O primeiro romance de Adonias Filho, Os Servos da Morte (1946), traz a público um novo autor, com um projeto de estrutura romanesca inovador e instigante. Tendo como moldura a região do sul da Bahia, conhecida pelo cultivo do cacau, distancia-se dos ingredientes do romance regionalista, em voga no contexto dos anos 40-50. Surpreende, de imediato, o domínio do discurso interior, adaptado ao contexto regional, o gosto em adensar a intimidade das personagens, flagrando emoções, sentimentos, reações gestuais e reflexões, diante de cada episódio. Os conflitos vividos por uma família sertaneja, o comportamento primitivo e desalinhado de seus membros diante da adversidade, o alcoolismo de Rodrigo, a loucura de Angelo, a brutalidade assassina de Paulino Duarte, a ignorância atávica de Quincas, a paixão de Elisa na encruzilhada do destino. A lentidão com que a narrativa se desenvolve decorre desse mergulho introspectivo. O enredo progride devagar, em câmera lenta, repisando cenas e diálogos, que por vezes retornam, sob ângulos diferentes, acrescentando intensidade aos embates internos e diante de outros núcleos familiares não menos vingativos e traiçoeiros. Alfredo Bosi assim reage, em avaliação à técnica do autor:
“Mais radical como sondagem interior e mais denso nos seus resultados formais é o romance de Adonias Filho, para quem a zona cacaueira tem servido de plataforma para uma incursão na alma primitiva que, para ele, se confunde com os próprios movimentos da terra. O telúrico, o bárbaro, o primordial como determinantes prévios do destino são os conteúdos que transpõe a prosa elíptica de Os Servos da Morte (1946), Memórias de Lázaro (1952), e Corpo Vivo (1963). Adonias Filho é o continuador de uma corrente ficcional que começou nos anos de 30 com escritores de formação religiosa inclinados ao romance de atmosfera: Lúcio Cardoso, Cornélio Pena, Jorge de Lima. A esse tipo de prosa ajustou-se bem o uso intensivo do monólogo à Faulkner, e a armação de uma trama em que as personagens ficam, por assim dizer, suspensas nas mãos de um poder supra-psicológico, a graça, o Destino” (BOSI, 1970, 48–481).
A exploração da violência, da brutalidade, de ações instintivas constitui um traço de seu romance, numa linguagem aliciante, propensa a longas e detalhadas digressões. À guisa de amostragem, adianta-se um recorte expressivo, uma passagem em que a relação tensa entre Cláudia, casada com Quincas, e o sogro Paulino Duarte se evidencia. “A mulher avançou, sempre guardando distância, convicta de poder extrair, no abismo daquele espírito, segredos que adivinhava terríveis e horrendos. Avançou cautelosamente, decidida, forçando um sorriso seco, de zombaria, que despertasse rancor. Ouvindo-o, Paulino Duarte pensou fugir” (ADONIAS F., 1965, 164). Ao tomar conhecimento de que o sogro intenta matar, a golpe de foice, Angelo, figura alienada, a sofrer isolado com sua doença num quarto, a postura indignada da mulher vem à tona: “No primeiro momento, petrificada, Cláudia esperou que o velho prosseguisse. Ele sentou-se, cruzou as pernas, e tossiu, um pigarro seco, arrastado” (ADONIAS f., 1965, 165). A narrativa segue, refém de um narrador minucioso, atento às menores reações, movido, no caso, pelo interesse em revelar a frieza do patriarca, fadado a se revelar portador de um temperamento brutal e inescrupuloso. O leitor vigilante, adestrado pela lentidão do relato a esmiuçar detalhes, retoma um outro momento, fixado no passado, bem anterior a esse, em que a fixação num vocábulo atende a uma intenção reiterada. Em meio à dinâmica de prospecção e retomadas do passado, por força dos ziguezagues e do flash-back, o adjetivo “seco” fora usado lá atrás, no afã de delinear uma atmosfera carregado de segundas intenções e de aspereza: “Paulino Duarte separou os lábios para falar, mas trancou-os com um pigarro seco” (ADONIAS F., 1965, 102).
O narrador dissemina no relato expressivas passagens, repletas de traços denotadores de um teor animalesco, brutal e violento. No caso de Paulino Duarte, as constantes aproximações aos cães, reforça o temperamento ríspido e rude: “Algumas vezes, deitava-se entre os cães, adormecia entre eles como um animal” (ADONIAS F., 1965, 72). A violência, a agressividade, o sentimento de ódio e vingança acompanham as ações retratadas. Angelo, o filho bastardo, talhado para vingar o assassinato da mãe, Elisa, a quem se sente atado, numa fixação que beira a morbidez, move-se entre o delírio febril e o desespero. Ao vagar, à noite, sozinho, na floresta, entre a ventania alucinada e a consciência de sua fatalidade, sente-se perseguido pelos vultos de mortos, integrado à natureza, na qual busca, a imagem da mãe: “Como fugir, como abandonar tudo aquilo se a morta vivia ali, se ela o espreitava confiante na sua ação? Não, ele devia ficar” (ADONIAS F., 1965, 101).
“No fundo de Os Servos da Morte, há uma projeção aparentemente realista de um problema ontológico, o do ser necessário como prova da existência de Deus. Em volta desse problema nuclear se ajuntariam outros de ordem metafísica, como o da predestinação, ou de ordem psicanalítica, como o do complexo de Édipo. A personalidade selvagem de Paulino Duarte, dominante do alto do seu patriarcado violento, a mulher e os filhos, duros e revoltados, a figura estranha de Angelo em sua luta decidida contra o pai e em sua perpétua adoração da Mãe, marcam os pontos mais antagônicos desse grupo familiar que, na sua hostilidade fatal, se despedaça de encontro a uma punição inexorável” (MAIA, 1966, 11-12) como se lê em comentário que parece sintetizar a avaliação crítica de Sérgio Milliet.
Talvez seja a loucura a condutora das sequências narrativas, focando personagens exiladas em suas obsessões e fixações. Esvaziadas de ânimo, desassociadas de mínimos lampejos de vontade de viver, jogadas em tramas por vezes extremas e abjetas, descobrem que todos as abandonaram, que tudo se juntou para destruí-las. Exauridas de sangue nas veias, debatendo-se contra os elementos, desperdiçam as exíguas forças que poderiam ter. “Abaixando a cabeça, compreendendo agora a submissão à loucura durante certos momentos, Rodrigo julgou salvar-se” (ADONIAS F., 1965, 229). Noutra instância, evidencia-se a hesitante suposição: “era a loucura, a estranha loucura que o subjugava durante horas, dias e semanas” (ADONIAS F., 1965, 229). Rodrigo sabe que a loucura é o quinhão de Angelo, que se derrama diante de todos: "Mas que fazer se a razão me falta, se uma loucura afoga a minha consciência ?" (ADONIAS F., 1965, 231). A atmosfera ao redor revela-se marcada pelos tons sombrios do pesadelo, paixões alucinadas, de véspera nublada de tempestade. “Os homens, como assustados pelo mistério daquela fuga, retiraram dos lábios a pronúncia do seu nome” (ADONIAS F., 1965, 214). O leitor descobre-se diante de um refinado criador de estilo, um grande ficcionista, para quem a linguagem se oferece como instância de imagens densas e sugestões inusitadas.
ADONIAS FILHO, Os Servos da Morte. Rio de Janeiro; Edições GDR, 1965.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
MAIA, Pedro Américo. Dicionário crítico do moderno romance brasileiro. Belo Horizonte: Grupo Gente Nova, 1970.
