Registro o agrado que me fez o
livreiro Jair, da Fafich UFMG: doou-me uma rica edição que integra três
romances de Eça de Queiroz (1845 – 1900): A cidade e as serras, A ilustre
casa de Ramires, O Mandarim. Um feito editorial de relevo, sob a chancela
da Vila Rica. Motivo suficiente para justificar a releitura do grande
romance. E homenagear o autor, nos seus180 anos.
Folheando A ilustre casa de Ramires, me dou conta de
um motivo literário. O narrador Gonçalo Mendes Ramiro, fidalgo de
ínclita origem medieval, travestido de narrador, afirma: “labutava, empurrando
a pena como lento arado em chão pedregoso” (QUEIROZ,1991, ICR,25). Estabelece a
fusão do ofício de escrever ao do lavrador. Ao escrever, o escritor sulca as folhas
de papel com a caneta, como se arasse o solo pátrio. O protagonista não perde
oportunidade de pregar o “fortalecimento da autoridade da coroa e uma forte
expansão colonial” (QUEIROZ,199, ICR,17). O estilo de Eça – original, elegante,
sinuoso, rijo - resplandece. Para Vasco Graça Moura, este é o romance mais
elaborado de Eça.
Ao meio do capítulo V, após o episódio da visita da mulher
do Casco, implorando a soltura do marido, Gonçalo atiça seu lado misericordioso.
Na sequência, relaciona duas estampas visíveis no aposento: “à cabeceira,
pendiam dois painéis, retratos de antigos Ramires, um bispo obeso folheando um
fólio, um formoso cavaleiro de Malta, de barba ruiva apoiado à espada, com um
laçarote de rendas sobre a couraça polida” (QUEIROZ,1991, ICR,138). A
referência aos cavaleiros de Malta revela a importância da ilha italiana, palco
de encarniçadas batalhas medievais, onde se enfrentaram nobres europeus de variada
estirpe, incluindo portugueses.
Há um consenso entre os críticos no sentido de compreender
que A ilustre casa de Ramires, publicação póstuma (1900), recolhe, ficcionalmente recriadas, as reflexões e preocupações do autor a partir dos anos de 1890.
Para Beatriz Berrini, “A Ilustre Casa de Ramires é talvez a obra
ficcional eciana, posterior ao Ultimatum, em que mais se detectam,
filtradas, as experiências e observações do escritor, vividas em Portugal ou
fora dele, em 1890 e nos anos subsequentes” [1]. Na ficção, os eventos
relacionados ao Ultimatum inglês são silenciados. Mas o passado
histórico retorna, de forma crítica. E a África como objeto de exploração
agrícola e mineral está presente, especialmente Moçambique. Retorno a Beatriz
Berrini. “Para ser fiel à realidade portuguesa, a ser recriada pelo seu verbo,
deveria Eça calar aqueles acontecimentos, que não mais repercutiam na nação,
esquecidos e enterrados” [2]. O protagonista Gonçalo
reveste-se de uma dimensão simbólica, ao representar o português colonizador:
ele sonha com a África, vista como lugar exuberante, pródigo de mistérios,
aventuras e riquezas. Assim a vê num sonho: “e readormeceu logo, muito longe, sobre
as relvas profundas dum prado da África, debaixo de coqueiros sussurrantes,
entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos
de ouro” (QUEIROZ,1991, ICR, 48).
[1]
BERARDINELLI, Cleonice et alii. 1992, 352-357.
[2] BERARDINELLI,
Cleonice et alii. 1992, 352-357.
QUEIROZ, Eça de. A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, O Mandarim. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Vila Rica, 1991.
