"Os deuses não velam pelas cidades"
(Fragmento)
Maria Amélia Neto
Os deuses vivem longe e não velam pelas cidades.
O verão chegou ao fim e encheram-se os celeiros antes do fogo.
Os pássaros atormentados pelo frio e pela neve,
Os homens fogem em direção ao sul.
Não puderam evitar a vida, procuram evitar a morte.
Sabem alguns, porém, que exílio é palavra fluida e falseada,
Porque há muito o sentiram alastrar na alma,
Quando cortaram todas as amarras e o sal do vento lhes sulcou o rosto.
Esses não partem. São os filhos da neve e do fogo.
Os guerreiros somam as perdas da batalha, esquecidos do seu longo riso antigo,
Em cidades cobertas de cinza e de silêncio.
"São cidades dos bárbaros" - diziam, e os seus pés pisavam duramente o solo.
Terríveis são as trevas do ódio. Terrível, o riso dos guerreiros.
Dasapiedadas nuvens de poeira crescem ao longe, lentamente.
Dentro das muralhas da Grande Cidade,
O povo, emaciado, repete em voz baixa velhas profecias e olha sem amor
os seus antigos chefes.
O medo deixa sangue nos lábios. Em breve chegará o mensageiro.
Estão vazios os templos, e o frio queima-nos os olhos.
Pássaros sombrios esvoaçaram sobre s faias cor de mel e de sangue;
Lemos os augúrios, mas nenhum de nós o revelou.
Nunca foi tão negro o voo das aves,
Por isso os lábios se mantiveram mudos, como a boca gelada das
estátuas.
Tentamos encontrar no sono o esquecimento,
Mas o medo e a raiva crescem por detrás das pálpebras cerradas.
Estamos habitados por visões de Morte.
Como poderão as rosas abrir de novo um dia, neste solo, neste sangue?
(...)
LORETO 13, 5. LISBOA.
Imagem: o surto de covid-19 deixa as cidades desertas.
