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segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Flávio Kothe

        Reli por esses dias algumas páginas de Flávio Kothe, no livro Literatura e sistemas intersemióticos (1981). Fui seu aluno, no Mestrado em Literatura Brasileira, na UFMG, em meados de 1990; habituei-me, desde então, a seu temperamento rebelde, polêmico. O ensaísta afirma que a literatura portuguesa é uma literatura mediana, de autores pouco representativos, se comparada às grandes literaturas do Ocidente. Mais do que a gravidade do juízo, surpreende a serenidade com que se expressa. Afirma: "ela (a literatura portuguesa) não é uma das melhores literaturas nacionais. Ela não tem o nível da literatura francesa, alemã, inglesa, russa ou espanhola" (Kothe, 1981, 65). Discordo do mestre, nesse aspecto. Nem necessito de argumentos plasmados em torcicolos, ou em altas esferas de metafísica  para tanto. O prêmio Nobel concedido a José Saramago, em 1998, rebate o ensaísta brasileiro, de forma robusta. Autores da estatura de Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Vitorino Nemésio, Mário Cláudio, Lobo Antunes e Agustina Bessa-Luís equiparam a literatura produzida em Portugal às demais produzidas na Europa. 

    Flávio Kothe tem suas idiossincrasias, discute temas importantes, mas padece de germanologia. Posiciona-se diante da cultura munido de argumentos excessivamente elitistas, eurocêntricos. Adota uma postura implacável diante de clássicos de nossa literatura, nomes que, na sua ótica, apenas reproduzem a ideologia da classe dominante. Mesmo reconhecendo talento em Machado de Assis, não o situa no mesmo plano de Dostoiévski, Flaubert, Tolstói e Goethe. Prefere situá-lo um degrau abaixo, ao lado de Eça de Queirós. Segundo o ensaísta, predomina no Brasil o hábito da leitura reverencial dos clássicos.  Reconheço que por vezes acerta, ao defender que os alunos do ensino médio sejam orientados a desenvolver uma leitura crítica das grandes obras. Concordo, também, quando reconhece que, no nosso ensino médio, como não se estudam obras estrangeiras que não sejam as portuguesas, o nosso aluno fica privado de grandes confrontos culturais. Professor de Estética na UnB, durante quase duas décadas, Flávio Kothe tem produzido obras importantes, no terreno da Teoria Literária e da Semiótica, obras de consulta recorrente para os estudantes de Letras, Literatura, Comunicação Social, Filosofia, e História.