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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Dantas Motta

        A publicação de A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota enseja a evidência de dois assinaláveis méritos: a ampliação da fortuna crítica do poeta mineiro e a consolidação da carreira de Caio Junqueira Maciel como crítico literário. Se alguém se julga no direito de questionar a relevância da segunda constatação, a ponto de colocar em risco.a generosidade de um juízo decorrente de uma única obra, ajunte-se a consistência de outro título, O sangue que rejuvenesce o conde Drácula, livro de ensaios, de 2021, no zênite de seu desempenho intelectual. Surpreende de imediato a vasta bagagem de leitura e pesquisa do autor, desde já credenciado como um dos mais abalizados críticos literários surgidos nas últimas décadas. No caso da hermenêutica da poesia de Dantas Mota, pois disto se trata, não nos são dados apenas comentários e interpretações acerca da produção poética do autor de Elegias do País das Gerais (1961): o signatário, também nascido nas montanhas sul mineiras, mergulha fundo no legado de seu quase conterrâneo, munido de sólido arcabouço teórico e de estreita afinidade à visão de mundo e tradições regionais. Resulta uma aguda e transfigurada análise, um modo de agregar a espessura histórica do poeta, despida de ornatos inúteis, repassada de fortes apelos telúricos e de robustas análises de consideráveis proporções semióticas, filosóficas e sociológicas. Como se em Caio J. Maciel o poeta tivesse encontrado um espelho. Aqui e ali uma nota resgata um perfil de rebeldia do vate isolado na bizarria provinciana, ainda que contrabalançada por espaçados contatos com os grandes centros.

    "País das Gerais, sou teu filho.

    Ninguém sabe quando sou boi.

    Ninguém sabe quando sou leão.

    Na planície me sinto triste,

    Na montanha me sinto alegre."

           A complexa poesia do vate de Aiuruoca, que se identifica com o rio São Francisco e a montanha, mereceu a atenção e elogios de autores do quilate de Mário de Andrade, Affonso Ávila, Eduardo Frieiro, Sérgio Milliet, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Cristiano Martins, Oscar Mendes. Em sua configuração discursiva, impregnada de severos acentos líricos, linguagem solene, sisuda, por vezes repassada de tom prosaico, com elementos arcaizantes, elabora um vasto painel do solo mineiro:

    "Porquanto a Serra da Canastra, de que provenho,

    sem infância e sem guloseimas,

    ou é a mediadora de um antigo testamento,

    ou se comporta, no Chapadão, como o Caixão do Mundo."

      Caio J. Maciel destaca a importância do tempo na poesia de Dantas Mota. "Nascido em março (22), Dantas sempre se considerou um poeta outonal, e sua poesia crepuscular corrobora a tese de que é ele um poeta do tempo final. O poeta não morreu em outubro, mas em fevereiro, sob o signo de Aquário" (MACIEL, 2020, 70): 

    "Certo ao nascimento um dia volverei, / Porque se em março nascido tenho,/ Em outubro, por certo morrerei. / Não já, quando em mim os cabelos brancos / São apenas bruscos e temporões. / Os meses do ano são dois, Maria, / Outubro e março, que o restante, / Além deles, é chuva, é chuva apenas."


MACIEL, Caio Junqueira Maciel. A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota. Curitiba: Appris, 2020.