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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os sebos do Maletta

      O calor excessivo maltrata os belorizontinos. Tempestade anunciada nos ventos da madrugada. Setembro tropical bravo.
          Notas leves: garimpo em sebos no Maletta, sábado pela manhã. Referência para curtições noturnas em Belo Horizonte, o local é também pólo efervescente de cultura. O conhecido reduto de intelectuais  e artistas mineiros, cantado em prosa e verso, recentemente referido em poema de Marcelo Dolabela, como "coliseu da cidade", onde se convive com a "a baunilha dos vagabundos", não perdeu de todo o charme. Infelizmente, o bar Pelicano fechou as portas que davam para a Av. Augusto de LimaO famigerado prédio cosmopolita, de trepidantes lembranças desde os anos 70, no centro da cidade, abriga ainda célebres restaurantes (o Cantina do Lucas, o remanescente do antigo Lua Nova), e sebos famosos. Encontrei, em garimpo rápido, duas obras semirraras, Os saltimbancos da Porciúncula, de Antonio Carlos Villaça (Record, 1996) e Minérios domados, (Rocco, 1993) poemas de Hélio Pellegrino,  editados por Humberto Werneck, que assina uma apresentação jornalística. O acervo digitalizado poupa buscas inúteis. ACV concorre consigo, em patamar inferior, se confrontado com o clássico do memorialismo dos anos setenta, O nariz do morto, sem perder a importância de todo. Em geral, os acervos perderam consideravelmente o interesse: neles predominam os indefectíveis best-sellers, os títulos estrangeiros disparando na dianteira. Mas não deixa de ser um bom programa para quem gosta de bons livros.


(Imagem: entrelinhasdomaletta.com.br)
     

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sérgio Milliett

Livro do mês:

Diário crítico II de Sérgio Milliet: o remate mineiro



As sete páginas finais do Diário crítico de Sérgio Milliet, v.II, assinalam a importância de Minas Gerais no quadro geral da nossa cultura. A obra completa estende-se por dez volumes, em coedição com a USP, mantém fielmente a grafia do autor; critério este discutível, por dar margem a certo desleixo, no que tange à ortografia e acentuação. Dizer que se mantém fiel ao original transfere a responsabilidade a terceiros: no caso, o original já se mostra manipulado, sujeito à mediação jornalística. O contexto histórico registra os anos devastadores e sangrentos da Segunda Grande Guerra. O mundo não está para docilidades e delicadezas. O material recolhido neste exemplar, alusivo a expoentes da moderna literatura brasileira (apreciação de livros surgidos à altura, no calor dos lançamentos), e a consagrados intelectuais europeus, pauta-se por notória desenvoltura conceitual, larga erudição e produtivas sugestões de análise. Em notas breves, corridas, mas consistentes, sucedem-se comentários sobre Mário de Andrade, Clarice Lispector, Ledo Ivo, Jorge Amado, Augusto Frederico Schmidt, João Cabral Melo Neto, Bueno de Rivera, Mário de Andrade, José Geraldo Vieira, Henriqueta Lisboa, Fernando Sabino, dentre muitos outros, ao lado dos desconhecidos Ivan Pedro de Monteiro, Darcy Azambuja, do repertório nacional. Georges Bernanos, Thomas Mann, Roger Bastide, Charles Baudelaire, Charles Péguy, André Gide e Anatole France predominam dentre os estrangeiros. Do gosto pelas artes plásticas, segunda paixão do autor, dão conta matérias sobre Lasar Segall, Pedro Américo, Tarsila do Amaral, Portinari, Goya, Alfredo Volpi, Almeida Júnior, entre outros. O interesse do labor intelectual dessa natureza engloba conhecimento literário profundo, receptividade ao novo, abertura à inquietação e capacidade de conexões, não tanto exaurir os contornos de uma suposta verdade, mas apontar sua provável silhueta. Em avaliação sobre a produção de Euclides da Cunha, o autor assevera: “uma obra de ciência se mede mais pela fecundidade de suas sugestões que pelo dogmatismo de suas certezas” (MILLIET, 1981, p.82).


                                                     (Imagem: abca.art.br)

O registro impresso sob a data de 19 de dezembro de 1944 inicia-se com uma nota apressada e aparentemente depreciativa sobre o conto, ao aludir à possibilidade de ser o conto um gênero menor. “Entretanto, Maupassant...” (MILLIET, 1981, P. 117). Nesse “entretanto”, seguido de uma referência ao mestre francês, acrescido de reticências, instala-se a autocrítica do autor que, de pronto, apressa-se a reconsiderar o lugar elevado atingido por determinados autores no gênero. “Pois se Maupassant se caracteriza pela objetividade e a precisão equilibradíssima do estilo, se Machado de Assis nos seduz especialmente pela penetração psicológica e a ironia, se Monteiro Lobato alcança um clímax graças à caricatura sarcástica das gentes e das coisas, Aníbal Machado comove pela expressão poética” (MILLIET, 1981, p.317).

                                                          (Imagem: estante virtual)
            Na sequência, Milliet, após citar João Alphonsus e Carlos Drummond de Andrade, envereda por uma análise da produção ficcional de Aníbal Machado, detendo-se em algumas novelas do escritor (“Vila Feliz”, “A morte da porta-estandarte”, “O telegrama de Ataxerxes”), como suporte ao argumento que se esforça por desenvolver, ou seja, a primazia de Minas na elaboração da grande ficção nacional: “Se o nordeste nos deu a consciência da terra e da tragédia do homem dentro do meio hostil, se Rio e São Paulo nos deram o humor, e o sul o pitoresco sadio, Minas trouxe a introspeção, a análise melancólica, de pouco brilho, mas de vigorosa intensidade. Por isso, creio eu, de Minas virá o grande romance brasileiro da maturidade nacional” (MILLIET, 1981, p.318). Sérgio Milliet erra apenas o alvo imediato, ao apostar que Aníbal Machado estaria capacitado para empreender a construção do grande romance nacional, ao salientar no autor mineiro alguns traços que para tal o teriam gabaritado: “complexidade, a análise cuidadosa, a multiplicidade de ações” (MILLIET, 1981, p.319). Doze anos mais tarde, com a publicação de Grande sertão: veredas e Corpo de baile, em 1956, pelo mineiro Guimarães Rosa, estaria consolidado o prognóstico de Sérgio Milliet.
            A seguir, o crítico paulista dedica comentários ao poeta Murilo Mendes (23 dezembro), direcionados ao livro recém-publicado, O discípulo de Emaús. Discute algumas máximas do poeta mineiro, empenhado em confrontar o poeta ao acadêmico e ao filósofo, dentre outras oposições de estatuto. “E assim se o acadêmico é homem que procura a poesia e a cerca por todos os modos, com pés e rimas, o poeta é o homem que a encontra sem procurá-la e quando a percebe deixa-a livre. Idêntico é o paralelo possível do poeta com o filósofo: este anda à cata da verdade mas quem a vislumbra é aquele. E também quem a exprime melhor” (MILLIET, 1981, p. 322).
            Quem deseja debruçar-se sobre o discurso crítico produzido no país não pode passar ao largo do escritor paulista. O volume encerra-se com um verdadeiro fecho de ouro, ao se voltar para a compreensão (é sabido o interesse básico de seu método, mais focado em compreender do que julgar as obras) do livro Voz de Minas, de Alceu Amoroso Lima. Expert em detectar tiradas impressionistas de Alceu Amoroso Lima, o crítico, contudo, não lhe poupa crédito de aprovação, referindo a elegância do estilo e a sutileza de algum raciocínio. Alerta para os traços afetivos que o brasileiro divide com Minas, pioneira na luta pela liberdade nacional: “O mistério de Minas, o humor mineiro, a sua densidade específica, o seu tradicionalismo, tudo isso forma um complexo exigente de contínuas interpretações” (MILLIET, 1981, p. 325).




MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet. II (1944). 2ª. ed. São Paulo: Martins-EDUSP, 1981.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Temporada caipira


Passei uma semana longe da civilização, do trânsito de Belo Horizonte, de contas para pagar, de livros. O feriado emendou a semana inteira. Vida rústica. O lugar, um sítio entre Baldim e Santana do Riacho, propriedade do sogro, na área da Serra do Cipó. Um mergulho na vida rústica do cerrado, com literais mergulhos em poços e rios da região, um lugar meio paradisíaco, no meio das veredas de Guimarães Rosa, muito sol, água pura, campos de mato, pedregulho e carrapato. Comida regional: frango ao molho pardo, jurubeba, peixe, costela de boi, angu de fubá de moinho de água, feijão novo. Sossego, canto de passarinho, cerveja em boteco, alguma cachaça de alambique conhecido. Dez por cento de estrada de terra, asfalto novo. Tudo temperado com música sertaneja, ao vivo, com a típica toada caipira.
Para matar a sede de leitura que, infelizmente, não desgruda, nas duas vezes que bateu: uma seleção de poemas de Walmir Ayala, da Global editora. Voos ligeiros e de jeito arrebatado, surpreendentes por sinal.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sylvio Vasconcellos

       Nas últimas férias, fomos a Diamantina, a derradeira cidade setecentista mineira que faltava conhecer. Estima-se a população em torno de 48 mil habitantes. Em 1938, recebeu o título de “patrimônio histórico nacional”, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Desde 1999, o centro antigo é considerado Patrimônio cultural da Humanidade pela UNESCO. Dista aproximadamente a 360 km de Belo Horizonte, estrada asfaltada, em boas condições de uso. No caminho, bem depois de Curvelo, somos surpreendidos com paisagens belíssimas, indescritíveis. O texto que acompanha as fotos (na verdade, fragmentos dele) tem a assinatura do arquiteto e historiador Sylvio Vasconcellos (1916-1979), extraído do Suplemento Literário do Minas Gerais, 122, de 28 dez. de 1968. Em relação às fotos: as duas primeiras focalizam aspectos do centro histórico; a terceira flagra o passadiço que une os dois casarões que formam a Casa da Glória, no passado, colégio de freiras; a quarta foca um ângulo da praça do Mercado.

       Texto de Sylvio Vasconcellos:

            Enquanto as povoações alimentadas pelo ouro crescem orgânica e espontaneamente, espichando-se pelos caminhos que as servem, o Arraial do Tejuco concentra-se. As estradas o tangenciam, confinando-o. Do Mercado vai em direção à capela de N. S. do Rosário; desta procura a capela Carmelita; a seguir envieza para a capela de São Francisco de Assis e Matriz, encontrando novamente o Mercado.  Diagonais ligam pontos extremos, triangulando o centro.


            Nada lembra o traçado longilíneo de Ouro Preto ou Sabará, por exemplo. O diamante impôs domínio restrito, contenção e controle.


            Contida é a própria arquitetura local. Bem mais pobre que a realizada em outras povoações mineiras. (...)

            Os interiores das igrejas inundam-se de luz. Convidam melhor às aleluias que ao cantochão. Mais às esperanças que ao arrependimento. Mais ao louvor que à penitência. São poucos os dourados; os frontões externos armam-se em tábuas provisórios. A pompa ausenta-se de todo. Nenhuma igreja procura agigantar-se em competição com as demais. Nenhuma casa pretende ofuscar a próxima. O conjunto se desdobra em harmonias, como ser elaborado de uma só vez, obedientes a uma só elaboração. Dispostas em discreta postura, as construções ostentam apenas requintada displicência. (...)


            O conjunto urbano, concentrado e, praticamente, de plano, facilita a comunicabilidade humana, aproxima as gentes, promove a solidariedade.
                                                                                                         

VASCONCELLOS, Sylvio. O ser e o porque de Diamantina. Minas Gerais, Suplemento Literário. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura, 122, p. 1, 28 dez 1968.

      Sylvio Carvalho de Vasconcellos, nascido em Belo Horizonte (1916), dirigiu a Coordenadoria Regional do IPHAN, em Minas Gerais, por indicação de Rodrigo de Melo Franco, de 1940 a 1969. Professor da Escola de Arquitetura da UFMG, da qual foi também Diretor, cargo de que foi afastado em 1964, pelo Governo Militar. Coordenou a conversão do prédio do Cassino da Pampulha no Museu de Arte da Pampulha, de 1952 a 1957, tendo sido o primeiro Diretor do MAP. Impossibilitado de atuar no país, por intrigas políticas, exilou-se em Paris em 1965, estagiou posteriormente em Portugal, com bolsa da Fundação Gulbenkian. Trabalhou nos EUA, em organismo da OEA. Residiu algum tempo em Santiago, onde lecionou na Universidade do Chile (1966). Como arquiteto, projetou inúmeras residências em Belo Horizonte, construindo uma singular aliança entre recursos tradicionais e soluções modernas. Projetou ainda na mesma cidade as sedes do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFMG (bairro de Lourdes) e do ICBEU (Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos), além do prédio de apartamentos MAPE, conhecido como Xodó, na Praça da Liberdade. Intelectual atuante, colaborou ativamente nos jornais Estado de Minas, Estadão, Jornal do Brasil. Publicou, dentre outros, os seguintes livros: Vila Rica: Formação e Desenvolvimento (INL,1956; Perspectiva, 1977); Arquitetura colonial mineira (1957); Arquitetura no Brasil: sistemas construtivos (1958); Pintura colonial mineira e outros temas (1959)Nossa Senhora do Ó (1964); Minas: cidades barrocas (1969, em convênio com a USP). Faleceu em Washington, DC, onde morava desde 1970, em 1979.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lúcio Cardoso

Livro do mês:

       Acabo de ler a novela O enfeitiçado, de Lúcio Cardoso. Mais um mergulho no exercício da ficção de tendência psicológica, experimentada em várias trilhas e matizes, através de exuberante fluxo verbal, dividido entre a reconstituição cuidadosa do cenário e a captação do universo interior das personagens, marca inconfundível do autor mineiro.


      Surpreende-me o final niilista, absolutamente desesperado, desesperançado. Após um longo percurso em busca do filho, o enigmático Rogério Palma, com o qual desfruta apenas breves momentos de abandono e fuga, em cenários decadentes, Inácio Palma confessa sua desistência, esquadrinhado num beco sem saída. Vê-se desprezado, relegado à sarjeta, pressionado a dar cabo da própria vida, sob a pérfida e implacável vigilância de um bandido, pago para exterminá-lo. “Mas isto era eu, unicamente eu, minha pobre matéria enganada e triste” (p.276). Em sua tumultuada demanda pelo reencontro com o filho, o protagonista não se constrange em pactuar com a mais descarada sordidez, nos arredores periféricos do submundo da prostituição. 
      Alguns críticos que se debruçaram sobre a obra polêmica do Autor usam a imagem do “poço sem fundo” para expressar o pessimismo nela presente e, sobretudo, a ousadia como desvenda as forças obscuras que dominam as personagens, atormentadas, incapazes de fugir de uma destinação trágica. Lúcio Cardoso denominou de “o mundo sem Deus” à trilogia formada por três novelas – Inácio, de 1944, O enfeitiçado, publicada em 1954 e Baltazar, que ficou inacabada. As páginas derradeiras exalam o gosto depressivo da degradação e da morte. 

CARDOSO, Lúcio. Inácio, O enfeitiçado e Baltazar. Rio de Janeiro: Record, 2002.




terça-feira, 19 de julho de 2016

Pampulha, Patrimônio cultural da Humanidade

     


      Na última quinta-feira, o Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte, recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, por unanimidade pelos 19 países membros do Comitê do Patrimônio Mundial, da Unesco. O complexo arquitetônico abrange os edifícios e jardins da Igreja de São Francisco de Assis, Casa do Baile, Iate Tênis Clube e Museu de Arte (nas fotos), construídos entre 1942 e 1943, por grandes nomes brasileiros da arte e da arquitetura, Oscar Niemeyer, Roberto Burle Marx, Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti e José Pedrosa. Todo o conjunto instala-se na orla da Lagoa da Pampulha, idealizada pelo então prefeito Juscelino Kubitschek para ser uma área de lazer e turismo.

                                                (Imagem: portal.iphan.gov.br)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Lino de Albergaria

Livro do mês:

            Lino de Albergaria tornou-se conhecido na década de 80 como autor de livros infanto-juvenis, com mais de meia centena de títulos publicados na área. Mais recentemente tem-se dedicado à ficção para adultos, tendo relançado, pela Scriptum, novas edições de Em nome do filho e A estação das chuvas, além de novos títulos, Os 31 dias e Um bailarino holandês. Deste último me ocupo por ora.


            Trata-se de um romance urbano, direcionado de forma emblemática a aspectos inerentes às artes. Literatura, dança, teatro, fotografia, pintura, música, cinema e arquitetura fornecem elementos condicionantes que se misturam com harmonia na narrativa. Concentração de foco. Cenário minimalista, reduzido ao essencial. Um vendedor de livros aproxima-se de um cliente, um fotógrafo em passagem acidental pela livraria, interessado em comprar ingresso para um espetáculo de dança. Antes, revela-se um ávido e atento leitor. O resultado é um confronto sutil, na esteira de um jogo de sedução, em que olhares, gestos vão se adensando e intensificando. As referências aventadas privilegiam um refinado universo artístico, povoado de conotações que recobrem um multifacetado mosaico de citações e contextos culturais. À medida que os jogos de aproximação se sucedem, alargam-se os reflexos de um instigante caleidoscópio de ressonâncias afetivas e eróticas. Os lances da mútua descoberta justapõem-se como etapas constitutivas e especulares do processo da escrita e da leitura. O cenário exterior – espaços situados no prédio do Palácio das Artes, em Belo Horizonte – oferece substrato ao desafiante processo de conhecimento e aproximação de dois homens. No anonimato do caminho de cada um não há lugar para assomos de posse e usurpação.
A estrutura narrativa opera em blocos pendulares, em que dois narradores vão construindo um arcabouço em ziguezague, cujas sendas terminam por se entrelaçar.  Límpida e despojada, a linguagem sabe tirar proveito de imagens e tomadas sugestivas.  



ABERGARIA, Lino de. Um bailarino holandês. Belo Horizonte: Scriptum, 2015.


           

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Helder Moura Pereira

Livro do mês:

      Helder Moura Pereira revela em Um raio de sol uma aparente oposição às referências sombrias de outros títulos (De novo as sombras e as calmas, Nem por sombras) sugerindo uma via mais aberta e positiva. Signatário de um verso paradigmático – “A mágoa é um vício” – e conhecido pela paciente “ordenação da mágoa”, para usar um comentário de Joaquim Manuel Magalhães, o escritor apresenta neste livro uma produção poética caudatária de novas e arejadas sensações e descobertas, fugindo às cristalizações do discurso crítico: “Vou escrever o destino do meu ser. / Mas é tudo contrário a um livro / que mesmo agora tiro da estante e abro / com as pontas dos dedos magoadas” (p.11). Entretanto, os poemas e o próprio título (pelo que sugerem de restrição e sinal de menos – “um raio” – para já não falar de ironia) não se conformam com uma relação opositiva apaziguadora. Estabelecem antes um modelo dialético de forças que se atraem e se neutralizam, uma rede de associações tensas que se entrecruzam com o intento de minar, na sequência de prerrogativas tradicionais da modernidade, a pretensa ordem burguesa. A tristeza
e a melancolia não desaparecem de todo, convivem com notações eufóricas ou flagrantes de um contexto social degradado num discurso flexível, impregnado da sensação de mistura e impureza de registros: “Aquela versão da realidade falava / de um homem com um só cobertor / de estanho, deitado entre jornais / com escândalos sexuais, baratos, ao som / de disco-house, neo-swuing, flipper music” (p.43). A linguagem torna-se receptiva a instantâneos expressivos, como em “unhas hardcore tamborilando” (p.65).

     
     
      
       A associação entre poesia e música (raio/clave de sol) constitui-se num dos eixos centrais, enunciada no primeiro poema – “A música é sem dúvida imortal” (p.11) – e retomada várias vezes como exercício lúdico ou suporte de elaboração conceitual: “Dar-me-ia por muito feliz / assim no soalho deitado? / A toda a frase sensata / eu torço sempre o nariz” (p.22). Para além das intenções galhofeiras, os significantes produzem ecos, ilustrando a epígrafe de I. A. Richards e a ideia de que o trabalho poético é antes de tudo um trabalho de linguagem: “No meu bairro ladram cães, / ladram cães, ladram cadelas. / E as minhas emoções, meu deus, / que é feito delas?” (p.47). As constantes ligações do poema à música configuram uma percepção do real por meio de vetores diversificados, despertando a memória involuntária do leitor e alianças fundadoras da modernidade poética (“Art poétique” de Verlaine, o “celestial girassol” de Eugênio de Castro, “Chuva oblíqua” de Pessoa – “E a música cessa como um muro que se desaba”): “Verdadeiras lágrimas salgadas, ó / baía de cascais, quantos dos teus iates / matavam a fome em moçambiques e que tais?” (p.46). A evocação da poesia de Pessoa serve ainda para outras ressonâncias: “Eu ponho um laço, / o meu primeiro laço de menino, / e faço de conta que o mundo é uma bola / que chutaram para dentro do meu quintal” (p.14).
      A obra de Helder Moura Pereira propõe-se uma percepção da realidade contaminada por traços de ironia, quase sempre articulada com elementos de denúncia desencantada. Desencantada e perplexa, na medida em que ultrapassa a atmosfera fronteiriça do humor e se equilibra perigosamente à beira do abismo. Permeada de incertezas, esta é uma poesia escrita com o artifício do enigma – o enigma de construir uma duplicidade que ao mesmo tempo constitui e condena à perda o sujeito da linguagem: “Meu coração igual ao meu / outro coração, vive comigo, / vive e faz do meu viver / o teu viver. Fui várias vezes / o mesmo, aceitei a primavera, / descontei contas por ti, / ó meu outro coração” (p.20). Inúmeras formas de questionar a realidade radicam na dificuldade de o sujeito se compreender a si próprio, seja através de alusões a contextos supostamente biográficos – “Procuras na minha secção de música / do mundo onde estará o destino / daquele povo agora muito em moda / nos filmes” (p.54), ou através da memória interessada em compreender a interlocução com o outro: “Ouve, sócio, então já não te lembras / de mim dos tempos do liceu? / Roubaste-me o que era meu, / não sei se também te lembras” (p.76).
     Um raio de sol reverbera uma realidade alterada pela elaboração estética (a longa tradição na poética ocidental do motivo do Sol como agente criador, revitalizada pelo Cesário Verde de “Num bairro moderno”: “Subitamente, - que visão de artista! - / Se eu transformasse os simples vegetais, / À luz do sol, o intenso colorista”) e captada por uma subjetividade esgarçada, dispersa e cética – “qual escrivão do vento / condenado à intempérie dos sentidos. (...) Se não traçarmos nenhum risco nada / nos pode perder, temos um lago, temos / um deserto, que mais podemos querer?” (p.41).


PEREIRA, Edgard. Helder Moura Pereira: tu vês a minha sombra. Lisboa: Aldeiabook, 2014, p.119-121.
PEREIRA, Edgard. Um raio de sol. Resenha em Colóquio-letras, 159-160, Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 2002, p.450-451.
PEREIRA, Helder Moura. Um raio de sol. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. A esta edição prendem-se os números entre parênteses, nas citações.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Massacre em Orlando, EUA

      Repúdio total ao massacre ocorrido em boate gay em Orlando, nos EUA. Foram mortas 50 pessoas, outras 53 ficaram feridas. Dentre os assassinados, a maioria é de jovens de 20 a 30 anos. O matador é um americano, Omar Mateen, homofóbico, simpatizante do Estado Islâmico, filho de afegãos, morto pela SWAT. 
      Solidariedade às famílias das vítimas. A violência contra minorias sexuais reflete o discurso de ódio disseminado na sociedade, em que grupos intolerantes à diversidade mostram-se determinados a impor sua opinião. No âmbito da violência contra gays, quando transferimos a questão para o nosso país, os números registrados no Brasil são vergonhosos, indicadores de um estágio civilizacional pré-barbárie; em 2015, 320 gays foram assassinados.
      Enquanto os políticos não votam leis para criar políticas públicas que minorem os conflitos na área, nós, educadores, não podemos nos omitir, se queremos um mundo mais humano e justo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Hélio Fraga

      Hélio Fraga, conceituado jornalista e escritor, atuou durante anos no Estado de Minas, com matérias de teor político, esportivas e crônicas de mérito considerável. Sob o título de "Prejudicando o Brasil", publicou ontem no jornal O tempo um artigo em que faz comentários pertinentes sobre os dias que correm, em especial sobre o comportamento da presidente afastada. Transcrevo, por considerá-lo oportuno, algumas passagens do artigo.

      "O direito à liberdade de expressão é sagrado em cada ser humano, mas pede-se e espera-se que a verdade dos fatos seja respeitada. Muitos brasileiros se sentiram constrangidos quando, no festival de Cannes, artistas do filme Aquarius exibiram cartazes afirmando que "un coup d'etat a eu lieu au Brèsil" e "a coup took place in Brazil".  Pode ser a opinião pessoal desses artistas e do diretor - eles, sorridentes, e ele, de óculos escuros. Mas estavam divulgando uma mentira e sujando a imagem de nosso país.
      A classe artística depende de verbas e isenções oficiais, e suas manifestações têm forte conteúdo corporativo. Os cofres federais sempre estiveram abertos para esses ativistas culturais produzirem filmes e shows para os quais o cidadão paga ingresso - portanto, nada têm de filantropia. Mamam nas tetas do governo e defendem suas boquinhas.
      Agora que o Brasil passa a ter, pala primeira vez nos últimos 13 anos, um Ministério das Relações Exteriores disposto a rechaçar o desrespeito aos direitos humanos e os ataques à democracia, não se submetendo mais aos governos populistas e autoritários de Bolívia, Venezuela e Equador, é importante que nossas embaixadas não deixem sem resposta nenhum ataque desse tipo, porque estão distorcendo a verdade dos fatos.
      Admitir que houve golpe, que uma presidente da República foi afastada do poder de forma arbitrária e inconstitucional, é aceitar que estejam sendo traídas e renegadas a Constituição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República (PGR). Tudo foi feito dentro da lei. E a PGR ainda tem muito mais a mostrar - esperem.
      Após exaustivos debates, com amplo direito de defesa, a presidente perdeu em todas as votações: de 367 a 137 na Câmara Federal; de 15 a 5 na Comissão de Investigação do Senado; e de 55 a 22 no plenário do Senado Federal - daí seu afastamento provisório por 180 dias. Durante todo o processo, desde o início do ano, em todos os momentos, a presidente denunciou um golpe. Foi a primeira a manchar publicamente a imagem institucional do país ao reunir correspondentes estrangeiros no Planalto para insistir em sua tese, e eles transmitiram essa mentira aos mais poderosos meios de comunicação de todos os continentes."
      (...)

FRAGA, Hélio. Prejudicando o Brasil. O tempo. Belo Horizonte, p. 19, 31 maio de 2016.