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quarta-feira, 3 de julho de 2024

Notas sobre Incidente em Antares

       Habituara-se, o amigo, a compensar a monotonia das horas com a leitura de romances. Nos últimos meses, optara pela leitura de um clássico de ficção nacional. Deliciava-se com o tijolão de Érico Veríssimo – Incidente em Antares.

       Ao descrever o operário Geminiano, Érico Veríssimo convoca alguns elementos idealizados, no melhor figurino do romance social. Os dotes físicos recobrem um homem “corpulento”, possui “abundantes cabelos castanhos e crespos”, “rosto carnudo e rubicundo”, “olhos empapuçados”, lábios vermelhos e polpudos, sugerindo sensualidade. O tom cômico de que se reveste o episódio expande-se nos detalhes de cena que são invocados, revelando aspectos denotadores de contradições e ambiguidades. O representante do operariado perde-se numa linguagem estereotipada de líderes sociais, pretensamente defensores do povo. Comete e corrige um erro gramatical: “A greve vai continuar até ao momento em que obtermos – corrigiu-se em seguida – obtivermos o aumento e as vantagens que pedimos em memorial”. O prefeito mostra-se dividido entre as atribulações do conflito social e suas lidas como colecionador de orquídeas. Apanhou o jornal, estirado na mesa de centro. Põe-se a ler a coluna de política nacional, o sobrecenho contraído, a cara amarrada, à espera de desvendar mais um detalhe relacionado a escândalo recente. O tio Saul costumava dizer, diante de jornais: Se torcermos, vai jorrar sangue. Referia-se à página policial, salpicada de chacinas e assassinatos à queima-roupa. Nos últimos anos crescem os assassinatos de mulheres executadas por maridos enfurecidos. Matou a mulher e o filho, depois suicidou. Matou a mulher diante dos filhos, matando-se em seguida. O outro que exterminou a mulher, a sogra e a cunhada. Reclamava das recentes relaxações no tocante às leis, vão facilitando as execuções. Ficou mais fácil comprar, portar armas de fogo.

    Um pensamento esvoaçou como uma borboleta na cabeça do prefeito. Na Sibéria existe uma espécie de orquídea chamada calypsobulboa”. Érico recolhe os lugares comuns usados em movimentos sindicais, “reivindicações salariais”, “inflação galopante”. O discurso de classe dos patrões aproxima três nações de investidores (americanos, franceses e chineses) sublinha a despreocupação dos dirigentes patronais em face da língua oficial do país, a mistura de expressões castelhanas a monossílabos obscuros “”Quando hemos recebido ….”, “personalmente”.

    Érico não abdica do compromisso ético da narrativa, nomeando um dos operários de Antares Geminiano Ramos, resgatando a assinatura de Graciliano Ramos, à altura em que irrompe a greve feral na fictícia urbe. O nome do prefeito acentua o clima de sátira política - Major Vivaldino Brazão, rodeado de expoentes da sociedade local - Mr. Jeferson Monroe “que fuma um L&M”, M. Jean-François Deplesis, “colarinho desabotoado, o nó da gravata frouxo, as meias esbeiçadas, dobradas sobre os sapatos empoeirados”. O americano exibe a “face rosada, juvenil, escoteira, cabelos em crem cut, os olhos duz azul limpo e vazio”. A face do francês- “sardenta e aborrecida”, a do chinês, “máscara asiática com um sorriso inefável”. O prefeito tem pruridos de oratória.





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