Letras e Artes, o suplemento literário semanal de A Manhã, que circulou entre 1946 a 1954, publicava uma página, de conteúdo leve e pitoresco, "Panorama literário", em notas breves, envolvendo escritores. A seguir, transcrevo, com ligeiras alterações, alguns fragmentos, colhidos de duas edições de janeiro, do ano de 1951.
A IDADE DA DISPERSÃO
Todos os laureados do Prêmio Nobel nos anos anteriores foram convidados para assistir à entrega do prêmio de 1950. Dos sábios, vários compareceram, mas os escritores, quase todos muito velhos, escusaram-se na maioria. E André Gide ( Literatura 1947) declarou, a propósito:
- Na nossa idade a gente pensa mais em dispersar-se do que em reunir-se.
( Letras e Artes, 21/01/ 1951)
NÃO SE BRINCA COM A VERDADE
Santo Tomás não admitia que se brincasse com a verdade e não tolerava nem mesmo essas mentiras inofensivas que, a título de brincadeira, proferimos com frequência na vida cotidiana. Um dia, um jovem frade, querendo pregar-lhe uma peça, disse-lhe: - "Irmão Tomás, olhe um boi que está voando lá fora." O teólogo dirigiu-se tranquilamente à janela e, como o religioso se pusesse a rir, denunciando a brincadeira, exclamou:
-" Pois eu me espantaria menos de ver um boi voando do que de ver um frade mentir."
ONDE NASCEU RAIMUNDO CORREIA
Raimundo Correia (1859-1911), poeta parnasiano que escreveu belos sonetos, dentre os quais "Mal secreto", nasceu a bordo do navio nacional São Luís, que se achava ancorado na baía de Mongunça, na antiga província do Maranhão. Por esse motivo, durante muito tempo até os anos de colégio, assinou-se Raimundo São Luís Correia, em memória do navio que lhe serviu de berço. Referido-se a esta circunstância do seu nascimento, costumava dizer o poeta: "Sou um homem sem pátria. Nasci no Oceano."
A FRASE QUE MAIS IMPRESSIONOU
Genolino Amado (1902-1989), cronista e memorialista, leitor compulsivo de romance policial, abordado por um editor do suplemento e incitado a dizer a frase que mais o havia impressionado, ficou hesitante.
- De momento não me parece fácil lembrar...
Mas reparando no volume que acabara de retirar da estante, após uma pequena pausa, prosseguiu:
- Não me ocorre agora o nome do personagem e nem textualmente a frase por ele pronunciada no epílogo da peça de Shaw, Santa Joana. É mais ou menos isto: Quando aquele homem que tanto desejava a condenação de Joana D'Arc fala do horror que experimentou ao ver a heroína na fogueira, o comparsa lhe observa: "Será necessário vir de vez em quando um Cristo ao mundo para salvar os homens sem imaginação."
(Letras e Artes, 14/01/1951)
