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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Amadeu Lopes Sabino

 

       A Lua de Bruxelas, romance de Amadeu Lopes Sabino, tematiza um período histórico determinado, os anos de 1834 a 1836, quando o poeta Almeida Garrett serviu, na capital belga, como encarregado dos negócios de Portugal. Este, como é sabido, constitui o contexto subsequente à Revolução Liberal, desenrolada desde a década anterior, quando os exércitos de D. Pedro IV, composto por voluntários e intelectuais, confrontaram as forças absolutistas de D. Miguel. Almeida Garrett, após dois exílios na Inglaterra (1822 e 1828), e Alexandre Herculano, ao lado de outros intelectuais, participaram do famoso desembarque no Mindelo, em 1832. O romance enfoca a atuação de Garrett, um refinado poeta, misto de galanteador e diplomata, como titular da legação portuguesa, em Bruxelas, com destaque para as dificuldades financeiras que enfrenta, ao lado dos dissabores conjugais e de uma conturbada vida amorosa. Ao lado de Luísa Midosi, que esposara quando esta ainda era uma menina de quatorze anos, de imediato alçada a protagonista de uma legação diplomática galante, decadente e mal remunerada, Garrett equilibra-se como pode, na empreitada diplomática, de certa forma abandonado pela corte portuguesa, numa cidade iluminista, refúgio aristocrático de políticos, homens de letras e cientistas. O autor, ele próprio morador em Bruxelas, como funcionário internacional, consegue esboçar um retrato convicente da cidade de ricos monumentos, um misto de metrópole real (a corte de Leopoldo I) e aglomeração provinciana de mutilados de guerra e desocupados. O encarregado de negócios, improvisado como diplomata, não é um político de carreira, mas um intelectual erudito, já reconhecido como autor de peças teatrais de algum relevo (Afonso de Albuquerque, Catão, O Alfageme de Santarém) e poeta de títulos festejados (Retrato de Vênus, Camões e D. Branca, publicados na década de 1820). Mais tarde, viriam a lume obras de vulto, o drama O Alfageme de Santarém (1842), o romance Viagens na minha terra (1843), os poemas de Flores sem Frutos (1845), Folhas Caídas (1853), o drama Frei Luís de Sousa (1843).

        A índole romântica de Almeida Garrett, em que sobressaem os traços de elegância, aristocracia, sedução amorosa, militância combativa e erudição, constitui um rico substrato para o tratamento ficcional. Sua postura como representante de Portugal numa corte por onde passaram Napoleão, frontes coroadas das principais famílias europeias, a par de expoentes das artes (Victor Hugo, Byron, Baudelaire, Verlaine) alcança ecos imprevisíveis, ampliados pela fama de gastador e de deslumbrado galanteador, numa corte de excelências áulicas e inescrupulosas. Reflexos de poemas que viriam a público mais tarde, reverberando paixões pouco convencionais, (envolvendo a brasileira Júlia) prestam-se ao relato de amores impetuosos.

       “Em terra de bufarinheiros, o cosmopolitismo é uma garantia da segurança porque os espíritos das gentes se abrem à convivência tranquila que transforma qualquer disputa numa questão de trocos. Em Bruges, como em Veneza, em Amesterdão, em Florença, em Saint-Malo, em Valette, ou em Bremen, palpita a alma da Europa feita de gentes díspares que conhecem a sabedoria da transacção e a precaridade das intransigências” (SABINO, 2000, 102-103).

       O narrador não se distancia totalmente da matéria focada, gosta de aparecer e opinar, vangloriando-se de suas “despóticas prerrogativas de autor”, como enuncia ao fechar o último parágrafo. Mais tendente à moldura ficcional do que ao recorte histórico, sem, contudo, falsear a fidelidade aos fatos, Amadeu Lopes Sabino constrói um romance interessante, de efeitos surpreendentes e leitura prazerosa.


SABINO, Amadeu Lopes. A Lua de Bruxelas. Porto: Campo das Letras, 2000.