Eugênio de Andrade: um dizer rente à turbulência
Se a sexualidade, como queria Foucault, constitui na modernidade a experiência fundamental da finitude, do limite e da transgressão, sua articulação com a linguagem poética, lugar em que o discurso se questiona e desmorona, assume um caráter decisivo, assinalando até onde a linguagem pode ir. Algo semelhante ocorre na experiência poética, quando a impossibilidade da escrita desaloja o sujeito de uma suposta potência, fraturando-o e dispersando-o. Se a sexualidade possibilita o contato com o limite e a transgressão, sua estreita relação com a poesia, linguagem complexa ancorada no simbólico e na subjetividade, tende a direcionar-se quase sempre numa vertente libertária. Pelo menos esta pode ser uma leitura, num horizonte de possibilidades mediatizadas pelo contexto social e pelas articulações semióticas operadas por um determinado sujeito. É com esta convicção que nos propomos a acompanhar a evolução da sensibilidade homoerótica na poesia de Eugênio de Andrade.
Embora tenha publicado dois títulos anteriormente, a consagração literária de Eugênio de Andrade se dá em 1948, com As mãos e os frutos, livro merecedor de recepção crítica positiva (para não dizer eufórica) em escala ascendente desde o seu lançamento até os dias atuais. O contexto acanhado e provinciano da sociedade portuguesa vê-se diante de uma sofisticada e perturbadora produção poética, elaborada em torno de ambígua e intensa relação amorosa que não se ousa dizer abertamente, apesar de explorar imagens reveladoras de uma forte sensibilidade homoerótica. O poema X, transcrito a seguir, além dos inegáveis méritos de ritmo e efeitos alcançados pelo inesperado encadeamento metafórico, esboça um retrato masculino marcado pela idealização:
Green God
Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.
Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.
A construção de um corpo masculino sedutor e atraente, movendo-se entre o dinamismo e a fluidez, o natural e o ideal, realidades aparentemente dispersas, articula-se a uma ideologia de valorização do masculino na sociedade ocidental desde o século XIX. A novidade para a cena portuguesa era, sem dúvida, falar do corpo masculino com uma desenvoltura erótica inusitada, realçando de forma agressiva uma certa fixação em elementos fálicos (no caso, a “flauta que tocava”; em outros poemas, os braços (do parceiro) “deslumbrados”, “nus e suados” ou a belíssima alusão, em Obscuro domínio, à “sombra de um lírio entre as pernas”.
(…)
O ensaio completo pode ser lido em:
Aletria: revista de estudos de literatura. 9, Belo Horizonte: POSLIT/CEL, Faculdade de Letras da UFMG, 2002, p.117-125.
PEREIRA, Edgard. Arquivo e rota das sombras. Lisboa: Aldeia Book, 2014.
