“Cede sem mais demora
Ao conselho mais terno
E deixa o futuro
Docemente te invadir”.
Com fragmentos líricos, como este, que se alternam a breves relatos que focalizam lugares exóticos do norte da África, o emissor nos convida à aventura da descoberta da natureza e de sensações inusitadas. O autor é André Gide, vinte e oito anos. O livro é Os Frutos da terra (1897), breves relatos, repassados de inconformismo e de veementes exaltações celebrando a liberdade, o distanciamento das convenções, a celebração dos desejos. “Deserto de areia – exclusão da vida; resta apenas a palpitação do vento, do calor. A areia aveluda-se delicadamente à sombra, abrasa-se à tarde e parece de cinza pela manhã”. Alguém que retorna da primeira viagem ao ardente solo africano, deslumbrado pelas paisagens impregnadas de vitalidade e aspectos sensoriais. Sobretudo, o autor tenta afastar-se de uma imagem de poeta taciturno, depressivo: “Nossa literatura, e particularmente a romântica, louvou, cultivou, propagou a tristeza; e não essa tristeza ativa e resoluta que empurra o homem às ações mais gloriosas; mas uma espécie de estado frouxo da alma, a que chamavam melancolia, que empalidecia vantajosamente a fronte do poeta e lhe carregava o olhar de nostalgia. Havia nisso um tanto de moda e também de complacência” (fragmento II, Livro Terceiro). Seguem-se passagens de luminosas reflexões, extraídas de um sujeito contraditório, educado nos rigores do protestantismo, que mais tarde se converteria ao catolicismo. O que registra vem repassado pela hesitação entre o fervor epicurista e a moral burguesa. “Sei que ainda há, e talvez haje sempre, muitos dragões por vencer… Mas há na renúncia à alegria algo da falência, uma espécie de abdicação, de covardia”.
O católico que, posteriormente, viveria uma grande experiência socialista, não ignora que a trajetória para a serenidade implica a travessia do desespero. Atraído pelos prazeres, após a descoberta da alegria de viver, procura extrair da esplêndida árvore da vida formas de se libertar das pressões morais e religiosas, equilibrando-se arriscadamente entre a inquietude e a liberdade. Percebe que a literatura convencional distribui fórmulas mofadas, aprisionada por instituições ultrapassadas e mal cheirosas. Intelectual que não se aliena em obscuras torres de marfim, pressente que teria chegado o momento de divulgar uma nova ética, liberta de pressões, não totalmente isenta de dúvidas e sobressaltos. Apresenta-se como mediador de verdades incômodas, apto a desapegar-se de inflexíveis credos e condicionamentos ideológicos, surpreendendo os religiosos e os ateus: “Parece-me de há muito que a alegria é mais rara, mais difícil e mais bela do que a tristeza. (…) A primeira palavra de Cristo é para abraçar a própria tristeza na alegria. Felizes os que choram. E compreende muito mal esta palavra quem nela não vê senão um encorajamento ao choro!” (Último parágrafo de Os novos frutos).
“Tudo chega em seu tempo, Nathanael; cada coisa nasce de sua necessidade, e não passa por assim dizer de uma necessidade exteriorizada.
Eu precisava de um pulmão, disse-me a árvore; então minha seiva fez-se folha, a fim de que com ela eu respirasse. Depois que acabei de respirar, minha folha caiu e não morri por isso. Meu fruto contém todo o meu pensamento sobre a vida.
Nathanael, não temas que abuse desta forma de apólogo, não a aprovo demasiado. Não quero ensinar-te outra sabedoria que não a vida”. (Livro segundo)
O autor André Gide (1869-1951), cuja obra representa uma espécie de síntese do humanismo francês, tornou-se, após o prêmio Nobel em 1947, um escritor de renome universal. Sobreviveu a duas grandes guerras, abordou temas avançados, como relações homoeróticas, construiu o que se pode considerar uma obra histórica, em vários gêneros, mais de cinquenta títulos, incluindo a ficção, o ensaio, as memórias, a crítica literária e o drama. Além de Os frutos da terra (1982), Se o grão não morre (2004), notabilizou-se como autor dos romances Sinfonia pastoral (1985), O imoralista (1991), Os moedeiros falsos (1983), A porta estreita (1984). As datas citadas referem-se às publicações no Brasil.
GIDE, André. Os frutos da terra. Trad. de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
