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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Mílton Campos

 

Mílton Campos, na antessala do terror

 

                O que se encontra estabelecido como fonte de pesquisa sobre Mílton Campos (1900–1972) é muito pouco, restringe-se a precárias notas. Com base nesse material, pode-se afirmar tratar-se de um admirável jurista e orador inflamado, que também foi político, tendo-se notabilizado como incentivador das letras e da democracia. Publicou dois livros: Compromisso democrático e Testemunhos e ensinamentos (1972). Entre os amigos de juventude, estavam Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Emílio Moura, Martins de Almeida, Gregoriano Canedo, Mário Casassanta, Abgar Renault e Rodrigo de Melo Franco, o grupo modernista de Belo Horizonte que, em 1925, fundou A Revista. Os companheiros que se reuniam, no Café Estrela, na Belo Horizonte pacata e progressista dos anos da década de 20 a 30.

                O que os militares batizam de Revolução ficou conhecido na História como golpe militar de 1964, que se estende até 1985. São atribuídos a Mílton Campos os traços de modéstia, timidez e acessibilidade, habilidade e honestidade no trato da gestão pública. O retrato apresentado por Nava é definitivo. “O que impressionava em Mílton Campos não era só a vastidão de sua inteligência; mas sua qualidade e mais o conjunto de predicados com que ela se apresentava.” (...) Era bom, sensível, compassivo, tolerante, indulgente, generoso, amadurecido, lúcido, virtuoso” (...) Esse cético era na verdade homem bom, mas forte; tolerante, mas enérgico. Era indobrável nas suas convicções democráticas, como veio a mostrar durante a vida política” [i] . Recusou-se a referendar o ato de cassação do mandato do senador Juscelino. Publicou no periódico o artigo “Fundo de gaveta”.

                A publicação de A Revista teria sido decidida uma tarde no Café Estrela. “Discutia-se o título e entre vários sugeridos prevaleceu o dado pelo Carlos – assim o verdadeiro padrinho de batismo de publicação. Foi quando meti minha colher achando o nome muito seco. Vá por revista – dizia eu – mas acrescente-se alguma coisa. Exemplificava. Revista modernista, Revista de Arte Moderna, Revista disso, Revista daquilo. O Carlos foi inflexível. Tinha de ser Revista e só A Revista. E hoje vejo que ele tinha toda razão. Não havia motivos para dar um programa desde o título” [ii].       

                Outro aspecto em relação ao periódico foi tratado por Nava, no volume referido de suas memórias: “A Revista marcou adesões ao modernismo e fez questão de abrir suas colunas à colaboração conservadora de Magalhães Drummond, Alberto Deodato, Iago Pìmentel, Godofredo Rangel, Pereira da Silva, Wellington Brandão, Orozimbo Nonato, Carlos Góes. Seguíamos nisso nosso próprio espírito e o conselho dado por Mário de Andrade numa carta a Drummond escrita depois de ver o primeiro número: “Faça uma revista como A Revista, botem bem misturados o modernismo bonito de vocês com o passadismo dos outros. Misturem o mais possível” [iii] .   

                Personalidade contraditória, Mílton Campos foi governador de Minas Gerais (1947- 1951), senador da República e Ministro da Justiça do primeiro governo do período de exceção, do General Castelo Branco. Como é sabido, o regime referido, que se disse movido pelo “interesse da paz e da honra nacional”, atuou no sentido de “suspender os direitos políticos e cassar mandatos” de dezenas de professores, cientistas, jornalistas, intelectuais e homens públicos, além de perseguir inúmeros adversários políticos. Solicitou exoneração do cargo, assim que percebeu a tendência autoritária do governo. Convém assinalar o descalabro do governo de Jânio Quadros que o antecedeu e iniciou a perversa campanha de desmoralização de Juscelino Kubitschek.

 



[i]  Nava, 1985, 168-169

 

[ii]  Nava, 1985, 210. 

[iii]  Nava, 1985, 213. 

 

 NAVA, Pedro. Beira-Mar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

MONTELLO, Josué. Diário da Tarde. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.


                                                     Imagem: jornal Parnaíba