Com uma pausa na matéria literária, trago uma nota, de perfil histórico, sobre uma bela mulher brasileira, que deslumbrou os salões da corte espanhola nas décadas de 1830 a 1850. Trata-se da lendária paulista Maria da Glória de Castro Delfim Pereira, esposa de um magnata, Joseph Buschenthal, empresário que manteve grandes negócios no Brasil e na Europa. Teria, na época do casamento (1830), treze anos: para alguns historiadores era irmã da Marquesa de Santos, uma das amantes de D. Pedro I; para outros (como Pedro Calmon), seria filha da Baronesa de Sorocaba, sobrinha de Domitila do Amaral. Nossos imperadores (D. Pedro I e o filho, D. Pedro II), como é sabido, foram ardorosos cultivadores de vários casos extra-conjugais. Nos salões de casa de Buschenthal, em Madri, reunia-se a nata da aristocracia e da nobreza espanhola, em saraus de natureza cultural, nos quais assuntos políticos misturavam-se a empreendimentos financeiros.
José Buschenthal, o marido, frequentou, nos quatro anos que viveu no Brasil, a corte do primeiro império. Como banqueiro, efetuava transações com o Tesouro, enriqueceu com o monopólio da venda do sal, tendo participado no fornecimento de armas e uniformes ao exército brasileiro. José Bonifácio não simpatizava com ele e teria, certa vez, desabafado com D. Pedro I: "Não vai entregar nas mãos de um traste (judeu) os meus interesses pecuniários". Na Espanha,como representante de banqueiros ingleses, trava conhecimento com o político e empresário José Salamanca, (Marquês de Salamanca), frequentador das reuniões em sua casa, com quem assina o financiamento de grandes obras.
Quem me despertou a atenção para esta sedutora personagem, considerada um elo do Brasil com a Espanha romântica de Isabel II, uma espécie de 'oculta imperatriz', foi Pedro Calmon, em artigo publicado no periódico Dom Casmurro (19 dez. 1942), resenhando o livro Em torno do casamento de D. Pedro II, de Argeu Guimarães. Com a palavra Pedro Calmon: "Maria Buschenthal foi essa princesa enfeitiçada. Aguardou no seu sono extenso, que viesse despertá-la a curiosidade sábia dos que amam os arquivos, faíscam nessas minas poeirentas as joias da verdade pura, e por vezes - como aconteceu agora - levantam com a ponta da pena a tumba de um sepulcro e descerram o véu de um painel, para revelar ao público um personagem histórico que não devera morrer - da contraditória e injusta morte dos esquecidos. Agora os seus traços têm nitidez, a sua fisionomia esplendor e realidade, o seu gesto sobranceria e majestade, a sua crônica - o relevo internacional das intrigas sedutoras, das fadas dos salões galantes, das rainhas da moda que se davam ao luxo de fazer política no seu camarote da Ópera e nos seus bailes célebres. Poucas mulheres nascidas no Brasil levaram tão longe e tão alto o talento natural, a ambição inocente, os sortilégios da formosura - que podemos admirar-lhe na tela clássica de Bernardo López, descoberta por Argeu Guimarães numa galeria nobre de Madri. Merecia, pois, um volume de prosa biográfica que lhe esmiuçasse a carreira feliz, do Rio Grande, onde nasceu, até a intimidade dos 'grandes de Espanha' - a modo de tantos outros retratos femininos que opulentam a literatura universal".
CALMON, Pedro. Maria Buschenthal. Dom Casmurro, ed. 281, Rio de Janeiro,19 dez. 1942, p. 6.
