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domingo, 21 de abril de 2024

Alguns versos de Manuel Bandeira


    Algumas figuras que muito se destacam no cenário cultural passam, no correr de décadas, a recolher, de forma inexorável, a espessura e os traços que a evolução dos comportamentos acarreta. Poucos críticos de literatura teriam arcabouço seguro para esmiuçar esgarçadas nuances que se foram revelando na vigência dos versos do ilustre pernambucano. Talvez algum pesquisador egresso das lides no campo da antropologia, versado no trato com a sua poética. Ocorrem nódoas inconscientes em toda produção poética. A poesia de Manuel Bandeira, complexa e diversificada, não ficaria imune às escoriações, pulsões e intempéries do tempo: não se restringe à ingenuidade e aparente simplicidade de “Irene no céu”, “Trem de ferro”, “Profundamente”, “Momento num café”. Não é segredo de ninguém, mas nos acostumamos a perceber nos poemas de Bandeira o traço elegante, o cariz de humildade, o rastro do cotidiano, a preocupação com a ética e a estética. Talvez a presente insinuação se mostre errônea ou sem fundamento, ou os elementos aqui insinuados se mostrem insuficientes para reivindicar uma outra voz, um outro tema, na produção do solteirão convicto. Sem ignorar os riscos de uma leitura reducionista ou mesmo iconoclasta, para muitos mesmo herética, interessada em desmistificar uma das raras unanimidades nacionais. Nem faltarão defensores incondicionais do poeta, alegando interpretação distorcida. Como se a temática desvelada desmerecesse um acervo tão rico e diversificado.

     Sem mais delongas, cumpre progredir no viés a ser desenvolvido por especialistas mais gabaritados. Vamos, enfim, aos poemas. Desses que disseminam efeitos de raízes mais nobres mais fundas. Na verdade, são alguns poucos de uma produção extensa e variada, que transita por contextos díspares, entre o neossimbolismo e o modernismo, com as esgarçadas derivações impressionistas e ensaios concretistas. Talvez mesmo em decorrência da polivalência da linguagem poética, os poemas sugerem acordes inusitados, numa leitura transversal: “Marinheiro triste”, “Porquinho da Índia”, “Boca de forno”. A seguir, alguns versos iniciais do primeiro.


Marinheiro triste

Que voltas para bordo

Que pensamentos são

Esses que te ocupam?

Amante de passagem

Que deixaste longe

Num porto de escala?

Ou tua amargura

Tem outras raízes

Largas fraternais

Mais nobres mais fundas?

Marinheiro triste

De um país distante

Passaste por mim

Tão alheio a tudo

Que nem pressentiste

Marinheiro triste

A onda viril

De fraterno afeto

Em que te envolvi.


BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da Manhã. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008. (Col. Folha Grandes Escritores Brasileiros).


                                                       (Imagem: Academia B.de Letras)






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