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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Eduardo Frieiro

 

Eduardo Frieiro: que fazer diante da guerra?


       Eduardo Frieiro (1889-1982), professor universitário de literatura espanhola, ensaísta notável e renomado romancista, notabilizou-se como homem de vasta erudição, de pena impiedosa e ferina em relação a colegas escritores. Seu extenso legado compõe-se de quatro romances: O Clube dos grafômanos (1927), O Mameluco Boaventura (1929), Inquietude melancolia (1930), depois designado Basileu, O Cabo das Tormentas (1936); livros de ensaios: A ilusão literária (1932), Os livros nossos amigos (1941), O diabo na livraria do cônego (1957), Feijão, angu e couve (1967), O elmo de Mambrino (1971); crítica literária, Letras mineiras (1937), Páginas de crítica e outros escritos (1956), O alegre arcipreste outros temas de literatura espanhola; memórias, em edição póstuma, Novo diário (1986). A maioria desses livros teve segunda edição, pela Itatiaia, de Belo Horizonte. Ficaram conhecidas algumas de suas intervenções, como a implacável nota depreciando os jovens autores mineiros, por ocasião da publicação modernista, A revista (1925). Pedro Rogério Couto Moreira, que o conheceu, salienta o aspecto carrancudo, de cara amarrada: “Ele era o homem de quem não se flagrava um sorriso, de quem não se via um gesto mais expansivo para com seus semelhantes” (MOREIRA,2022, 23). Gostava de rotular os autores que se dedicavam a uma múltipla atividade não como escritores, mas como polígrafos, conceito um tanto precioso que se ajusta à perfeição ao próprio caso, intelectual de muitas aptidões e habilidades, que se expressou com desenvoltura em vários instrumentos.

       Folheando a coletânea O elmo de Mambrino, detenho-me no artigo “Raça de Caim”, em que o autor debate a tendência dos povos à violência, ao domínio sobre os outros e à atividade bélica. A partir de considerações sobre Il libro nero, de Giovanni Papini, Eduardo Frieiro dispõe-se a opinar sobre o gosto do ser humano pela atividade guerreira. “Mas as guerras não se fazem sem armas, e as vitórias dos estados e as hegemonias sucessivas da civilização dependeram quase sempre da descoberta de armas mais aperfeiçoadas, isto é, mais modernas. A história, pois, reparte-se em tantas épocas quantas foram, vez a vez, as revoluções do armamento, isto é, dos meios mais adequados do extermínio dos vivos” (FRIEIRO,1971,90). Registra, melancolicamente, uma síntese da argumentação de Papini, elaborada como uma “história universal a voo de corvo”, uma visão pessimista de que o homem tem se mostrado o lobo para o homem, encarando a guerra como evento natural e permanente. “E comprova-o um simples relance estatístico. Já se calculou que nos 3.450 anos que transcorreram do ano de 1500 antes de Cristo até o ano de 1950 da era atual, os anos de paz completa em todo o mundo foram só 290. Durante um período de 3.160 anos, em um lugar ou em outro da terra, houve exércitos combatendo. Qual a razão fundamental de todos esses conflitos? A luta pelo poder, sempre. Em nenhuma parte houve jamais guerra sem que o desejo de poder entrasse nelas como fator preponderante. A Polemologia (ou sociologia da guerra) conduz diretamente à consideração da vontade de poder que existiu sempre na mente do homem. O desejo ou instinto de poder é um traço essencialmente humano: os animais não o possuem na mesma forma. Devemos orgulhar-nos por isso?” (FRIEIRO,1971,92). Operando argumentos de vários filósofos e escritores, Eduardo Frieiro acaba por chegar a uma cruel constatação: “Está provado: o homem é incapaz de dirigir a civilização para o caminho da paz. A consciência jurídica e ética, de que se orgulha, revela-se impotente para conter o ímpeto de afirmação viril que desde a infância desenvolve sentimentos agressivos no indivíduo. Há no homem, pensava Freud, como que una necessidade de ódio e destruição” (FRIEIRO,1971,95).


FRIEIRO, Eduardo. O elmo de Mambrino.Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971.

MOREIRA, Pedro Rogério Couto. Eduardo Frieiro pelo buraco da fechadura. Brasília, DF: Thesaurus, 2022.


                                                              Imagem: Senac Minas Gerais