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terça-feira, 21 de março de 2017

Adriana Versiani

      Comemora-se hoje o Dia mundial da poesia. Aqui se apresenta Adriana Versiani, que faz poesia em Minas Gerais, com densidade e delicadeza. Publicou, em 2009, Livro de papel, objeto verbal atravessado por uma "respiração neobarroca", de acordo com Osvaldo A. de Mello, que integra duas coletâneas, Biografias de vocês que não existem e Mandrágora, entremeadas de coloridas e inventivas soluções gráficas e estéticas.


                                                       (Foto: luisprado.com.br)

          Poema
          Adriana Versiani ¹
          hoje sonhei ser segredo,
          seu segredo,
          algo distante de mim.
          aquilo que mora no pulmão do maestro,
          enquanto pausa, enquanto lembra, enquanto espera o som.
          sonhei ser antes da pintura da nave,
          antes da tinta ou das mãos,
          antes da ideia.
          sonhei ser segredo,
          seu segredo.
¹ Adriana Versiani
Ouro Preto, MG. 1963

terça-feira, 7 de março de 2017

Ensaios de poesia contemporânea

      Foi lançado o site que abriga o volume com os trabalhos apresentados no I Congresso FALE de Poesia contemporânea em língua portuguesa, assinados por especialistas e pesquisadores brasileiros e portugueses. O evento ocorreu no ano passado (18,19 e 20 de abril, na UFMG, em Belo Horizonte). O resultado é um trabalho de muito bom gosto e serventia. Os organizadores estão de parabéns. Participo com uma comunicação sobre a poesia de António Franco Alexandre. A quem se interessar, vai aí o site: https://tamanhapoesia.wordpress.com/


sexta-feira, 3 de março de 2017

Antônio César Drumond Amorim

Livro do mês


         De Milena, circo e sonhos, narrativa lírica de Antônio César Drumond Amorim, faturou o primeiro Prêmio Guimarães Rosa, do Governo do Estado de Minas Gerais, em 1975. Bastaria este prêmio, de alto montante, para torná-lo um livro representativo de toda uma década. Ilustrado por Gilberto Abreu, a quem se deve também a expressiva e ingênua capa, com vagas reminiscências dos desenhos de Exupèry, foi editado pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, no âmbito da cobiçada premiação. O próprio autor sentiu “o fardo”, como se observa na erudita apresentação, com preâmbulo em homenagem a Sartre: “Acabo de receber um prêmio muito importante, não discuto o valor objetivo da coisa. Sobrenado muito bem disposto, muito burguesmente instalado em toda essa situação. É terrível”.  Algumas linhas depois, confessa: “Eu não poderia nunca me manifestar fazendo música, pintando, esculpindo. Literatura é a maneira mais completa de a gente se manifestar, dizer que está aí, contar que vive. Estou falando de mim”.



O livro foi aquinhoado de tantos agrados oficiais que a crítica considerou de bom alvitre silenciar a respeito. Por paradoxal que possa parecer, diante de sua estrutura esgarçada e do distanciamento dos gêneros, tudo coroado ao fim e ao cabo pelo prêmio, instalou-se uma tácita indiferença.  A presença de posturas vanguardistas para a época – pontuação pouco rigorosa, uso de minúsculas após o ponto final, excesso de figuras de linguagem, - serviu para cercar o livro de uma cortina de olvido.  Poucos se deram ao trabalho de lê-lo, esta a verdade.  Isto é o que acabei fazendo, nos últimos dias. Trata-se de um relato lírico, permeado de elementos circenses e folclóricos. Recria situações amorosas entre um suposto Palhaço e a idealização feminina. Milena corporifica o eterno feminino e agrega traços constitutivos da amada etérea, impossível, distante.
“Na minha roupa recolhi estas estrelas. Eu as apliquei, mas não renderam juros. Gastei a minha vida recolhendo estrelas, recontando flores.
Senhoras e Senhores,
Estarei sendo irreverente? Por momentos as palavras reassumirão a sua autonomia bruta e a mente oca deste palhaço se encarregará de estraçalhar ideias” (AMORIM, 1975, 28).
           Há mais de quarenta anos, o livro de Drumond Amorim projeta-se, como espaço de mistura de gêneros, na medida em que abriga traços estruturais épicos e dramáticos, além dos elementos líricos evidentes.  
          “Desmaiava em festas a cidade, naquele tempo, bela-adormecida entre três montanhas e o mar. Não constava dos livros de geografia, não constituía nem mesmo ponto em qualquer dos mapas existentes nos mundos, rebrilhando ao sol para poucos.
Espero justificar a ênfase com que distingo o dia de festas na destruída e já soterrada cidade: - fora Milena a princesa que atraíra forasteiros, beijos e olhares,
         tão impressionista, em tom maior esclarecerei: Milena firmara-se com relevância misteriosa, senhora encantada e inconquistável” (AMORIM, 1975, 52).
          Formado por Heráclio Salles, José Guilherme Merquior e Rui Mourão, o júri destaca no Relatório alusivo à escolha: “A sua estrutura se constrói por meio de pequenos segmentos poemáticos – às vezes de um mero sintagma – que vão sendo dispostos sobre a página com autonomia marcada pelo destaque dos espaços em branco mas que ao mesmo tempo se interligam para constituir um fluxo contínuo, através de procedimentos retóricos de grande eficiência e que acabam se tornando nos maiores responsáveis pelo ritmo geral da composição”.

AMORIM, Antônio César Drumond. De Milena, circo e sonhos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1975.


quinta-feira, 2 de março de 2017

Dicionário de Fernando Pessoa...

      Folheei, na Biblioteca da Faculdade de Letras da UFMG, o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo português, organizado por Fernando Cabral Martins. O título, numa aproximação breve, deveria ser Dicionário de Pessoa e de Leila Perrone. Excesso de citações de artigos da professora da USP, verbetes superficiais, redundantes, dizendo o óbvio, pouca novidade, se comparado a obras de maior fôlego, já existentes. Organizado com interesse no público francês, alvo de explícitas piscadelas, (efeito da globalização europeia?), ignora parte substancial da bibliografia sobre Pessoa produzida em solo brasileiro. Reflete certa indisposição com os pioneiros da área (Gaspar Simões, Prado Coelho, Berardinelli), Decepção maiúscula, proporcional ao ruído de marketing da época do lançamento.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Desmontando as teses

Não sei se alguém já se atreveu a contar: o que antecede a escrita de um copião de tese acadêmica. Acompanhar o percurso desorientado, as anotações apressadas, as impressões desguarnecidas que poderiam fornecer mais tarde uma pista. 

                                     (Imagem: escrevendo o futuro. org.)

À frente, um livro inteiro, páginas inteiras coalhadas de riscos, chaves, colchetes, anotações, marcações de página onde a mesma ideia retorna, ref. bibliográfica. A marginália interpretativa, o comentário ingênuo destinado ao lixo. Riscos indicativos, na maioria incongruentes, de um pensamento fugaz, que não chegou a se consolidar, riscos que o leitor cansado (ou enfadado) faz à margem de um poema, uma descrição. Por vezes, um desenho grosseiro e tosco.
Registro as hesitações e tensões que antecedem a hora do lobo. Os inúmeros recheios, notas, reflexões, suposição que vamos alinhando, em geral, entusiasmados no fulgor provisório. As mutações e sobressaltos, em gradação só justificável no instante da colheita. Notas escritas a lápis alternam-se a outras, a tinta permanente, em cores variadas, vermelho, azul, preto, verde. Excertos de leituras variadas superpõem-se, Levinas, Barthes, Deleuze, Foucault, Todorov, Blanchot, Benveniste, Eduardo Prado Coelho, Fernando Pessoa. Ocioso frisar a importância da citação, nos moldes éticos e científicos.

Um livro de mais de 600 páginas abriga muito espaço para glosas – sérias, idiotas, explicativas, de sinonímia, ou simplesmente hilárias. Como o autor investigado era um poeta contemporâneo, um rol de palavras reiteradas: mãos, mágoas, corpo, rosto, riscos, folha, vento, sol, casa, ruas, versos, Um consolo, calado digo a mim mesmo: se tivesse aproveitado metade das sugestões, talvez a versão definitiva teria sido mais abrangente. O que poderia ter sido e não foi. O que não se reporta ao orientador. Os resíduos de um intricado jogo de xadrez.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Antônio Carlos Villaça


      O livro de Antônio Carlos Villaça foi um fenômeno de lançamento nos anos 70. Só recentemente tive condição de ler. É um caso raro de excelência num gênero pouco comum no país, o de memórias. A ciranda do autor entre um convento e outro, sua indecisão diante da vocação monástica, a busca desesperada de um sentido para a vida são questões fundamentais nesse livro pungente. A dilacerante busca de saída reflete a inquietude humana. A impressão é de que assim como se entra num convento, também se entra num associação benemérita, a condição humana não se dá por realizada. Os depoimentos a respeito de intelectuais com os quais conviveu são preciosos. Sobre Graciliano Ramos: “Graciliano era áspero e delicado, como os tímidos de seu tipo, o dos moralistas, inconformados, exigentes. Era um solitário” (VILLAÇA, 2006, 278). O escritor francês Bernanos, radicado num sítio perto de Barbacena, tinha um vozeirão. O poeta Augusto Frederico Schmidt era célere, apesar de gordo. A proximidade, o companheirismo entre os dois, fortalece a ideia de que o poeta teria sido um dos mediadores intelectuais da trajetória do autor. Sobretudo, fica o registro de uma autêntica vocação literária, o atribulado percurso de alguém que se não se contentava com a mediocridade.


      O autor traça um cuidadoso panorama do pensamento católico no país, dos anos de 1950 a 1970, detendo-se em nomes expressivos da nossa inteligência. Alceu Amoroso Lima, Bernanos, Gustavo Corção, Padre Penido (reconhecido na França como um expoente do tomismo), Padre Leonel Franca, Carlos Sussekind de Mendonça, Dom Abade Tomás Keller, Galdino do Valle, Augusto Frederico Schmidt, Osvaldo Neiva, Álvaro Americano, Rui Otávio Domingos, Dom Marcos Barbosa, Carlos Drummond de Andrade, Rodrigo Otávio Filho, João Condé, Manuel Bandeira, D. Aquino Correia, figuras centrais de nossa intelectualidade, formam o diversificado círculo em que se movimentava.
      Por vezes mostra-se áspero em relação a amigos. Como Alceu Amoroso Lima. “Repete-se muito, vive preso a seus esquemas, divisões, subdivisões. É seu feitio e ele próprio o confessa, o admite e nos diz que recorre aos esquemas para não se perder. Como seria bom para nós e para ele que se perdesse. Alceu me pôs em contato com a cultura universal, através de seus livros maçudos, seus artigos maçadões, suas conferências desordenadas” (VILLAÇA, 2006, 131).
      Muitas páginas, ainda que impregnadas de religiosidade, não perdem o elo visceral com a vida, revelando por vezes a vaidade e o artificialismo das relações. "Oh interminável estrada, ó ruas do mundo, ó caminhos da vida, ó rio dos homens por onde incessantemente rolamos como gloriosos destroços" (VILLAÇA, 2006, 215). Vindo de um intelectual de tendência universalista, de raízes humanistas, alguns pensamentos fulguram: “Creio na extrema lucidez do irracional. E desconfio da clareza, da sistematização, da logicidade, que é pobre, da racionalidade ordenadora”. (...) “A grande arte não admite pressa. Mas a grande arte exige amor e ódio” (VILLAÇA, 2006, 328). O Nariz do morto desmitifica a ideia de que o conhecimento do mundo seria patrimônio de cientistas pragmáticos, ateus acima de tudo. Aprendemos com o autor a extrair do mínimo percepções profundas.

VILLAÇA, Antônio Carlos. O nariz do morto. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2006.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Cabo Frio

      E lá fomos, curtir oito noites em Cabo Frio. Para quem não sabe, Cabo Frio abriga atualmente mais mineiros que as praias capixabas, depois que um prefeito de Guarapari anunciou que ia cobrar pedágio aos turistas oriundos das Gerais. Bom para nós, uma vez que somos brindados com melhor infraestrutura, praias mais descoladas (limpas, de areia branca) e o humor dos cariocas. A cidade, além de oferecer boas praias (Dunas, do Forte, Peró), é também porta de acesso a outros destinos, como Arraial do Cabo, Búzios, Rio das Ostras, com praias para todos os gostos (Azeda, Azedinha, Ferradura, Tartaruga, Geribá). Todas praticamente lotadas de turistas nesse final de férias.

                                       (Forte São Mateus. Foto; soguimóveis.com.br) 

      Mas nem tudo é maravilhoso com areia branca e fina, ela tem seu lado predatório: por refletir o sol, queima mais intensamente no seu entorno, o calor excessivo chega a incomodar. Isto aliado ao clima úmido e quente da região é um tanto perigoso, acelera o bronzeamento, com os riscos inerentes. Todo o cuidado é necessário. No meu caso,voltei tão queimado que pareço egresso da Índia, toda manhã preciso me certificar de que eu sou eu mesmo. As praias de Arraial do Cabo têm água super gelada, parece que fomos levados para a Antártida. A praia do Peró, a preferida pelas famílias, depois da praia do Forte,  é retalhada por buracos na areia onde o mar bate. 
      Observar os vendedores ambulantes é um espetáculo à parte: homens, mulheres, garotos e idosos. Aliás, os idosos detêm melhor desempenho de marketing: aproximam-se das barracas, entabulam conversa, oferecem seu produto. Vendem quase tudo: sacolés, espetinhos, cocos, sucos, cerveja, salgados, queijo de coalho, bolinhos de aipim, quibes, empadas. No próximo ano tem mais, mas então vou evitar época de férias. Congestionamentos, filas para todo lado.
      

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Alceu Amoroso Lima

Livro do mês:    

       Atualizado e publicado em 1956, em primeira edição, por Alceu Amoroso Lima (1893-1983), há pouco mais de sessenta anos, Quadro sintético da Literatura Brasileira ocupa posto singular em nossa historiografia literária, tendo em vista a importância do autor no contexto cultural desde os anos de 1940. Corresponde a uma significativa reavaliação do legado modernista, além de seu estatuto de registro privilegiado, decorrente da participação de Alceu A. Lima, principal liderança católica entre os intelectuais, em inúmeros eventos dignos de relevo.

                                            (Foto: Núcleo de memória PUC-Rio)

            A busca de uma visão abrangente nem sempre logra resultados positivos; o recorte que se pretende abreviado mostra-se por vezes excessivamente resumido (no caso do Simbolismo). A esse aspecto, releve-se o reiterado cuidado do organizador em referir o caráter panorâmico, de voo de pássaro, adotado. No último parágrafo do capítulo dedicado ao Simbolismo, após referir Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães e Mário Pederneiras, afirma; “sem mencionar os poetas menores que esta curta memória não comporta” (LIMA, 1959, 60). A matéria apresenta-se sob um enfoque geral tripartido (Fase colonial, Fase imperial, Fase moderna), em que as duas primeiras vertentes parecem denotar inferências sociológicas ou políticas; as subdivisões acolhem critérios baseados nos estilos de época (a Fase imperial cobre dois momentos –“Romantismo (1830-1870)” e “Realismo e Naturalismo (1870-1890)”. A denominação da terceira fase aparentemente foge ao formato seguido nas duas primeiras: sua nitidez decorre do lastro de autonomia que subentende. Inventário cuidadoso de nomes e obras,  o livro alcançou largo prestígio ao longo dos anos de 1960 a 1970. A fundamentação filosófica que alicerça o esboço dos distintos contextos assenta-se em produtivo diálogo com o movimento das ideias instalado no solo europeu. No prefácio desta segunda edição, somos informados que algumas alterações teriam sido efetuadas levando em conta a “colaboração crítica de leitores”. Alguns comentários e posturas interpretativas revelam as esperadas idiossincrasias do autor: a destacada importância atribuída ao grupo de escritores católicos dos anos 1940 e 50 e a defesa da crítica impressionista, considerada como “uma forma indireta de humanismo”. No primeiro tópico, percebe-se a vigilância de alguém que viveu de perto aquela inquietação, como se acompanhasse o próprio percurso de convertido.
            Com a distância de mais de meio século, alguns temas desenvolvidos, hoje, se ressentem de uma postura um tanto apressada, em abordagem ziguezagueante, num movimento ondulatório, que avança um passo, atrasa dois. Josué Montello, romancista, tem uma referência rápida, sem referência a obras, embora receba destaque como ensaísta. O colaborador Eduardo Portela é assinalado de forma equivocada, Eduardo Fontela (p.82). A atuação de Oscar Mendes é reconhecida, sem alusão a títulos publicados. Alceu, como todo crítico, gosta de inventar tendências ou palavras, como “gramaticalidade metalógica”, de conceituação obscura. O gosto dos confrontos tem no autor um praticante entusiasta. A publicação modernista mineira, Revista, ocorreu em 1925, não em 1930, como se lê à página 81. A ausência de uma bibliografia geral e a de um índice onomástico alinham-se como falha capital. Os capítulos focados no Modernismo e Neomodernismo são o ponto alto, com avaliações ainda válidas e oportunas. “A beleza é essencialmente mutável e relativa. Não há modelos, nem fórmulas, nem formas válidas para sempre” (LIMA, 1959, 126).



LIMA, Alceu Amoroso. Quadro sintético da Literatura Brasileira. 2a. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1959

domingo, 1 de janeiro de 2017

Augusto Meyer


            Acredita-se que a poesia foi a primeira manifestação humana. Em muitos países, os poetas foram os pioneiros no uso estético das palavras, na elaboração de seus sentimentos e emoções.


O escritor gaúcho Augusto Meyer (1902-1970), hoje mais conhecido como ensaísta, um dos principais nomes brasileiros nesta área, iniciou, muito novo, publicando livros de poesia, A ilusão querida (1923), Coração verde (1926), Giraluz (1928), Poemas de Bilu (1929).

                                             (Augusto Meyer por C. Portinari)

 Dirigiu o Instituto Nacional do Livro, desde a sua criação (1938), no governo Vargas, ao longo de quase duas décadas (até 1956). Eleito em 1960 para a Academia Brasileira de Letras, tomou posse em 1961. No ensaio, destacam-se os títulos Machado de Assis (1935), À sombra da estante (1947), Preto e branco (1956), Camões, o bruxo, e outros estudos (1958), A forma secreta (1964). Em 2008, a editora José Olympio deu a lume Augusto MeyerEnsaios escolhidos, com seleção e prefácio de Alberto da Costa e Silva. Augusto Meyer foi também tradutor. Camões, Eça de Queirós, Garrett e Machado de Assis figuram entre os autores analisados.
      Sobre sua poesia, afirma Péricles Eugênio S.Ramos: "É a principal figura do modernismo gaúcho, (...) projeta-se a partir de Coração verde, livro no qual praticou uma poesia melancólica, embora otimista, cheia de presença da terra, bem como de doçura e humildade, e tocada eventualmente por uma ponta de ironia. A expressão é por vezes meiga e idílica" (RAMOS, P. E. S., 1969,159).Para saudar o Ano Novo, um poema de sua autoria.

GAITA

Eu não tinha mais palavras,
vida minha,
palavras de bem-querer;
eu tinha um campo de mágoas,
vida minha,
para colher.

Eu era uma sombra longa,
vida minha,
sem cantigas de embalar;
tu passavas, tu sorrias,
vida minha,
sem me olhar.

Vida minha, tem pena,
tem pena da minha vida!
Eu bem sei que vou passando
como a tua sombra longa;
eu bem sei que vou sonhar
sem colher a tua vida,
vida minha,
sem ter mãos para acenar,
eu bem sei que vais levando
toda, toda a minha vida,
vida minha, e o meu orgulho
não tem voz para chamar.

(Coração verde, 1926.)

RAMOS, Péricles E. S. Verbete Augusto Meyer. PAES, J. Paulo; MOISÉS, Massaud. Org. Pequeno dicionário de Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1969, 159.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O filho de Machado de Assis

      José Martiniano de Alencar (1829-1877). Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Mário Cóchrane de Alencar (1872-1925). Três nomes ilustres, tendo em comum aparentemente o fato de serem escritores. Até recentemente, a tradição aceitava que Mário de Alencar era filho de José de Alencar. A partir de uma crônica de Humberto de Campos, passou-se a suspeitar que o verdadeiro pai de Mário de Alencar teria sido Machado de Assis, que todos acreditavam não ter tido filho. Para tanto, eram aventadas as palavras finais do narrador de um de seus livros, Memórias Póstumas de Brás Cubas, : "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".
      Transcrevo, a seguir, passagem da crônica citada de Humberto de Campos (1886-1934), extraída de Diário secreto, obra póstuma publicada em 1954e trecho de crônica de Carlos Heitor Cony, ambas tratando do tema. A ser verdade, cai por terra todo um repertório crítico, desenvolvido em torno de um homem desencantado, cético, estéril.

                                   (Machado de Assis. Imagem: saocarlosemrede.com.br)

           "Havia, realmente, nos dois, traços fisionômicos que corriam paralelos. E aquela afeição paternal de Machado de Assis, tão desconfiado nas suas amizades e, no entanto, tão ligado a M. de A., cuja presença na velhice não dispensava um só dia?
Meses depois, em uma das minhas visitas ao consultório de Afonso Mac-Dowell, meu médico e amigo, este me recebe exclamando:
 Se você chega dois minutos antes, encontraria aqui um colega seu, da Academia.
 Qual deles?
 O M... M. de A.
Sem a menor lembrança, no momento, das palavras de Goulart de Azevedo, falei-lhe do nervoso do M., o qual não saía à rua sem companhia de um ou dois filhos.
 Nervoso, só, não  atalhou o médico.
E com ares misteriosos:
 Eu lhe digo aqui com a devida reserva: o M. é epilético.
Essa informação pôs um raio de luz em minha dúvida. J. de A. jamais sofreu de epilepsia. Machado de Assis morreu dessa moléstia. Como explicar, pois, a epilepsia de M. de A.?
Mergulhei no oceano desse mistério, tateantes as mãos do meu pensamento. Dom Casmurro não será uma história verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que fica de uns amores clandestinos, não seriam páginas de uma autobiografia?"
                                                                
(Trecho de crônica de Humberto de Campos, em que o autor insinua que Machado de Assis teve um caso com a mulher de José de Alencar.)

                                                           (Mário de Alencar. Imagem: geneall.net)

      "Todos sabiam da amizade final de Machado de Assis por M. de A. - simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo crespo, alguns tiques iguais. Indo a um médico, por causa desses tiques, teve diagnosticada a epilepsia - doença hereditária que tanto maltratara Machado. Tão discreto quando o autor de Helena, viveu na sombra, passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele".
                                        (CONY, Carlos Heitor. Folha de São Paulo. São Paulo, 04/08/1999)