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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Josué Montello

Livro do mês:



      Acabo de ler uma obra-prima da ficção brasileira, Os tambores de São Luís. Com mais de seiscentas páginas, o romance de Josué Montello flagra um contexto alargado, da segunda metade do século XIX, às primeiras décadas do século XX. Visto em perspectiva desdobrável, recobre um arco temporal mais distendido, procede de tempos mais retardados, dos anos sessenta do século XVII até os dias de hoje. Três séculos de escravidão no Brasil, revoltas, vicissitudes e tragédias, o sofrido processo de assimilação racial, em que o negro integra-se como indissociável componente da cultura brasileira, com sua indolente sensualidade. Em cuidadosa reconstituição da época, apresenta-nos a cidade de São Luís esplendente de vida colonial, sobrados azulejados e vibrantes paixões. Com artérias de nomes saborosos, Rua das Cajazeiras, Rua da Cotovia, Praia do Jenipapeiro, Rua do Horto, Largo do Quartel, Rua do Navio, Beco das Crioulas. A saga de Damião, um escravo que se torna, por conta do empenho individual, síntese de todo esse sofrido processo.
      Alguns méritos do romance de Montello: a linguagem polida, elegante, ajustada ao assunto, recuperando expressões pitorescas, antigas formas de linguagem. Algumas expressões, bastante reiteradas, tornam-se enfadonhas, como “as pálpebras apertadas” (p. 189), “sobrancelhas travadas”(p. 194, p. 287, p. 490), “sobrancelhas contraídas” (p.316, p. 323), “travou de pronto as sobrancelhas” (p.316)sobrancelhas crispadas” (p.323) “preto forte, espadaúdo” (p.181).
      A intriga evolui de forma lenta, assentada numa concepção um tanto folhetinesca de narrativa. Dentre as sentenças subsidiárias da moldura, delineia-se a nitidez da visualidade: os cenários recortam-se num enquadramento teatral. O suporte descritivo erige-se com desdobrado interesse pelos detalhes, em que os mínimos elementos e objetos se nomeiam, dando relevo a uma espessura tátil e plástica: “… se dispusesse melhor os bregueços e santos ali deixados, poderia abrir a janela, arejando o aposento, e ter espaço para armar sua rede” (MONTELLO, 1985, 160): “Na rua (…) via negros com máscaras de flandres, e se apiedava deles. Mais revoltado se sentia, quando dava com eles atados por uma corrente de ferro, a caminho da Praia Grande” (MONTELLO, 1985, 235).
      No final do relato, relata-se o encontro auspicioso de Damião, o líder dos negros, com a figura emblemática da poesia maranhense do contexto simbolista, o poeta Sousândrade: “Agora, ali estava, ainda intimidado pela figura aristocrática, de mãos finas, cabelos lisos já grisalhos, um lume de candura nas pupilas azuis” (MONTELLO,1985, 539). Recorta-se, então, uma outra São Luís, a dos poetas, do porte de Gonçalves Dias, Odorico Mendes, não mais o lugar do sofrimento dos negros, mas uma cidade altiva, espraiada diante do mar, orgulhosa de sua arquitetura, seus poetas e músicos.

MONTELLO, Josué. Os tambores de São Luís. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Osvaldo André de Mello


        Livro do mês: Imagens imorredouras

            O poeta Osvaldo André de Mello, que acaba de dar a lume este Imagens imorredouras (2018), difere do adolescente que estreou com A palavra inicial (1969), sem, no entanto, dele muito se afastar. Lá atrás, apresentava-se um jovem talentoso, como uma promessa. No contexto atual, defrontamo-nos com um poeta maduro, esbanjando maestria no domínio dos recursos do verso, com uma obra plenamente inserida no cânone da poesia brasileira contemporânea. Se no passado se registra o elogio de Carlos Drummond de Andrade, garantia de qualidade artesanal, ao lado de outros nomes consolidados, nos dias que correm sua produção vem acompanhada de considerável fortuna crítica.
            Dados como esse precisam ser trazidos à baila, para fundamentar uma paleta de juízos, avaliações e esboços complementares, numa perspectiva histórica quase sempre deixada em segundo plano. O que germinava como voz tosca e ousada hoje ombreia com um rol de poetas representativos, no alargado tecido da poesia produzida nos últimos cinquenta anos. Osvaldo André de Mello tem sido perfilado entre os autores que optaram por um percurso produtivo nas trilhas do verso discursivo, cujos pares sempre se mostraram recetivos à linhagem de uma dicção subjetiva, uma vigilante fatura melódica e uma densa espessura simbólica, que teve expoentes com Lúcio Cardoso, Vinícius de Morais, Henriqueta Lisboa, Walmir Ayala, Emílio Moura, Alphonsus de Guimarães Filho, Ledo Ivo, além dos mais próximos, Roberto Piva, Hilda Hilst, Armando Freitas Filho, Eustáquio Gorgone de Oliveira, Iacyr Anderson, Antônio Cícero, Geraldo Reis, Adélia Prado.
            O autor de Imagens imorredouras foi incorporando por vezes, ao longo dos anos, um vocabulário de tendência especiosa e romântica, traço que, se de um lado, releva a seriedade devotada ao ofício da escrita, espécie de escudo diante da banalidade circundante, penosa e abusiva, por outro o filia a uma linha de tradição com indisfarçável escala entre os autores instalados numa tradição de tonalidades neossimbolistas. Dessa forma, não será de surpreender a presença, em seus poemas, de “ideias ínsitas”, “músicas estrídulas”, “coxim”, “primevo”, “cômpares”, “evanescências”, “luminescências”, “orgone”, “arbúnculos”, trazendo um certo ar solene, passadiço. Tendo estreado no fim da década de sessenta, do século passado, Osvaldo André surge egresso de uma geração que, segundo Affonso Romano de Sant’Anna, cresceu “emparedada de um lado por Drummond e Cabral, e de outro pelos concretos” (1). Diante de uma produção diversificada, como é o seu caso, não se deve ignorar, também, a presença de uma temática fincada na história e tradição mineiras, a expansão do veio descritivo, a limpidez do discurso, além do cuidado em se distanciar de certas expressões de platitudes líricas, como seja o uso de símiles exclamativos.
             Imagens imorredouras, oitava coletânea poética do autor, provém de peça de igual título, desentranhada do livro Lua nova (2014). Esta recorrência é bastante significativa numa produção em que alguns motivos se delineiam, tais como a busca da beleza, o patrimônio artístico de Minas, o enlevo e os sobressaltos da experiência amorosa, o misterioso ofício de viver, a integração na natureza, a tentativa de compreensão do significado da arte. Um eu dilacerado, emoldurado por uma nesga de transcendência, instância declarativa que se espraia em desdobramentos mais ou menos fugidios, numa teia de imagens veladas e indiretas. Talvez fosse mais apropriado dizer: modos e enunciados que por vezes se interpenetram, entrecruzam-se. Dotados de sugestões luminosas, os poemas dialogam entre si, sobretudo aqueles que se debruçam sobre a natureza polivalente da linguagem, com o selo de uma coerência interna mantida acesa, de tal sorte que a dimensão telúrica aflora - “todos os objetos se dissolvem / e me descubro uma peça da natureza / como as plantas ou os pássaros” (“Alegria”).  (...)

1.     SANT’ANNA, Affonso Romano de. Apud MORICONI, Ítalo. Como e porque ler a poesia brasileira do séc. XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 125.

(Parte de prefácio ao livro referido.)

 MELLO, Osvaldo André de. Imagens imorredouras. Belo Horizonte: O Lutador, 2018.


                                                                                                                                                                           

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Brasil elege novo presidente, Jair Bolsonaro

      Após uma campanha eleitoral marcada por extremismos, o resultado das urnas favoreceu o deputado federal Jair Bolsonaro, eleito, ontem, em segundo turno, presidente do Brasil. O vencedor obteve 57, 7 milhões de votos, contra 47 milhões do adversário, o petista Fernando Haddad. Dentre os fatores decisivos para a esmagadora vitória, apesar de declarações pouco democráticas do finalmente eleito, destacam-se os compromissos assumidos em favor da segurança pública, as promessas desenvolvimentistas sem viés ideológico e o fervor antipetista da população. Vigora no país forte repulsa às propostas oriundas do Partido dos Trabalhadores, representadas pelos últimos governos (Lula e Dilma), marcados por altíssimos índices de corrupção e mau uso do dinheiro público. Tal percepção só a possui o povo brasileiro, em sua maioria decepcionado com resultados negativos no comando da economia e com o excessivo aparelhamento das estatais, usadas como fonte de abastecimento do partido dos Trabalhadores e enriquecimento ilícito de políticos, com a cúpula praticamente presa por corrupção (Lula, Palocci, José Dirceu, o secretário Vaccari Neto). O candidato eleito foi ferido durante a campanha com brutal facada no dia 6 de setembro, em ato público no interior do estado de Minas Gerais (Juiz de Fora), tendo sofrido hemorragia interna e se submetido a duas cirurgias do intestino. Em seu discurso oficial, ontem, após o encerramento da contagem dos votos, Bolsonaro afirmou: "Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, de andar nas ruas, liberdade de empreender, liberdades política e religiosa, de fazer escolhas e ser respeitados por elas".  O seu esforço deverá agora concentrar-se em pacificar o país e governar sob a égide dos princípios democráticos, expandindo para todos as oportunidades de prosperidade e trabalho. Não será fácil a tarefa, mas na certa contará com o apoio dos brasileiros honestos e bem intencionados.

                                              
                                                  (Foto: Marcos Arcoverde, Estadão)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Olavo Bilac (1865-1918)


      


      O ano de 2018 assinala o centenário da morte de Olavo Bilac (1865-1918), voz expressiva da poesia brasileira no final do Império e início da República. Considerado o terceiro ângulo da famosa trindade parnasiana, que incluía também os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correa, Bilac desfrutou de ruidosa popularidade na época. No auge do parnasianismo, com a primeira edição de Poesias, contendo Panóplias, Via-láctea e Sarças de fogo, em 1888, o autor aglutinou em torno de sua obra uma unanimidade crítica eufórica e uma expectativa cosmopolita, inédita para os padrões culturais da sociedade brasileira, egressa de um longo período de subalternidade diante da cultura portuguesa, em decorrência do legado colonial. Como seus pares, frequentava roda de boêmios, desfrutava longas temporadas na Europa, alienado dos problemas do país. Seu envolvimento na vida social do país reveste-se de um aspecto um tanto bisonho, na defesa do serviço militar obrigatório para jovens. Poucos intelectuais se envolveram na campanha abolicionista, imersos em controvérsias de natureza literária. Alvo de acirradas críticas no âmbito da implantação do modernismo, passou por um longo e imerecido ostracismo, que só recentemente se vai desfazendo. Autor de uma obra vasta, irregular e multifacetada, que abarca desde poemas metalinguísticos a outros de exacerbada matéria erótica, poemas de tonalidade reflexiva a outros de forte impregnação épica, Olavo Bilac modelou um perfil artístico intimamente conetado ao seu tempo, que persiste como legado histórico de apreciável relevância. Dentre as composições voltadas para o resgate de eventos e personalidades históricas, destacam-se “O caçador de esmeraldas” e “Sagres”. (...)

(O texto acima constitui o primeiro parágrafo de artigo de minha autoria sobre o poema "Sagres", de Olavo Bilac, publicado na revista Colóquio - letras, 199).

                    A trindade parnasiana: Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Josué Montello

Livro do mês

                                                      (Imagem: levyleiloeiro.com.br)

      Josué Montello (1917- 2006) ocupa, nas letras nacionais, um singular espaço, em decorrência de diversificada e rica produção. Romancista, dramaturgo, ensaísta, memorialista, cronista, espraia-se em vários modos expressivos. O próprio escritor, ao apresentar este Diário da manhã encarrega-se de esclarecer: “Orientei-me, ainda moço, para a literatura, convivendo mais com os livros e o papel da escrita do que com os companheiros de geração. Talvez isso explique, simultaneamente, a extensão de minha obra e a inquietação de minhas leituras” (Montello, 1984, 9).
      As anotações e os registros que permeiam o seu diário, impregnados da atmosfera do tempo (1952-1957), acabam repassados de sinais emotivos e de efeitos inusitados, monitorados por um emissor afeito às astúcias da ficção. Agrega as qualidades de memorialista e os méritos de ficionista experiente. E produz páginas no calor dos eventos, capazes de interessar não apenas ao leitor comum, mas ao sociólogo e pesquisador social. O périplo às moradas de acadêmicos, no âmbito de sua campanha pelo ingresso na ABL, serve de motivo para o esboço analítico da obra de alguns escritores, representativos das décadas de 50 e 60 (Afonso Arinos, Gustavo Barroso, João Neves da Fontoura, Viriato Correia, Manuel Bandeira, Álvaro Lins, Osvaldo Orico, Viana Moog, Jorge de Lima). Os perfis delineados não se reduzem a referência fria, Graciliano Ramos, por exemplo, é flagrado na Livraria José Olympio “rindo, quase a sufocar-se com a fumaça de seu cigarro Selma” (Montello,1984, 184). Retrata a Academia Brasileira de Letras como lugar de reconhecimento de méritos, mas também de intrigas, invejas, despeito e ressentimento. A morte trágica de Getúlio Vargas (24 de agosto de 1954) paralisa o país: “Mais do que uma figura política, Vargas é uma figura histórica para a minha geração. Todo um largo período de vida brasileira o envolve, e é ele quem domina a cena, ainda moço, na Revolução de 1930, para continuar a dominá-la ainda agora, já velho, no derradeiro lance de sua biografia. (…) Foi ao encontro das massas operárias, dando-lhes um novo estatuto, por intermédio de uma legislação social mais humana. Defendeu o petróleo brasileiro, no momento em que os técnicos estrangeiros se recusavam a admiti-lo. Prendeu Graciliano Ramos? Sim. Levou ao extremo as luas contra adversários? Também é verdade. Sufocou a imprensa, canalizando-a para o culto da personalidade através do DIP? Perfeitamente. Mas não era o homem dos rancores irremovíveis. Eu próprio, acusado de duras críticas à sua pessoa e ao seu governo, estava a receber dele, agora, os votos que me levariam à Academia – assim como nomeou fiscal de ensino ao Graciliano Ramos, logo que o restituiu à liberdade” (Montello,1984, 281-282). Integrante do secretariado de Juscelino Kubitschek, o autor reporta passagens relacionadas ao criador de Brasília: “… veio da extrema pobreza e venceu sucessivos obstáculos para chegar à Presidência da República pelo voto popular, não se desfigurou ou transfigurou ao longo de seus triunfos. Aperta a mão do barbeiro como abraça o presidente do Senado - com a mesma naturalidade” (Montello,1984, 432). O aprendiz de teoria literária, o aspirante ao ofício de escritor não experimentam a sensação de perda de tempo. Pelo contrário, sempre se aprende com um bom escritor: "Cada geração tem uma curiosidade própria, constituída por suas angústias e aspirações. Quando o escritor se faz intérprete dessas angústias e aspirações, ajusta-se a seu tempo, e encontra o seu público"  (Montello,1984, 634).
      
      Mais do que notas asséticas e inexpressivas, Montello brinda-nos ainda com páginas elaboradas, refinadas impressões derivadas de leituras, da convivência com grandes personalidades e do fervor gerado por alguns mestres da escrita ou cidades especiais, como Paris, recriada em quadros de pinceladas excessivas.

Montello, Josué. Diário da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

domingo, 16 de setembro de 2018

Maria da Conceição Elói

Livro do mês: Arcas, arcazes e baús




       Em recente evento, realizado em Divinópolis, capitaneado por Osvaldo André de Melo, entre debates sobre poesia e intercâmbio, quis o acaso que me caísse às mãos um belo livro de poemas. Com capa florida de Yara Tupinambá, escrito por Maria da Conceição Elói, traz um despretensioso título - Arca, arcazes e baús. Embora desponte aqui como livro do mês, na verdade foi lançado em 1978. Vem, em decorrência de seu contexto, marcado por contingências propícias ao florescimento de uma geração especialmente ungida para o labor poético, em Divinópolis, divulgando nomes até hoje importantes no cenário da poesia brasileira: Fernando Teixeira, Lázaro Barreto, Sebastião Milagre, Osvaldo André de Mello, Adélia Prado e outros, sem esquecer a autora referida. As circunstâncias que dizem respeito à evolução poética não ocorrem arbitrariamente, apresentam-se encadeadas, num misterioso desígnio, cujo alcance e sentido ultrapassam os limites da coincidência. Desse contexto fazem parte a convivência, a pesquisa individual e o esforço coletivo de criação em torno do fenômeno da poesia. Não ocorrem de forma inconsequente as artimanhas dos deuses da arte. De outro lado, como explicar a sucessão de liames singulares, a junção de estrelas propícias numa via-láctea luminosa, a comemoração do centenário da morte de um grande poeta (Olavo Bilac), ocorrida neste ano de 2018, o reencontro de pessoas aparentemente dispersas?  
       Todo este preâmbulo visa a repisar uma noção básica: nada ocorre de forma isolada. Os eventos culturais ligam-se obscuramente a ditames superiores: a estreia literária de Adélia Prado, a mais expressiva poeta brasileira da atualidade (Bagagem, 1976) decorria de um ambiente propício à criação artística no centro-oeste mineiro. Mas o foco agora tenta entender parte da criação poética de Maria da Conceição Elói, neste seu segundo momento, na sequência do volume anterior, Luz ausente. No prefácio, Yeda Prates Bernis assevera: "Temperamento delicado e ansioso de beleza, a autora vai tecendo seu canto em tempo de nostalgia e em tentativa constante de reconstruir um passado que, inexorável, jamais voltará". Com certeza, estamos diante de um canto entoado em registro melancólico, em face de um mundo inóspito, em relação às conquistas do espírito: "trago para junto de mim, / o passado, /  descortinado / guardado na memória" (segundo poema da coletânea, "Magia"). Além de resgatar guardados, trastes antigos, baús domésticos, os objetos dos antepassados, as relíquias coloniais e familiares, os poemas desta arca buscam desvendar o  "véu de nostalgia" que os torna românticos e sonhadores. Instalados em "tampos de vinhático / e base de jacarandá", os vestígios do passado, mais do que ornamentos decorativos, como "painel variado de emoções / moldura para a nostalgia" (em "Caraça") encharcados de vivências, fitam-nos com um fundo sentido histórico e religioso.

ELÓI, Maria da Conceição. Arcas, arcazes e baús. Belo Horizonte: Ed. Comunicação, 1978.





segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Incêndio destrói Museu Nacional no Rio

      Como se não bastassem as notícias aziagas, os brasileiros defrontam-se com mais uma tragédia. Esta de proporções irreparáveis para a cultura nacional, com reflexos na preservação do conhecimento de todo o mundo. Um incêndio destruiu ontem à noite o Museu Histórico Nacional instalado na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro. O prédio, uma relíquia arquitetônica de dois séculos, onde residiu a Família Imperial, ardeu em chamas. Desaparece todo um acervo da história colonial, acrescido de riquíssimas coleções, como a coleção egípcia recolhida por D. Pedro II, inúmeras doações de realezas estrangeiras, o acervo indígena, coleções científicas (fósseis, inclusive o de Luzia, documentos), além de peças de valor histórico e científico inestimável (a sala da Coroação, mantos e coroas imperiais, o mais completo arquivo de história natural da América Latina, etc.|).  Tudo aquilo que a incúria havia condenado à ruína, (cupins, rebocos deteriorados), acabou de vez. O país precisa repensar todo o processo de preservação da riqueza histórica e científica, no qual inúmeras gerações no passado se envolveram de forma pioneira. Na imagem, detalhe da fachada, antes do fogo.

                                         ( Imagem: pt.wikipedia.org.)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Rodrigo Lacerda


Livro do mês:

      A república das abelhas


      Carlos Lacerda (1914-1977) ocupa, na história do Brasil dos anos 1930 a 1960, um papel importante, um lugar incontornável no complexo xadrez político. Sua atuação como tribuno corajoso e destemido, capaz de aglutinar forças contrárias a Getúlio Vargas, já seria um feito grandioso. Para muitos, sua luta por transparência e democracia, em tempos de presidencialismo exacerbado, com sinais de corrupção, estaria na origem do desfecho trágico assumido por Getúlio, ao se matar em 24 de outubro de 1956. A capacidade de enfrentar a corrente, correndo riscos extremos, sem desistir ou abandonar os princípios nos quais acreditava, transparece no perfil acalorado, esboçado por Rodrigo Lacerda, neste admirável romance histórico, A república das abelhas. A carreira do controvertido homem público, presença marcante do debate político da época, está na base do perfil densamente abordado pelo narrador  póstumo, em primeira pessoa, o próprio Carlos Lacerda. O título refere o frenesi em torno da colmeia, metáfora sobre os vários grupos lutando pelo poder na primeira metade do século. 



      Um dos pontos altos - infelizmente, reduzido, num tijolo de 515 páginas - constitui o capítulo "Bananas e matemáticas". O tema aí restringe-se à sumária aproximação entre o jovem Carlos Lacerda e o poeta paulista Mário de Andrade. O tom adotado, irônico, sutil e metafórico, perpassa todo o episódio; reporta-se aos anos 1938-1941, que correspondem ao exílio carioca de Mário de Andrade, após ser demitido, em 1937, do Departamento de Cultura da prefeitura de São Paulo. Muitos historiadores assinalam o efeito destruidor, pessimista, deste período na atuação do autor de Pauliceia desvairada. Afirma o narrador: "Durante esses poucos anos, o tom descontraído da sociabilidade lhe fez bem. Apesar de ser vinte anos mais velho que nós, o Mário gostava de conviver com os mais jovens, então eu e meus colegas de certa forma o adotamos, ou fomos adotados por ele" (LACERDA, 2013, 355-256). Nas conversas, o assunto delineia-se em torno da função social da arte, o compromisso social do escritor. Mário lhe confessa a turbulência que envolveu a escrita do poema "O carro da miséria", reformulado em três momentos posteriores. Lacerda registra as contradições em que se movimentava: apesar de comunista, colaborava em revistas financiadas pelo capitalismo (Diretrizes, bancada pela Light): justifica-se afirmando que precisava sobreviver, com filhos para criar -"bananas" denota alimento; "matemáticas" corrobora finanças. Quando associa o conceito de felicidade ao de justiça, Mário de Andrade retruca de forma irônica: "Mas onde está a justiça? A Justiça é uma velha ceguinha, que inscreve na sua militaríssima ordem do dia: 'Hoje todos terão de gostar de matemáticas com bananas'. A arbitrariedade de qualquer noção de justiça humana é fatal, estou convencido de que é fatal" (LACERDA, 2013, 357). O narrador transcreve um diálogo com Mário de Andrade. O político defende que a a arte deve ter uma função social.  Para Mário, a função social deveria decorrer do fato de a arte ("manifestação extrema da inteligência")  proceder de um ser humano: 
      "O que eu quero, o que eu amo, o que eu não renego, é a sublime safadeza da inteligência humana. O despudor, a mentira, o pragmatismo da arte. Ao supremo blefe, a justiça, não será apenas melhor o jardinzinho de cada um, aquilo em que somos um: o indivíduo?"
      "Isso iria acaber com o papel social da arte. Ela teria tanta importância quanto uma laranja podre na feira". 
      "Não me interessa o laranjismo da arte, mas a humanidade da arte. Aquilo em que ela não é nem Rilke nem matemáticas, não é champanhe nem bananas, mas simplesmente tudo isso. Um direito, um exercício de todos nós". 
      "Claro que a arte é um direito!"
      "Sim, mas não no sentido político. A arte é simplesmente humana. Respirar é uma necessidade, como o exercício cotidiano da arte. É uma harmonia do ser. Não importa que os outros fiquem sendo os Camões e os Shakespeares. Ninguém deixa de respirar só porque não tem tromba de elegante" (LACERDA, 2013, 357-358).
      A ficcionalização da vida inflamada do político termina antes de 1954, antes que a luta contra Juscelino Kubitschek e Goulart viesse à tona com veemência. Ficam fora duas passagens da vida de Carlos Lacerda: a atuação como governador da Guanabara (1960-1965) e sua ligação com o golpe militar de 1964.  

                                                    (Rodrigo Lacerda: oglobo.globo.com)


LACERDA, Rodrigo. A república das abelhas. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Poesia brasileira: Os melhores livros



1. Gonçalves Dias. Primeiros cantos.
2. Castro Alves. Navio negreiro. 
3. Olavo Bilac. Poesias (ed. 1902, inclui "O caçador de esmeraldas").
4. Augusto dos Anjos. Eu. 
5. Manuel Bandeira. Poesias completas (ed. 1948).
6. Jorge de Lima. Invenção de Orfeu.
7. Cecília Meireles. Poesia completa.
8. Murilo Mendes. Poesias (1959).
9. Carlos Drummond de Andrade. Antologia poética (1962).
10. Vinícius de Morais. Antologia poética (6a. ed., 1967).
11. João Cabral de Melo Neto. Poesias completas (1940-1965). (Sabiá, 1968).
12. Ledo Ivo. Antologia poética (1965).
13. Bruno Tolentino. A imitação do amanhecer  1979-2004. (Globo, 2006).








quinta-feira, 5 de julho de 2018

Walmir Ayala

               Livro do mês:

      No variado leque de possibilidades oferecidas pelo gênero, temos o diário cultural, o diário familiar, o diário íntimo, o diário político, entre outros. Em Diário I, difícil é o reino, de Walmir Ayala, (capa de Loio Persio) encontramo-nos diante de uma mistura do diário íntimo com o cultural; dois volumes se sucederam a este. Publicado em 1962, pelas edições GRD, este livro coloca-nos, por conta do extraordinário fingimento proporcionado pela literatura, em contato com os eventos, as peripécias, os contatos, os encontros, os pensamentos, os projetos literários da época, os amores do escritor à altura dos últimos anos da década anterior e o início dos anos 60, um gaúcho que abandonou Porto Alegre ainda jovem e veio para o Rio de Janeiro para dedicar-se à carreira de escritor. Dedicou-se a vários gêneros, tendo-se se destacado como poeta, dramaturgo, romancista, diarista e bem sucedido crítico de artes plásticas, na grande imprensa carioca nas três últimas décadas do século XX. Escreveu ainda mais de uma dúzia de livros infantojuvenis.



      Ao se dispor a registrar as efemérides pessoais, os apontamentos reflexivos sobre si e os outros, o autor de um diário acaba por revelar aspectos decisivos de sua postura intelectual e literária. Amigo íntimo de Lúcio Cardoso, com quem conviveu alguns anos, e de sua irmã,  Lelena, (Maria Helena Cardoso), Walmir Ayala (1933-1991) revela, neste diário, seus primeiros anos no Rio de Janeiro, as amizades que se foram consolidando, as estreias como poeta, dramaturgo e romancista. E sobretudo, a euforia e as mágoas decorrentes de sua opção pelo homoerotismo, posição perante a própria sexualidade assumida com serenidade e integridade. Algumas reflexões se ressentem de uma certa espessura dramática, como calha a um dramaturgo: “Eu me achava munido de uma defesa contra a insensatez do amor – agora aqui me encontro, um animal ferido, sorvendo aos haustos o último ar do mundo” (AYALA, 1962, 28). Talvez tenha sido o nosso último grande outsider, vibrante de metáforas inquietas, ensimesmadas, ousado no embate com sua própria interioridade, por vezes dilacerada. Logo no início, retomando o título, escreve: “Difícil é o reino, ninguém atinge os cavalos e os férteis campos, sem que isto lhes signifique uma custosa renúncia. Difícil é o reino, de se construir, de se respirar sua profunda realidade, seu organismo cotidiano – os panos de prato, os canteiros onde é preciso extirpar os maus capins, a poeira que é preciso varrer, o pão com manteiga de que se faz a infância, e o casaco de pelúcia aquecendo como carícia de mãe. Difícil é o reino da solidão, o que começa assim.”(AYALA, 1962, 12).

                                                 (Foto: www.escritas org.)
      O esforço de produzir uma escrita como depoimento de uma época, sem deixar de auscultar o mundo interior, os conflitos existenciais, acarreta uma corajosa postura, no sentido de se desnudar e se revelar em público. Walmir Ayala não se intimida diante desse compromisso. No seu caso, a válvula positiva, a ferramenta doadora de equilíbrio chama-se fé, espiritualidade: “Hoje no mosteiro de São Bento, o impacto com a magnificência da casa de Deus, que me reduziu ao mínimo, e deixou bem evidente uma presença invisível. Pelo menos me proporcionou ambiência à comunicação do mistério do Ser total no que me sinto integrado, e com o qual estou comprometido” (AYALA, 1962, 59). Noutro registro:

Porque é orando que se espera. Porque se sabe que algo virá – alguém. Então se reza. E as mãos realizam um curioso ritual de objetivos em favor do esperado. Às vezes se coloca uma rosa num copo de opalina, ou se estica a colcha de toalha azul sobre o divã, e se frequenta o espelho atrás de aparências que não duram (porque a espera inclui também aquela meia-hora entre a hora marcada e a chegada – e então tudo começa a apodrecer, a ruir dentro da gente, e se transpira no corpo e na alma um suor ácido de frustração que nos faz desejar num momento: “Que não venha ...”Às vezes vem, às vezes não. De ambas as maneiras deixa após si os detritos de uma permanência sem reciprocidade). (AYALA, 1962, 13).

      Os críticos literários têm o vezo de dispensar a consciência expressa pelos autores em seus textos Recorto a seguinte confidência, importante no que esclarece sobre seu método ao explicitar a veia discursiva de sua poesia: “Meu livro, pela sinceridade, talvez, comova. Não me preocupei em construir o poema (não sabia disso ainda) mas em comunicar poesia… e era tanta a que me vinha. Acho os meus poemas desimportantes, por isso. Que interessa aos outros o meu encontro com um maravilhoso gato, e a presença dele na minha solidão daquela noite? A universalidade é difícil, principalmente para o poeta, tão voltado para si mesmo” (AYALA, 1962, 27). Ao longo do diário, dois grandes eixos vão se firmando: o exercício da escrita, a busca amorosa. Sobre o primeiro tema, transcrevo mais duas passagens: “Vou aos concursos sempre, porque não sou editor, e não acredito que os editores me escutem porque não sou o que se chama um autor comercial” (AYALA, 1962, 86). Sobre seus poemas, anota: “A só aglutinação de palavras, a só presença delas no poema, não me satisfaz. Por mais que se pregue a desdramatização (e isto me parece útil) não me convence o extremo de transformar o poema em relatório das coisas, e o poeta em suposta voz de Adão chamando o Ser do fundo do seu poema. O poema deve ter um nó de síntese, deve definir alguma coisa referida quer no título quer nas entrelinhas do verso, mas deve” (AYALA, 1962, 30-31).

AYALA, Walmir. Diário I – difícil é o reino. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1962.