidade”)
À
semelhança de um caderno de colegial, ainda que marcado por
oscilações, Com
o coração na boca compagina
emoções e mágoas, gritos de socorro e delírios, indagações e
juras de amor, num conturbado e veemente mergulho nos limites da
condição humana, em expedientes que reiteram a proximidade entre
sonoridade e poesia, como no final de “O vazio da época”:
“Chovia. / Íamos pela estrada escura, / éramos vento, música e
chão.”
Diante
de tais evidências produtivas, num discurso poético ainda
emergente, um breve reparo, no entanto, se faz necessário,
infelizmente. A verdadeira poesia sempre se posiciona como trincheira
de esperança, espaço neutro de ressonâncias universais, propício
à floração de verberações espirituais, notas de solidariedade e
de elevação metafísica. Sua natureza estética e reflexiva repele
o engajamento de teor político, condizente com a comunicação de
vertente panfletária. Castro Alves e Ferreira Gullar constituem
monumentos excecionais, que demandam séculos para germinar, dada a
excelência e dimensão de seu voo. Em tempo de excessiva polarização
ideológica, e não menos rasa fundamentação teórica, qualquer
engajamento explícito denota fragilidade estética, nas raias da
subalternidade. As miscelâneas poéticas do autor insistem
reiteradamente em acentuar o seu filão político, que labuta
contrariamente à isenção artística. Ainda que se identifique com
a assertiva de que o poeta é o “escrivão do tempo”, não lhe
fica bem adotar um lado de militância política. Todos podem se
acomodar no bosque do Parnaso, em especial sujeitos vocacionados para
o convívio com as musas e delgadas entidades voláteis, suscetíveis
a apelos deste naipe: “Distância não é medida geográfica. /
Distância é medida interior”, como se lê no poema “Versos
geniais voaram ao vento...”. Espera-se que instantes de fulgor e
imagens interessantes não fiquem contaminadas por desavisadas e
nocivas aderências a platitudes ideológicas.
CARDOSO,
Vinícius Fernandes. Com
o coração na boca: apanhado
poético. Contagem: Edição do autor, 2018.