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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Chico Buarque 2

       Atuar no campo cultural, na contramão da imprensa dita progressista (simpatizante do PT), não é moleza. Mas vamos lá. 
       A namorada do filho mais velho passou-me as primeiras (e definitivas, ao que parece) reações diante do romance que uma amiga lhe emprestou, o badalado e excessivamente premiado Budapeste, de Chico Buarque. Interrompeu a leitura. E desanca: digressões rasas, história pouco interessante, a narrativa sem cadência, apressada, uma frase com ritmo diferente da anterior, grandes blocos narrativos desprovidos de diálogo, um estilo de elegância postiça, enfim, um sacrifício. Parece um livro escrito por um coletivo, grupo de autores de tendências distintas e formação desencontrada. Em suma: transmite a convicção de ter sido obra encomendada, miscelâneas de escritas; ao final da operação, atribui-se um título e uma autoria. Atraídos pelo renome do autor, os leitores compram, os prêmios pegam a rabeira na intensa, exaustiva divulgação na mídia.  Vai entender o que se passa.



quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Libério Neves (1934-2019)


       

                                              (Foto:cartografosdavertigemurbana)

       Morreu no último dia 12 o poeta Libério Neves (1934-2019). Nascido no interior de Goiás, morava em Belo Horizonte desde 1952. Publicou mais de vinte livros, entre infantojuvenis e coletâneas de poemas, alguns premiados, dos quais se destacam Pedra solidão (1965), O ermo (1968), Pequena memória de terra funda (1971), Mil quilômetros redondos (1974), Força de gravidade em terra de vegetação rasteira (1978), Mineragem (2006), Papel passado, antologia (2013). Após um breve namoro com o concretismo, alcançou o próprio caminho poético, discorrendo sobre temas telúricos, amorosos e do cotidiano, numa linguagem depurada, concisa, enxuta, de ritmo curto, espontâneo.

     

       Isopor
       o isopor
       preserva o frio
       e o calor.

       A água fria
       dentro do isopor
       assim fica fria
       o tempo que for

       (quentinha fica
       a mamadeira
       dentro do isopor).

       O isopor
       isola o tempo
       em seu vazio
       interior.

      Pra conservar
      a alegria
      é só pôr o amor
      num coração
      de isopor.

    De
Mineragem (2006)



segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Oliveira Martins

Livro do mês:

       Em Os filhos de D. João I, o historiador português Oliveira Martins (1845-1894) mergulha demoradamente na história medieval lusa, abordando os eventos que envolvem o governo de D. Duarte e o de D. João II. Imputa ao gosto pelas palavras, por parte de D. Duarte, a sua frágil gestão: ”Foi o literato coroado, com os vícios e qualidades desta classe de homens, e, sobretudo, com essa paralisia da vontade que provém da inclinação fatal de comunicar ao próximo, escrevendo, aquilo que se pensa e por isso se imagina querer. A literatura tem esse defeito inerente: toma a nuvem por Juno, confundindo as obras com as palavras” (Martins, 1998, 134).O título inclui os filhos de D. João I e D. Filipa de Lencastre, denominados por Camões de "ínclita geração, altos infantes", os cinco príncipes de Avis: Duarte, Henrique, Pedro, Fernando e João. O historiador reconhece no livro do rei D. Duarte, (O leal conselheiro) uma espécie de saber que se confunde com os parâmetros morais e difusos da época, uma compilação confusa de todas as ideias morais e filosóficas do tempo, em suma, uma filosofia anêmica e desfibrada. 
       Cedendo às pressões do irmão D. Henrique, o obsessivo estrategista da futura expansão ultramarina, D. Duarte aprova atabalhoadamente a tomada de Tânger, uma empresa fadada ao estupendo fracasso. Com base em sólidas pesquisas (Azurara, Rui de Pina, Fernão Lopes), Oliveira Martins expõe a grande diferença numérica entre o exército português e as forças militares muçulmanas: seis mil soldados do lado luso, enquanto os mouros somavam mais de sessenta mil combatentes. D. Fernando, e alguns fidalgos, são feitos reféns: o príncipe luso será sacrificado pelos mouros, na sequência de uma jornada mal preparada, de negociação mal conduzida. Após atravessar aldeias, perseguidos por pedradas e humilhações, a comitiva feita refém será dizimada pelos mouros. Alega-se ter sido pactuado um escambo (devolver o príncipe D. Fernando vivo, em troca da entrega de Ceuta, conquistada anteriormente pelos portugueses). A derrocada final é patética:

No dia seguinte, sexta-feira, 11, houve trégua; mas no sábado, logo de manhã, às sete horas, repetiu-se o assalto, que felizmente foi rechaçado. De que servia, porém, fugir a uma das mortes, se a outra estava de goela aberta para os tragar? Já não havia lenha, nem carne, senão a do cavalo, que devoravam quase crua, assada nas palhas das albardas e selas. Também não havia água, e enganavam a sede chupando o lodo infecto da praia (Martins, 1998, 178-179).

       Embora proclamem imparcialidade e crença em convicções universais, os historiadores portugueses não abdicam do fervor nacionalista. Produto intelectual de um século cientificista e racionalista, Oliveira Martins não consegue se livrar de uma sensação de decadência fatalista. Não se trata de compor frases redondas, de ressonância reflexiva, mas da contaminação de um contexto maior. Oliveira Martins pertenceu à ilustre geração dos autores reunidos sob o epíteto de Os vencidos da vida, que agrega os amigos Eça de Queirós e Antero de Quental..


MARTINS, Oliveira. Os filhos de D. João I. Lisboa: Ulisseia, 1998.






terça-feira, 9 de julho de 2019

João Gilberto (1931-2019)

     Foi enterrado ontem o corpo do cantor e compositor João Gilberto, falecido sábado no Rio de Janeiro. Considerado o criador da Bossa Nova, desenvolveu uma técnica bastante pessoal  e ousada de cantar, tendo influenciado um grande número de músicos brasileiros nas últimas décadas. Contava 88 anos, gravou uma versão inovadora da canção "Chega de saudade", com uma voz suave, uma batida diferente no violão, um ritmo envolvente, dotado de extrema leveza e doçura, como se fosse um canto sussurrado. Seu trabalho musical, de altíssima qualidade, alcançou projeção muito além das fronteiras nacionais. 

                                                     (Foto: luishipolito.blogspot. com)

sábado, 22 de junho de 2019

Afonso Arinos de Melo Franco



Livro do mês

       Para Afonso Arinos de Melo Franco, de acordo com o raciocínio desenvolvido em Planalto (1968), um dos fatores responsáveis pelo colapso do governo Jânio Quadros está ligado estreitamente à questão cubana. A opinião pública teve do caso uma visão superficial. Era a primeira vez que um movimento revolucionário latinoamericano se deixava “orientar conscientemente pelas doutrinas esquerdistas. (…) O México, que poderia ser citado como exemplo em contrário, de fato não o é. Na verdade, a revolução mexicana, iniciada no começo do século e, hoje, solidamente instalada no poder, pode ter o seu caráter discutido, mas uma coisa é certa: não, ou, pelo menos, não se tornou uma revolução socialista. Antes se reveste de aspectos conservadores, dentro de um quadro reformista e, principalmente, nacionalista” (MELO FRANCO, 1968,76). O diplomata mineiro refere-se desta forma à participação norteamericana: “A questão cubana, desastradamente abordada pelo inexperiente governo de Kennedy, nos Estados Unidos, dominou o panorama nacional, provocando uma cadeia de reações que ia do sectário e do medroso de boa fé, ao interesseiro sem ela (interesseiro, por motivos econômicos ou políticos), unindo-se tudo numa espécie de torrente de pânico que, em breve, colocou o novo governo sob as maiores e mais infundadas suspeitas” 
(MELO FRANCO, 1968,76). Nesta página, descreve ainda a ‘inépcia do governo Eisenhover’. A questão prestou-se à evolução de uma campanha direitista contra a politica externa levada a cabo pelo Ministro das Relações Exteriores de Jânio. No caso, o próprio Afonso Arinos M. Franco.
       Vai-se cristalizando a impressão de que setores da esquerda brasileira tentaram direcionar o governo Jânio Quadros para o lado soviético, com um presidente simpatizante de um viés ideológico socialista. Os traços pitorescos do presidente – a vassoura, o jeito estabanado de agir, as medidas adotadas (proibição de brigas de galo e de biquínis), longamente divulgadas e discutidas, seriam elementos adequados para a consolidação de um líder socialista grotesco, investido de fortes poderes. No comando da política externa, Afonso Arinos M. Franco postava-se como alvo de veementes ataques de setores da direita e do empresariado. Esta atuação, diametralmente contrária à tradicional concepção epicurista de diplomacia externa, calcada em festas de salão e viagens, deixou o ministro exposto às pedradas da imprensa e dos setores conservadores. Ao longo do volume, somos confrontados com a bagagem cultural, a lucidez, o rigor das argumentações e o acúmulo de índices lógicos na postura do Ministro das Relações Exteriores. Além de situações políticas, como o justo resgate do presidente Quadros, o autor se detém em episódios da vida cultural do país, como a amizade com Guimarães Rosa, no período em que o autor de Grande sertão: veredas prepara-se para tomar posse na Academia, vindo a falecer na sequência.





MELO FRANCO, Afonso Arinos de. Planalto. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1968.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Clóvis Rossi (1943-2019)

      Morreu em São Paulo o jornalista Clóvis Rossi, nome renomado na imprensa escrita desde os anos 70. Trabalhou na redação dos maiores jornais do país, como Correio da Manhã, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo (desde os anos 1980). Considerado um mestre pelos colegas jornalistas, Clóvis Rossi merece o respeito e o apreço de todos pelos inúmeros artigos e reportagens que produziu, cobrindo toda espécie de eventos, desde o golpe militar no Brasil (1964), eventos esportivos  e históricos em países da América Latina e da Europa, Copas de Mundo e Olimpíadas. Participante, acompanhou e descreveu vários eventos de grande comoção popular, como incêndios de grandes proporções, sem se deixar contaminar pela submissão ideológica a qualquer lado que fosse. Escreveu os livros Militarismo na América Latina e O que é jornalismo. A sua morte me entristece, em decorrência da disponibilidade que sempre demonstrou nos momentos em que lhe solicitei informações, respondia com interesse e precisão, como quando escrevi minha dissertação de mestrado. Uma perda enorme para a cultura do país. 
                                                 (Foto: blogdojuca,com.br)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Agustina Bessa-Luís (1922-2019)

       Morreu Agustina Bessa-Luís, a grande romancista portuguesa, autora de uma notável obra, iniciada em 1948, com Mundo fechado. A notoriedade, porém, só veio com a publicação de A Sibila, em 1953, num crescente prestígio, em decorrência da qualidade revelada em suas narrativas, aliada à capacidade de criar atmosfera e mistério. Os títulos se sucedem, sempre numa plataforma refinada de competência estrutural e desenvoltura de enredo, com personagens impactantes, como Ema, Quina, Rosamaria. Outros importantes romances da autora: Os incuráveis (1955), A muralha (1957), O susto (1958), Ternos guerreiros (1960), O manto (1961), O Sermão de fogo (1963), Os quatro rios (1964), A dança das espadas ( 1965), As pessoas felizes (1975), Crônica do cruzado Osb (1976), As fúrias (1977),  Fanny Owen, transposto para as telas por Manoel de Oliveira (1979)O mosteiro (1980), Os meninos de ouro (1983), A corte do norte (1987), Vale Abraão, também filmado por M. de Oliveira (1991). Deixou ainda biografias: Santo Antônio (1973), Florbela Espanca (1979), Sebastião José (1981).

                             
                                               (Imagem: comunidadeculturaearte.com.)

sábado, 25 de maio de 2019

Vinícius Fernandes Cardoso

Livro do mês:

       Vinícius Fernandes Cardoso recolhe poemas e fotos da juventude, registrando a militância cultural de um cidadão culto e sensível, exercida episodicamente em bairros de Contagem nas décadas de 80 e 90, além de um prêmio em certame poético na cidade de Leopoldina (2014), onde morreu Augusto dos Anjos. O autor identifica-se como “poeta, escrivão do tempo”, capacitado para “cantar sua época” (“No fim sempre um começo”). Os poemas, dados a lume numa coletânea, intitulada Com o coração na boca, vestígios de um intenso e compartilhado percurso na urbe industrial, procedem de livros anteriores, como Arroubos e rompantes (1999), Leituras e andanças (2004) e A alma dos bairros (2007). Em poema que dá título a este último livro, traça um esboço de sua terra: “Contagem é uma cidade dispersa de flores / raras nascidas em solo árido resistindo / ao cansaço dos transeuntes.”


       Tentado a experimentar um poder divino, o da criação, o poeta atinge o máximo desejo de exprimir a inquietude interior no ousado poema “Oração a mim mesmo”, ponto alto de sua lírica: “Ah… Eu queria escrever um poema que fosse música / e sensação, como o solo contido de um baixo ou o / solo virtuoso de um cravo: som que cria outra / realidade na realidade e que transfigura e encanta / tudo ao nosso redor.” Inoculado desde adolescente pelo vírus da poesia, Vinícius Fernandes Cardoso, adestrado numa tradição de nomes tutelares (Bandeira, Quintana, Adélia Prado), revela uma rara sensibilidade aos pequenos incidentes do cotidiano, aos lugares acessados, às relações de amizade e parentesco, à surpreendente magia das efemérides, como nesta dionisíaca “Odisseia imaginária...”: “E agora, meu primo? /Pegue a chave, ligue o carro, / -Vamos rodar por aí! / Se estou certo desta noite ? / Claro que sim, / eu, você, a estrada e o som.” De tal forma busca transfigurar os eventos e as contingências de uma pós-modernidade massificante e estéril que, por vezes, seu estro mostra-se dissidente e desafinado:

       “Não me dê telefone, e-mail, Facebook, Whatsapp,
       Instagran, Twiter…
       Chega de paraísos artificiais!
       Estou com saudades do real!”
       (“Saudades da Realidade”)

       À semelhança de um caderno de colegial, ainda que marcado por oscilações, Com o coração na boca compagina emoções e mágoas, gritos de socorro e delírios, indagações e juras de amor, num conturbado e veemente mergulho nos limites da condição humana, em expedientes que reiteram a proximidade entre sonoridade e poesia, como no final de “O vazio da época”: “Chovia. / Íamos pela estrada escura, / éramos vento, música e chão.”
       Diante de tais evidências produtivas, num discurso poético ainda emergente, um breve reparo, no entanto, se faz necessário, infelizmente. A verdadeira poesia sempre se posiciona como trincheira de esperança, espaço neutro de ressonâncias universais, propício à floração de verberações espirituais, notas de solidariedade e de elevação metafísica. Sua natureza estética e reflexiva repele o engajamento de teor político, condizente com a comunicação de vertente panfletária. Castro Alves e Ferreira Gullar constituem monumentos excecionais, que demandam séculos para germinar, dada a excelência e dimensão de seu voo. Em tempo de excessiva polarização ideológica, e não menos rasa fundamentação teórica, qualquer engajamento explícito denota fragilidade estética, nas raias da subalternidade. As miscelâneas poéticas do autor insistem reiteradamente em acentuar o seu filão político, que labuta contrariamente à isenção artística. Ainda que se identifique com a assertiva de que o poeta é o “escrivão do tempo”, não lhe fica bem adotar um lado de militância política. Todos podem se acomodar no bosque do Parnaso, em especial sujeitos vocacionados para o convívio com as musas e delgadas entidades voláteis, suscetíveis a apelos deste naipe: “Distância não é medida geográfica. / Distância é medida interior”, como se lê no poema “Versos geniais voaram ao vento...”. Espera-se que instantes de fulgor e imagens interessantes não fiquem contaminadas por desavisadas e nocivas aderências a platitudes ideológicas.



CARDOSO, Vinícius Fernandes. Com o coração na boca: apanhado poético. Contagem: Edição do autor, 2018.



segunda-feira, 13 de maio de 2019

Suplemento Literário Minas Gerais, n º 1.383

      Para quem gosta de literatura, a chance de ler a última edição do Suplemento Literário de MG. Merecida homenagem aos cinquenta anos de produção literária de Sérgio Santana. Agrega uma ficção de minha autoria, "Alguns companheiros".

Acesse o link abaixo:
https://drive.google.com/file/d/0B_Saw17KCMAPSTJZSlJmUGJtTWpfeHM3RGpfc0h2UGc5cGdV/view?usp=sharing



quinta-feira, 9 de maio de 2019

Tamanha Poesia, v. 4, n° 7

       Tamanha Poesia, nº 7, revista on line, reúne os 45 trabalhos apresentados no II Colóquio Internacional de Poesia Portuguesa Moderna e Contemporânea II, ocorrido na UFMG em 2018.