Algumas figuras que muito se destacam no cenário cultural passam, no correr de décadas, a recolher, de forma inexorável, a espessura e os traços que a evolução dos comportamentos acarreta. Poucos críticos de literatura teriam arcabouço seguro para esmiuçar esgarçadas nuances que se foram revelando na vigência dos versos do ilustre pernambucano. Talvez algum pesquisador egresso das lides no campo da antropologia, versado no trato com a sua poética. Ocorrem nódoas inconscientes em toda produção poética. A poesia de Manuel Bandeira, complexa e diversificada, não ficaria imune às escoriações, pulsões e intempéries do tempo: não se restringe à ingenuidade e aparente simplicidade de “Irene no céu”, “Trem de ferro”, “Profundamente”, “Momento num café”. Não é segredo de ninguém, mas nos acostumamos a perceber nos poemas de Bandeira o traço elegante, o cariz de humildade, o rastro do cotidiano, a preocupação com a ética e a estética. Talvez a presente insinuação se mostre errônea ou sem fundamento, ou os elementos aqui insinuados se mostrem insuficientes para reivindicar uma outra voz, um outro tema, na produção do solteirão convicto. Sem ignorar os riscos de uma leitura reducionista ou mesmo iconoclasta, para muitos mesmo herética, interessada em desmistificar uma das raras unanimidades nacionais. Nem faltarão defensores incondicionais do poeta, alegando interpretação distorcida. Como se a temática desvelada desmerecesse um acervo tão rico e diversificado.
Sem mais delongas, cumpre progredir no viés a ser desenvolvido por especialistas mais gabaritados. Vamos, enfim, aos poemas. Desses que disseminam efeitos de raízes mais nobres mais fundas. Na verdade, são alguns poucos de uma produção extensa e variada, que transita por contextos díspares, entre o neossimbolismo e o modernismo, com as esgarçadas derivações impressionistas e ensaios concretistas. Talvez mesmo em decorrência da polivalência da linguagem poética, os poemas sugerem acordes inusitados, numa leitura transversal: “Marinheiro triste”, “Porquinho da Índia”, “Boca de forno”. A seguir, alguns versos iniciais do primeiro.
Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?
Amante de passagem
Que deixaste longe
Num porto de escala?
Ou tua amargura
Tem outras raízes
Largas fraternais
Mais nobres mais fundas?
Marinheiro triste
De um país distante
Passaste por mim
Tão alheio a tudo
Que nem pressentiste
Marinheiro triste
A onda viril
De fraterno afeto
Em que te envolvi.
BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da Manhã. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008. (Col. Folha Grandes Escritores Brasileiros).
(Imagem: Academia B.de Letras)
