O retorno ao espiritual
Não são poucos os artigos de Jorge de Lima marcados por uma urgência de retorno à transcendência. Bate-se por uma espécie de recusa ao progresso técnico, material, alinha-se como crítico à sua implantação generalizada, como se fosse um desenvolvimento. Nos anos de 1950-1951, publicou uma coluna no suplemento literário de A Manhã, do Rio de Janeiro, o renomado Letras e Artes. Seu pensamento assenta-se em rígidos postulados cristãos, característicos da corrente espiritualista que vicejou no primeiro modernismo. Na mesma frente atuavam, com suas peculiaridades, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Cecília Meireles. Na edição de n. 207, escreve:
“A civilização tornou a ser um labirinto de fatos incoerentes. Foi a idade do Progresso: os homens assistiram, maravilhados, ao desenvolvimento súbito de todas as suas técnicas. Não percebiam que, enquanto as obras de suas mãos tomavam dia a dia proporções monstruosas, eles ficaram os mesmos homens, pobres seres fugazes tão cruelmente limitados no espaço e no tempo implacáveis. Consumiram o pouco que lhes restava de uma existência atribulada em mil coisas que lhes pareciam capitais: inventar a locomotiva, o motor de explosão, a metralhadora, a bomba atômica. Tudo isso dissimulava uma situação trágica: a civilização não está mais ao serviço do homem; é ele que lhe está sujeito. Em falta de uma metafísica que a domine, esta espécie de civilização mecânica cresce como um ervascal com uma fecundidade ilimitada esmagando os homens; a ele deve a criatura de Deus sacrificar sua vida sem compensações estupidamente. A vida não tem mais sentido. (…) Há quatro séculos que nossa civilização cessou de ser dirigida por uma verdadeira metafísica. Os últimos restos da cidade medieval acabam de desabar aos nossos olhos; resta-nos uma imensa ruína”.
Em seguida, Jorge de Lima, após se referir de forma negativa aos corifeus de Marx e Freud, busca compreender o lugar da arte no mundo materializado: “Aproximamo-nos, pois, do ponto crítico de um dilema terrível que marcará duas civilizações, e que atualmente se empenham na mais sangrenta das lutas: a civilização em que o homem tende a eliminar a arte e aquela em que a arte tende a excluir o homem”. A conclusão não poderia ser outra: o maior mal da atualidade (o ano é 1951) é a passagem do espiritual para o intelectual. “E a inteligência, quando não se enraíza no solo das profundas forças reais do espírito, reduz-se a simples pesquisadora sem conduta, a cujas constatações, obedecendo a uma espécie de maquinaria, se exaurem do sangue vivo da intuição e da sabedoria, sem inocência de coração e sem mistério. (…) A nossa civilização move-se manietada dentro dos planos urbanísticos traçados por Descartes, dentro destes planos mecânicos policiados pela técnica científica e pelos postulados conceituais que estabelecem primados zoológicos contra os verdadeiros primados do espírito”.
(LIMA, Jorge de. Letras e Artes, n. 206, 20/05/1951, p. 8)
Retrato de Jorge de Lima, por Cândido Portinari (1937)
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