Mílton Campos, na antessala do terror
O
que se encontra estabelecido como fonte de pesquisa sobre Mílton Campos (1900–1972)
é muito pouco, restringe-se a precárias notas. Com base nesse material, pode-se
afirmar tratar-se de um admirável jurista e orador inflamado, que também foi político, tendo-se
notabilizado como incentivador das letras e da democracia. Publicou dois
livros: Compromisso democrático e Testemunhos e ensinamentos (1972).
Entre os amigos de juventude, estavam Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava,
Emílio Moura, Martins de Almeida, Gregoriano Canedo, Mário Casassanta, Abgar
Renault e Rodrigo de Melo Franco, o grupo modernista de Belo Horizonte que, em
1925, fundou A Revista. Os companheiros que se reuniam, no Café
Estrela, na Belo Horizonte pacata e progressista dos anos da década de 20 a
30.
O
que os militares batizam de Revolução ficou conhecido na História como golpe
militar de 1964, que se estende até 1985. São atribuídos a Mílton Campos os
traços de modéstia, timidez e acessibilidade, habilidade e honestidade no trato
da gestão pública. O retrato apresentado por Nava é definitivo. “O que
impressionava em Mílton Campos não era só a vastidão de sua inteligência; mas
sua qualidade e mais o conjunto de predicados com que ela se apresentava.”
(...) Era bom, sensível, compassivo, tolerante, indulgente, generoso,
amadurecido, lúcido, virtuoso” (...) Esse cético era na verdade homem bom, mas
forte; tolerante, mas enérgico. Era indobrável nas suas convicções
democráticas, como veio a mostrar durante a vida política” [i]
. Recusou-se a referendar o ato de cassação do mandato do senador Juscelino. Publicou
no periódico o artigo “Fundo de gaveta”.
A
publicação de A Revista teria sido decidida uma tarde no Café Estrela.
“Discutia-se o título e entre vários sugeridos prevaleceu o dado pelo Carlos –
assim o verdadeiro padrinho de batismo de publicação. Foi quando meti minha
colher achando o nome muito seco. Vá por revista – dizia eu – mas
acrescente-se alguma coisa. Exemplificava. Revista modernista, Revista de Arte
Moderna, Revista disso, Revista daquilo. O Carlos foi inflexível. Tinha de ser
Revista e só A Revista. E hoje vejo que ele tinha toda razão. Não havia
motivos para dar um programa desde o título” [ii].
Outro
aspecto em relação ao periódico foi tratado por Nava, no volume referido de
suas memórias: “A Revista marcou adesões ao modernismo e fez questão de
abrir suas colunas à colaboração conservadora de Magalhães Drummond, Alberto
Deodato, Iago Pìmentel, Godofredo Rangel, Pereira da Silva, Wellington Brandão,
Orozimbo Nonato, Carlos Góes. Seguíamos nisso nosso próprio espírito e o
conselho dado por Mário de Andrade numa carta a Drummond escrita depois de ver
o primeiro número: “Faça uma revista como A Revista, botem bem
misturados o modernismo bonito de vocês com o passadismo dos outros. Misturem o
mais possível” [iii]
.
Personalidade
contraditória, Mílton Campos foi governador de Minas Gerais (1947- 1951),
senador da República e Ministro da Justiça do primeiro governo do período de
exceção, do General Castelo Branco. Como é sabido, o regime referido, que se disse
movido pelo “interesse da paz e da honra nacional”, atuou no sentido de
“suspender os direitos políticos e cassar mandatos” de dezenas de professores,
cientistas, jornalistas, intelectuais e homens públicos, além de perseguir
inúmeros adversários políticos. Solicitou exoneração do cargo, assim que percebeu a tendência autoritária do governo. Convém assinalar o descalabro do governo de Jânio
Quadros que o antecedeu e iniciou a perversa campanha de desmoralização de
Juscelino Kubitschek.
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