Quando as condições favorecem, procuro refazer viagens, reencontrar paisagens curtidas no passado. Isto ocorre, nas temporadas de praia, tocado por reminiscências caras e o interesse de motorista, recrutado na família. Bora, Caraguá! Percorremos trechos de Fernão Dias, outros pela rodovia Governador Carvalho Pinto e D. Pedro. Nada a reclamar, as estradas são ótimas, quase vazias, com exceção do trecho da descida, marcada por aumento de trânsito. A paisagem é bonita, por vezes se vê uma nesga de mar. E tome mais declive com curvas arriscadas.Após mais de quinhentos quilômetros de estrada e uns trezentos pedágios, chegamos no destino.
Minha irmã, falecida há três décadas, costumava passar temporada em Caraguatatuba, com a família. Que me incluía, convidado como tio amoroso, então convictamente solteiro. O lugar escolhido, a praia Martim de Sá, assentava no entroncamento de duas ruas, a Nilo Garcez com a Desembargador Salustiano Mendes. Lembrar faz para embaçar os olhos.
Escolhera um lugar próximo de um quiosque, onde acampamos, debaixo de frondosa copa de uma castanheira, dois guarda-sóis, à guisa de proteção contra o os inclementes raios do sol de meados de fevereiro. Em momento em que os parentes quebravam ondas, encontrava-me sozinho, estirado: do nada, sem que vento forte soprasse, uma flor de castanheira caiu-me no peito nu, suave e lânguida.Poderia ter caído em outro lugar. Passado o susto, em face da inesperada ocorrência, pus-me a observar a flor, uma estranha mistura de branco, amarelo e rosa pálido, em que a fragilidade da pétala alia-se à transparência de cores esbatidas. Sem querer, uma arrefecida imagem antiga me visita, me subjuga, entre um inesperado calafrio a percorrer-me o dorso e o peso do passado. Nada de grandioso, não se trata de um grito de socorro, talvez uma intensa lembrança, misturada a saudade. Duas lágrimas insistiram em cair no meu ombro, enquanto ondas quebravam a cinco metros. A associação de planos temporais, o sentimento de leveza me abalaram. Na praia congestionada de turistas – era carnaval – as pessoas rebolavam e cantavam, ao som de antigas marchinhas, tocadas num celular. Se você fosse sincera, ô ô Aurora... eu bebo até... me afogar… Apanhei no peito a flor de castanheira, guardei-a dentro de um livro de poemas. Senti um arremedo de abraço lívido, rápidos segundos de enlevo e encantamento.
O crepúsculo não tardava, talvez antecipado por um céu de chumbo que esboçava provável aguaceiro de verão. Os ruídos de fim de tarde amainaram, dando passagem a uma nesga de aragem fria, originária de uma senda mágica, longínqua, envolta de penumbra, esgarçada em escurecida cadeia de nuvens soturnas, que pareciam tiras arredondadas de poente sanguíneo. Um pio agudo e distante de carcará pontuou no espaço, som túrgido, tristíssimo, retalhado pela distância.
