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sábado, 27 de janeiro de 2024

Olegário Mariano

         O enterro da cigarra


        As formigas levavam-na...Chovia...

        Era o fim...Triste outono fumarento!

        Perto, uma fonte, em suave movimento,

        Cantigas de água trêmula carpia.


        Quando eu a conheci, ela trazia

        Na voz um triste e doloroso acento.

        Era a cigarra de maior talento,

        Mais cantadeira desta freguesia.


        Passa o cortejo entre árvores amigas...

        Que tristeza nas folhas... Que tristeza!

        Que alegria nos olhos das formigas!


        Pobre cigarra! Quando te levavam,

        Enquanto te chorava a natureza,

        Tuas irmãs e tua mãe cantavam...

                    (Poesias escolhidas)


    Nascido no Recife, PE, em 1889, o poeta cedo transferiu-se para o Rio de Janeiro, com a família. Nesta cidade, ainda jovem,  na Rua do Ouvidor, aproximou-se de homens de letras, Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Menezes, integrado aos moldes de um Simbolismo em declínio. Membro da ABL (1926); com a morte de Alberto de Oliveira, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, pela revista Fon Fon. Foi deputado federal e Embaixador do Brasil em Lisboa. Publicou, dentre outros livros, Ângelus (1911), Sonetos de Olegário Mariano (1912), Castelos de Areia (1923), Poesias Escolhidas (1932), O Enamorado da Vida (1937), Cantigas de encurtar caminho (1948).Faleceu em 1958 no Rio de Janeiro.

                                                (Foto: MBRTV, Museu Bras. de Rádio e TV)

     Ao longo dos últimos meses, tenho divulgado alguns sonetos que promoveram a nomeada de seus autores. Talvez, a esse respeito, se justifiquem três postulados:

      1. A importância da obra dos autores em questão não se restringe aos poemas selecionados.

    2. Esses poemas, peculiares por alguns motivos de natureza estética, não devem ser vistos como elogio incondicional às formas tradicionais da poesia. Em outras palavras, não pretendem sugerir que, em alguma instância, as mudanças não sejam inevitáveis. Grandes poetas modernos, como Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, também praticaram a forma soneto.

   3. A divulgação de tais sonetos não representa desinteresse pela produção poética contemporânea.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Olegário Mariano

       Belo Horizonte completa 123 anos. Parabéns! Nas suas efemérides, consta a visita de Olegário Mariano, conhecido como o poeta das cigarras, à cidade, por volta de 1949. À altura, escreveu o soneto "Belo Horizonte", que transcrevo a seguir:


               BELO HORIZONTE


Ergui ao céu as minhas mãos nervosas!

Sombra por entre numes tutelares,

Nos teus caminhos, tropeçando em rosas,

Curvei-me ante o esplendor dos teus altares.


À sombra das mangueiras silenciosas, 

Andei contigo em noites estelares,

Enchendo as mãos de estrelas luminosas,

E os cabelos prateando à luz dos luares...


Fui teu poeta, teu pajem, teu mendigo.

Deste-me tudo como a um velho amigo.

E eu, sem nada possuir, nada te dei.


Volto com a boca seca de beijar-te,

Com os braços fatigados de abraçar-te,

Ó terra boa do Curral del Rei!


(Rio de Janeiro, "Letras e Artes", A Manhã, 10/07/1949)



                                                  Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte.