O criado-mudo, romance de Edgard Telles Ribeiro, foi lançado em 1991, pela Brasiliense, no âmbito de um projeto editorial ousado. Hibernou, em minha estante, durante vinte anos, à espera da oportunidade de ser lido. O título banal, o inusitado papel aveludado e vermelho da capa (1a. ed.), algum lance estapafúrdio associado às raridades bibliográficas podem justificar o largo tempo de isolamento. Até que criei coragem e abri o exemplar, sendo de imediato seduzido pelas mesmas razões que o mantinham longe de meus olhos. Engolfado pelas urgências do dia-a-dia, não me dava conta do generoso rol de recursos de escrita, de que se utiliza o autor, cujos vértices estruturais e temáticos vão sendo registrados ao longo das mais de duzentas páginas: breves comentários, ajustados a um “tímido prelúdio de um eventual roteiro”. Sobretudo, causa estranheza ao leitor a serenidade com que fatos macabros são expressos sem mais aquela, o escrutínio impiedoso e abrangente de um crime doméstico - “sua provável cronologia e os silêncios que lhe davam ritmo e sentido” (Ribeiro, 1991, 76). A porosa lentidão do relato evolui incorporando aspectos secundários de uma história que se vai expandindo através de breves adendos e mínimas alterações de percurso.
O foco narrativo talvez seja o lance estrutural mais complexo, pelo seu aspecto polifônico, ao abrigar a possibilidade de outras vozes, motivadas por circunstâncias esporádicas, ao se distanciar da linearidade e oferecer prismas e visões diversificadas, aglutinadas a uma narrativa maior. Passagens calcadas em andamento cinematográfico coexistem com digressões literárias, contaminadas de acidez e ambiguidade. O passado emerge carregado de vestígios esponjosos e cobertos de lama, como se fosse um feixe de detritos e lodo arrancado do fundo do mar, pejados de raízes, anêmonas, musgos e areia. Decorridos mais de três décadas da morte da tia Guilhermina, a sobrinha Andrea mergulha no passado em busca da complexidade da herança que lhe cabe entender. Na medida em que se lembra do seu namoro, com quem divide o interesse de partilhar a reconstituição da vida da parenta, o narrador principal, cioso da amplitude de seu alargado acervo de lembranças, registra as diligências adotadas: “Eu próprio, sem dizer nada a ela, já começara a transferir algumas anotações para o papel, em um tímido prelúdio de um eventual roteiro, que provavelmente se uniria, um dia, a seus irmãos mais velhos e mais empoeirados, em meu sempre generoso fundo de gaveta” (Ribeiro, 1991, 78). O pretenso desenlace harmonioso entre Fernando, o narrador irônico e Andrea fracassa. O mesmo, em escala vertiginosa de desassossego e irreverência, ocorre entre Guilhermina e seus dois maridos.
A densidade dos fragmentos acumulados, a variedade de experiências da protagonista, inserida no mundo de eventuais celebridades nacionais e europeias, encaminham os narradores a constantes anotações relativas ao tempo e suas extenuadas e aflitivas circunstâncias. A vida turbulenta de uma mulher fogosa e enigmática, flagrada desde a infância, entregue à proximidade com bonecas, manequins, gatos e adultos inescrupulosos, cerceada por delitos e segredos, remete aos polêmicos e distendidos padrões morais do início do século XX na Europa. O resultado compreende a criação de um painel de fatos e ocorrências que extravasam o acanhado contexto doméstico, em que os estertores da burguesia se misturam a devastadoras tragédias individuais, num relato de esplêndidos esboços de análise e crítica social.
RIBEIRO, Edgard Telles. O criado-mudo. São Paulo: Brasiliense, 1991.
