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quinta-feira, 7 de março de 2019

Fernando Jorge


Livro do mês:
                                             
                                               
                                                       (Capa de Victor Burton)    

      A Academia do fardão e da confusão é um livro de agradável leitura, em que pese seu tom um tanto raivoso. Fernando Jorge mergulha na história da ABL, com nítida atenção aos detalhes, reverenciando os grandes nomes que lá passaram, pondo a nu as desavenças internas (Ledo Ivo/ Eduardo Portella), o ambiente de intrigas e de compadrio. Sem criticar  nomes consagrados pela qualidade da obra e das opções assumidas, (Machado de Assis, Olavo Bilac, Graça Aranha, Tristão de Athayde, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa), não deixa de fustigar a grande maioria dos imortais. O interesse explorado pelo autor reside justamente em divulgar a rotina de conchavos, os bastidores de algumas premiações, plágios constantes, a estreita proximidade entre as personalidades políticas e literárias, os ataques recíprocos entre os candidatos ao Sodalício, o baixo nível observado em inúmeras eleições, ao longo dos tempos. Em suma, com raríssimas exceções, na ótica de Fernando Jorge, os autoproclamados imortais não passam de autores medíocres, despreparados, fragorosas inutilidades, sem talento algum (Gustavo Barroso, Osvaldo Orico, J. Carlos Macedo Soares,Viriato Correia, João Luís Alves, Ataulfo de Paiva, Osório Duque Estrada, Cláudio de Sousa, Celso Furtado e mais de uma dezena de nomes). Nesse lugar em que o mútuo elogio se tornou norma ("entreposto de ambições". no dizer de Ledo Ivo), salvam-se raros escritores dignos de pertencer à emblemática casa de Machado de Assis. Alguns autores são maltratados com impiedade injustificável, tendo em vista o seu suposto descompromisso pela liberdade de expressão, na época da ditadura (Josué Montello, Austregésilo de Athayde), ou por conta de idiossincrasia pessoal em relação à autora de Fundador (Nélida Piñon, acusada de precário domínio estilístico e gramatical).
     Ao lado da crônica demolidora, a indignação do autor volta-se contra a ABL em duas vertentes principais: o emudecimento em face das prisões injustificáveis de Monteiro Lobato e Graciliano Ramos e diante dos atos de violência praticados nos anos 70 contra a imprensa e jornalistas pelo Governo militar. "As curvaturas da casa em frente dos militares, os seus salamaleques ao ver fardas, botas e rebenques, o seu silêncio nauseabundo perante as apreensões de livros, sempre me causaram nojo, engulhos, ânsias de vômito" (JORGE, 1999,338). Fernando Jorge corrige o português de alguns escritores, mas comete também seus erros, como na pág. 211: "Vá ter mal gosto assim lá na casa da mãe Joana!". O correto seria "mau gosto".


JORGE, Fernando. A Academia do fardão e da confusão. São Paulo: Geração Editorial, 1999.
     

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Jorge Fernando dos Santos

Livro do mês:  Sumidouro das Almas




      Formado na redação do Estado de Minas, como repórter, cronista e jornalista de cultura, Jorge Fernando dos Santos, antes de publicar este romance, conquistou o prêmio Guimarães Rosa, promovido pelo Governo de Minas Gerais, em 1989, com o romance Palmeira Seca, adaptado para minisssérie de TV. Publicou também romances policiais (Reportagem mortal, 2010)  e livros infantis, como O menino e a rolinha e O menino que perdeu a sombra (2011). O autor integra uma geração talentosa, surgida nos anos 80 em Minas, ao lado de Antenor Pimenta, Carlos Herculano Lopes, Jeter Neves e João Batista Melo. 
      Vazado numa linguagem fluente, direta e colorida, o romance  Sumidouro das Almas abriga-se numa corrente regional, na sequência da trilha aberta por Afonso Arinos, seguida depois por Guimarães Rosa, Autran Dourado e Benito Barreto, cada qual com seu enfoque e processo específico. A trama traz uma dimensão universal, de que se reveste a aventura do protagonista, Faustino de Assis. Recheada de episódios de faroeste, compõe um relato envolvente em torno de garimpo, traição, fidelidade, descoberta amorosa e bandidagem.
      A narrativa torna-se apreciada pela capacidade de reproduzir paisagens e costumes sertanejos, com sutis toques poéticos e a densa atmosfera dos pedregosos atalhos do sertão mineiro.


SANTOS, Jorge Fernando dos.Sumidouro das Almas. Rio de Janeiro: Ed. Ciência Moderna, 2003.

                                               (Foto: contaumahistoria.com.br)

domingo, 27 de janeiro de 2019

A tragédia de Brumadinho

      Uma barragem de minério, propriedade da Vale, ruiu no início da tarde no último dia 25 em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte. Horário de almoço, por volta das 13 hs, o restaurante da empresa, que foi totalmente destruído,  estaria repleto de funcionários. Os últimos dias tem sido marcados pelos trabalhos de resgate de sobreviventes e de mortos, envolvendo em torno de 14 helicópteros, dezenas de ambulâncias,  inúmeros bombeiros, policiais civis e militares, profissionais de saúde e de emergência. O último boletim divulgava os seguintes dados: 37 mortos, 23 hospitalizados, 256 desaparecidos, 192 resgatados. Os animais também tem merecido cuidados. O dia de hoje amanheceu com alarme de sirene, que não ocorreu dois dias atrás: havia risco de rompimento de outra barragem. Após três horas de paralisação, minimizado o risco, o trabalho de resgate recomeçou.

                                                                (Imagem: O Globo)

      Diante do ambiente de pânico e comoção, enquanto se procura entender o que seria uma tragédia, uma fatalidade ou um acidente, algumas considerações se fazem urgentes, tendo em vista a magnitude do evento.
      A tragédia é reincidente: em 2015, em Mariana, cidade a menos de cem quilômetros da capital, ocorreu o rompimento de uma barragem de rejeitos de minério, com o saldo de l9 mortos, danos ambientais de monta, que incidiram no curso dilatado do Rio Doce, atravessando todo o estado de Minas e Espírito Santo, desaguando no Atlântico, com reflexos terríveis na qualidade de vida e na economia da região. O recente rompimento da barragem em Brumadinho terá efeitos humanos mais devastadores, tendo em vista a densidade demográfica do entorno. O número de mortos infelizmente tende a aumentar. 
      É natural que, misturado à tristeza, o sentimento de indignação tome conta das pessoas. A direção da Vale assegura que a barragem era tida como segura, sob controle, sem risco. E o pior acontece. De um lado, faltam fiscais e verbas, que seriam da competência do Estado. Os olhos de todos voltam-se para a política de desenvolvimento mineral, com suas licenças, laudos de funcionamento, alvarás e garantias. Quem são os responsáveis por tais documentos? Como se processam essas licenças? Quais são os trâmites para todo o processo? Pelo que se sabe, tudo ocorre nas esferas do Estado e do País. Ao município, caberia quando muito a anuência, após todas as liberações. Ora, estamos falando de uma empresa conhecida internacionalmente, a Vale. Fala-se agora da revisão de muitas normas reguladoras. Sabe-se, também que nem sempre as relações entre empresas mineradoras e agentes públicos se deram de forma transparente e correta. Não seria a hora de investigar a fundo? O mais rápido possível. Como país rico em recursos naturais, o Brasil precisa rever a periodicidade dos laudos, os planos de segurança e emergência, de forma científica, competente e confiável, com a devida penalização de culpados, quando houver.  
      

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Márcio Almeida

      Livro do mês:

      Na trajetória literária de Márcio Almeida, o último livro, Vesânia (2019), ocupa um lugar de expressiva relevância e áspera resistência. Lançado recentemente, traz capa de William Júnio, conetada aos impulsos e parâmetros da linguagem eletrônica de bites e megabites. Já no título, fica implícita a fusão entre a realidade virtual e a vertigem, entre o real e a supra-realidade, entre a lucidez e a loucura. O verbete do Aurélio sobre o título (“denominação comum às várias espécies de alienação mental”) adiciona um breve relato do poeta luso José Gomes Ferreira, envolvendo uma reação vesânica (desesperada, demente) de Nietzsche a um cocheiro que agredia um cavalo – o filósofo, “em plena vesânia, se agarrou a chorar ao pescoço do animal, num protesto convulso”. Melhor companhia para um poeta que se nomeia visionário e neo-realista, impossível.

      No limiar de tudo, algo prenuncia um toque de radicalidade e delírio, de irreverência e contestação. Estamos diante de uma produção poética multifacetada, condizente com a experiência existencial crítica dos sobreviventes dos anos 70-80. Viver e escrever, desde então, consistem numa atitude, que se projeta como um compromisso histórico. A vertente inquieta da poética de Márcio Almeida, ancorada numa rica tradição, apresenta-se desprovida de certezas, mas interessada em propor questões, fazer perguntas sobre o espaço e a função da poesia na sociedade contemporânea, instaurar o desejo, dentre outros, de que a poesia se torne a expressão de um tempo forte, social e individual: “Como recuperar seu efeito mágico num tempo em que sobejam efeitos especiais? Resta à poesia tão somente ser a ‘humilhante impotência da subjetividade’ aludida por Georg Lukács? (…) O poeta envergonhou-se de ser simples, de ser inteligível, de promover recepção? (“Posfácio”).
      Nesta rota de incertezas e fugidias paragens, - engodo de luz no horizonte sempre seguinte - o primeiro bloco, o mais extenso por sinal, intitula-se precisamente “Ars poetica”, do qual extraímos as quadras seguintes do poema “Deserdados poéticos”:

E foi assim, então, que morreu a poesia:
mataram-na os ismos da evolução.
Quando o conteúdo virou só teoria
e o poeta ‘trágica resignação’.

Morreu de nada – por não fazer falta
ao consumo kitsch capitalista;
porque o poema não mata nem assalta,
não tem lugar na tela, jornal, revista.

Morreu sozinha, quando o sublime
tornou-se esgar, ruína, mercadoria;
ser poeta, função inútil, quase crime
por sobreviver do nada na aporia.

      Os destinatários a que se dirige, e entre os quais o poeta se inscreve, os deserdados poéticos, desconfiados, perdidos, num contexto de calaus, calabarbalhos e da camarilha de plantão no planalto, encontram-se hesitantes em cooptar com as instâncias dos entrelugares, do entre sem saber, dos entreolhares, fraturados. Tentam heroicamente reconquistar a nossa leveza e espontânea gaiatice, ou seja, nossa ciência com humor. Utópicos irrecuperáveis, convictos da disseminação dos bens da cultura, em plena vigência dos direitos igualitários, questionam “a produção cultural a partir da perspectiva de minorias destituídas, porque são elas que autenticam a exploração do controle, neutralizam as estratégias de resistência marginalizadas, impõem a autoridade autocrática” (“Carta aos scholars”). 
      O universo da rede de informações e contatos – a NET, com os desdobramentos de semicondutores de ligas de arseneto de gálio e alumínio,/ sodeto de chumbo e derivados de silício, – tem seu lugar ao longo dos enunciados discursivos, chegando a confundir-se com o universo linguístico crispado de conceitos, devaneios e protesto. A lamentar, o excesso desordenado de citações metalinguísticas, pretensamente eruditas.


ALMEIDA, Márcio. Vesânia. Oliveira (MG): Edição do autor, 2019.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Gustavo Corção

      Transcrevo um breve apontamento de Gustavo Corção (1896-1978), colhido em Josué Montello, que o descreve como o "pensador da palavra translúcida". Na cultura brasileira, Corção talvez seja um dos pontos altos do pensamento moralista, acrescido de uma veemente militância católica. Por influência da leitura dos pensadores Chesterton, Maritain,  e do amigo Alceu Amoroso Lima, Corção converteu-se ao catolicismo, tendo publicado artigos na revista A Ordem na década de 40. Em 1944, publicou A descoberta do outro, livro em que se afirma como escritor,  registrando o percurso de sua  busca espiritual. Vieram depois a coletânea de ensaios, Três alqueires e uma vaca (1946), Lições de abismo (1951), romance de forte mergulho existencial, em que se debatem conflitos que viriam se tornar marcantes nos anos seguintes, o sentido da vida, o amor, a morte, a privação de Deus concebida como um vazio insuportável. Segue a citação: "O desejo masculino é um querer ir; o feminino é um querer que venha". 
      Nos dias que correm, em que a ideologia de gênero vai se insinuando com tenacidade, falta esboçar a reflexão sobre o desejo dos gays. Seria a junção dos dois desejos? Ou um desejo outro, a ser formulado sempre que se revela?




MONTELLO, Josué. Diário da noite iluminada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994, 75.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Boas festas

      Saúde e paz a todos, que a espiritualidade natalina seja propícia, iluminando os caminhos do

próximo Ano. Boas festas!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A atual cena literária



       Há trabalhos e pesquisas que necessitam ser feitos, nem que, para tanto, se apresentem apenas operários de segunda ordem, mais para anspeçadas que para tenentes de fato. A crítica literária seria um deles. Exige conhecimento da área, reflexão, paciência, cultura geral dilatada, rudimentos de linguística, formação histórica, capacidade de extrapolação e comparações, atenção aos lançamentos, além de qualificação mínima: saber escrever. Sem esquecer a perseverança, ou melhor, a tenacidade.
       Todo contexto cultural emancipado necessita da presença de (pelo menos) um crítico literário polêmico, que produza intempestivas análises demolidoras na imprensa. Na verdade, pode-se medir a espessura cultural de uma época pelo número de críticos que apresenta. No passado, o Brasil produziu grandes nomes, e serão citados analistas renomados, independente de serem ou não polêmicos - como Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Oscar Mendes, Brito Broca, Augusto Meyer, Sérgio Milliet, Álvaro Lins, mais recentemente, Hélio Pólvora, Eduardo Portella, Léo Gilson Ribeiro, Nogueira Moutinho, José Guilherme Merquior, Antônio Cândido, Antônio Houaiss, Nelly Novaes Coelho, Massaud Moisés, Wilson Martins. No Brasil de hoje, esse profissional altamente qualificado inexiste. Por vezes, um ou outro pesquisador, geralmente oriundo da academia, rompe a barreira do olvido e expressa comentários consistentes na grande imprensa a respeito de literatura, entre outros, Alcir Pécora, Antônio Carlos Sechin, Silviano Santiago, Affonso Romano de Santana, Gilberto Mendonça Teles, Luís Costa Lima. No terreno da ficção, resulta desse vazio cultural o fato de muitos autores que se dizem jovens, embora já ultrapassem os cinquenta anos, se reivindicarem o direito de darem as cartas no contexto. Em literatura o antipoder importa mais que o poder presumido. No âmbito das letras, a idade não constitui um índice de acesso ao famigerado rol das obras canônicas. Rimbaud, antes dos vinte anos, já havia escrito os poemas que até hoje suscitam elogios e acurado estudo.
         (Retorno ao tema, duas semanas depois. Cabe referir a propósito o reparo que, no Diário da noite iluminada, escrevia Josué Montello, debatendo o desaparecimento de militantes da crítica literária:

          "Há aproximadamente trinta anos, numa conferência na Academia Mexicana de la Lengua, o crítico espanhol Guillermo Diaz-Plaza anunciava enfaticamente que a crítica literária, na Espanha, havia falecido.
         Dois fatos capitais, no dizer do mesmo mestre,  a teriam levado à sepultura: de um lado, o pouco espaço que, na imprensa corrente, se destinava ao exercício de suas funções intelectuais; de outro lado, o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos.
          Presentemente, se me permitem o acréscimo, teríamos uma razão a mais para as exéquias da crítica: algumas correntes da crítica universitária, que a transformaram num vocabulário de professores, para uso das salas de aula, e que daí transborda para o livro, a monografia e a colaboração episódica na grande imprensa.
         Não digo isto por preconceito ou menosprezo, visto que sou  também professor. Digo-o para evidenciar uma situação real, que já tem, pelo fluxo do tempo, e as transformações de postura e método, o seu dimensionamento de ordem histórica" (MONTELLO, 1994, 209-210).

           Alguma coisa do acima disse aproxima-se do que diz Montello, citando Guillermo Diaz-Plaza, especialmente quando este releva "o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos".)
           
        Depois da avalanche do conto mineiro dos anos 70/80, após a ficção urbana dos anos 90, do século passado, pouca coisa surgiu digna de nota. Na grande maioria, vemos hoje no país autores de obras medíocres, algumas com ramificações ideológicas inconsistentes, pretensiosas, autores que insistem em se considerarem eternas promessas literárias. O que avariou boa parte dos escritores recentes foi a imaturidade literária, o desconhecimento de valores tradicionais, a falta de qualidade do produto, além de um conhecimento artificial, pela rama, do que seriam os pressupostos da verdadeira obra literária. Numa época em que os tradicionais balanços literários, espera-se, costumam ser feitos, parece não haver muita coisa a comemorar.


MONTELLO, Josué. Diário da noite iluminada 1977- 1985. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Josué Montello

Livro do mês:



      Acabo de ler uma obra-prima da ficção brasileira, Os tambores de São Luís. Com mais de seiscentas páginas, o romance de Josué Montello flagra um contexto alargado, da segunda metade do século XIX, às primeiras décadas do século XX. Visto em perspectiva desdobrável, recobre um arco temporal mais distendido, procede de tempos mais retardados, dos anos sessenta do século XVII até os dias de hoje. Três séculos de escravidão no Brasil, revoltas, vicissitudes e tragédias, o sofrido processo de assimilação racial, em que o negro integra-se como indissociável componente da cultura brasileira, com sua indolente sensualidade. Em cuidadosa reconstituição da época, apresenta-nos a cidade de São Luís esplendente de vida colonial, sobrados azulejados e vibrantes paixões. Com artérias de nomes saborosos, Rua das Cajazeiras, Rua da Cotovia, Praia do Jenipapeiro, Rua do Horto, Largo do Quartel, Rua do Navio, Beco das Crioulas. A saga de Damião, um escravo que se torna, por conta do empenho individual, síntese de todo esse sofrido processo.
      Alguns méritos do romance de Montello: a linguagem polida, elegante, ajustada ao assunto, recuperando expressões pitorescas, antigas formas de linguagem. Algumas expressões, bastante reiteradas, tornam-se enfadonhas, como “as pálpebras apertadas” (p. 189), “sobrancelhas travadas”(p. 194, p. 287, p. 490), “sobrancelhas contraídas” (p.316, p. 323), “travou de pronto as sobrancelhas” (p.316)sobrancelhas crispadas” (p.323) “preto forte, espadaúdo” (p.181).
      A intriga evolui de forma lenta, assentada numa concepção um tanto folhetinesca de narrativa. Dentre as sentenças subsidiárias da moldura, delineia-se a nitidez da visualidade: os cenários recortam-se num enquadramento teatral. O suporte descritivo erige-se com desdobrado interesse pelos detalhes, em que os mínimos elementos e objetos se nomeiam, dando relevo a uma espessura tátil e plástica: “… se dispusesse melhor os bregueços e santos ali deixados, poderia abrir a janela, arejando o aposento, e ter espaço para armar sua rede” (MONTELLO, 1985, 160): “Na rua (…) via negros com máscaras de flandres, e se apiedava deles. Mais revoltado se sentia, quando dava com eles atados por uma corrente de ferro, a caminho da Praia Grande” (MONTELLO, 1985, 235).
      No final do relato, relata-se o encontro auspicioso de Damião, o líder dos negros, com a figura emblemática da poesia maranhense do contexto simbolista, o poeta Sousândrade: “Agora, ali estava, ainda intimidado pela figura aristocrática, de mãos finas, cabelos lisos já grisalhos, um lume de candura nas pupilas azuis” (MONTELLO,1985, 539). Recorta-se, então, uma outra São Luís, a dos poetas, do porte de Gonçalves Dias, Odorico Mendes, não mais o lugar do sofrimento dos negros, mas uma cidade altiva, espraiada diante do mar, orgulhosa de sua arquitetura, seus poetas e músicos.

MONTELLO, Josué. Os tambores de São Luís. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Osvaldo André de Mello


        Livro do mês: Imagens imorredouras

            O poeta Osvaldo André de Mello, que acaba de dar a lume este Imagens imorredouras (2018), difere do adolescente que estreou com A palavra inicial (1969), sem, no entanto, dele muito se afastar. Lá atrás, apresentava-se um jovem talentoso, como uma promessa. No contexto atual, defrontamo-nos com um poeta maduro, esbanjando maestria no domínio dos recursos do verso, com uma obra plenamente inserida no cânone da poesia brasileira contemporânea. Se no passado se registra o elogio de Carlos Drummond de Andrade, garantia de qualidade artesanal, ao lado de outros nomes consolidados, nos dias que correm sua produção vem acompanhada de considerável fortuna crítica.
            Dados como esse precisam ser trazidos à baila, para fundamentar uma paleta de juízos, avaliações e esboços complementares, numa perspectiva histórica quase sempre deixada em segundo plano. O que germinava como voz tosca e ousada hoje ombreia com um rol de poetas representativos, no alargado tecido da poesia produzida nos últimos cinquenta anos. Osvaldo André de Mello tem sido perfilado entre os autores que optaram por um percurso produtivo nas trilhas do verso discursivo, cujos pares sempre se mostraram recetivos à linhagem de uma dicção subjetiva, uma vigilante fatura melódica e uma densa espessura simbólica, que teve expoentes com Lúcio Cardoso, Vinícius de Morais, Henriqueta Lisboa, Walmir Ayala, Emílio Moura, Alphonsus de Guimarães Filho, Ledo Ivo, além dos mais próximos, Roberto Piva, Hilda Hilst, Armando Freitas Filho, Eustáquio Gorgone de Oliveira, Iacyr Anderson, Antônio Cícero, Geraldo Reis, Adélia Prado.
            O autor de Imagens imorredouras foi incorporando por vezes, ao longo dos anos, um vocabulário de tendência especiosa e romântica, traço que, se de um lado, releva a seriedade devotada ao ofício da escrita, espécie de escudo diante da banalidade circundante, penosa e abusiva, por outro o filia a uma linha de tradição com indisfarçável escala entre os autores instalados numa tradição de tonalidades neossimbolistas. Dessa forma, não será de surpreender a presença, em seus poemas, de “ideias ínsitas”, “músicas estrídulas”, “coxim”, “primevo”, “cômpares”, “evanescências”, “luminescências”, “orgone”, “arbúnculos”, trazendo um certo ar solene, passadiço. Tendo estreado no fim da década de sessenta, do século passado, Osvaldo André surge egresso de uma geração que, segundo Affonso Romano de Sant’Anna, cresceu “emparedada de um lado por Drummond e Cabral, e de outro pelos concretos” (1). Diante de uma produção diversificada, como é o seu caso, não se deve ignorar, também, a presença de uma temática fincada na história e tradição mineiras, a expansão do veio descritivo, a limpidez do discurso, além do cuidado em se distanciar de certas expressões de platitudes líricas, como seja o uso de símiles exclamativos.
             Imagens imorredouras, oitava coletânea poética do autor, provém de peça de igual título, desentranhada do livro Lua nova (2014). Esta recorrência é bastante significativa numa produção em que alguns motivos se delineiam, tais como a busca da beleza, o patrimônio artístico de Minas, o enlevo e os sobressaltos da experiência amorosa, o misterioso ofício de viver, a integração na natureza, a tentativa de compreensão do significado da arte. Um eu dilacerado, emoldurado por uma nesga de transcendência, instância declarativa que se espraia em desdobramentos mais ou menos fugidios, numa teia de imagens veladas e indiretas. Talvez fosse mais apropriado dizer: modos e enunciados que por vezes se interpenetram, entrecruzam-se. Dotados de sugestões luminosas, os poemas dialogam entre si, sobretudo aqueles que se debruçam sobre a natureza polivalente da linguagem, com o selo de uma coerência interna mantida acesa, de tal sorte que a dimensão telúrica aflora - “todos os objetos se dissolvem / e me descubro uma peça da natureza / como as plantas ou os pássaros” (“Alegria”).  (...)

1.     SANT’ANNA, Affonso Romano de. Apud MORICONI, Ítalo. Como e porque ler a poesia brasileira do séc. XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 125.

(Parte de prefácio ao livro referido.)

 MELLO, Osvaldo André de. Imagens imorredouras. Belo Horizonte: O Lutador, 2018.


                                                                                                                                                                           

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Brasil elege novo presidente, Jair Bolsonaro

      Após uma campanha eleitoral marcada por extremismos, o resultado das urnas favoreceu o deputado federal Jair Bolsonaro, eleito, ontem, em segundo turno, presidente do Brasil. O vencedor obteve 57, 7 milhões de votos, contra 47 milhões do adversário, o petista Fernando Haddad. Dentre os fatores decisivos para a esmagadora vitória, apesar de declarações pouco democráticas do finalmente eleito, destacam-se os compromissos assumidos em favor da segurança pública, as promessas desenvolvimentistas sem viés ideológico e o fervor antipetista da população. Vigora no país forte repulsa às propostas oriundas do Partido dos Trabalhadores, representadas pelos últimos governos (Lula e Dilma), marcados por altíssimos índices de corrupção e mau uso do dinheiro público. Tal percepção só a possui o povo brasileiro, em sua maioria decepcionado com resultados negativos no comando da economia e com o excessivo aparelhamento das estatais, usadas como fonte de abastecimento do partido dos Trabalhadores e enriquecimento ilícito de políticos, com a cúpula praticamente presa por corrupção (Lula, Palocci, José Dirceu, o secretário Vaccari Neto). O candidato eleito foi ferido durante a campanha com brutal facada no dia 6 de setembro, em ato público no interior do estado de Minas Gerais (Juiz de Fora), tendo sofrido hemorragia interna e se submetido a duas cirurgias do intestino. Em seu discurso oficial, ontem, após o encerramento da contagem dos votos, Bolsonaro afirmou: "Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, de andar nas ruas, liberdade de empreender, liberdades política e religiosa, de fazer escolhas e ser respeitados por elas".  O seu esforço deverá agora concentrar-se em pacificar o país e governar sob a égide dos princípios democráticos, expandindo para todos as oportunidades de prosperidade e trabalho. Não será fácil a tarefa, mas na certa contará com o apoio dos brasileiros honestos e bem intencionados.

                                              
                                                  (Foto: Marcos Arcoverde, Estadão)