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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Temístocles Linhares

 


    O quinto volume (a série engloba seis) do diário do crítico literário Temístocles Linhares (Curitiba, 1905 - Montevidéu, 1993)  mantém o registro da atividade intelectual, versado nos anteriores. O autor aborda amplo arco de interesses, alguns convencionais em livros desta natureza, os diários eruditos, resenhas de leituras, alternadas com um acervo de digressões, impressões e observações variadas. Estas, por sua vez, tanto elogiam a caipirinha de limão, exprimem o horror às chuvas intermitentes, como discutem e buscam compreender temas políticos, seja a democracia liberal, ou temas mais complexos, afeitos à pacificação universal, os direitos do homem, a necessidade de renovar o alcance de humanismo, o contexto político do país, governado por militares. “Folheio este diário e vejo como ele, aos poucos, vai se afastando da literatura e dos seus problemas. Mas literatura não quer dizer vida, fixação da realidade e do tempo que passa? Já se foi a época em que só se pensava em escrever para a eternidade, cogitando-se apenas de vazar o pensamento em formas e fórmulas, com o melhor uso da razão e dos princípios estéticos. Hoje, escrever é mais depor ou oferecer testemunhos dos acontecimentos que vão pelo mundo. Este diário vem, assim, cumprindo mais essa finalidade: sentir a vida em torno e comentá-la em seus diferentes aspectos” (Linhares, 2001, 304). O mergulho nos temas do tempo presente não admite filtros ou meias verdades: “O espírito militarista é a nossa grande desventura atual. Todos os países estão agindo em função dele. Governos militares civis são pura balela. Não existem. E assim o mal está bem visível. Só não o veem os que não querem ver. As próprias democracias que querem subsistir só pensam em militarizar-se cada vez mais” (Linhares, 2001, 303). A militância política não se intimida diante da tirania e da opressão, patentes de sobra nos últimos meses do regime autoritário: “Bem se diz não haver regime mais propício à corrupção do que a ditadura: tudo para os amigos e sátrapas do governo e para os outros nada, nem a lei, mas antes a cassação dos mandatos, o exílio, a a prisão…” (Linhares, 2001, 290).

    Em meio às referências aos lugares da escrita (Montevidéu, Santos, Caiobá, Bahia, Curitiba), surgem notas citando os livros que vão sendo escritos, em especial o monumental História crítica do romance brasileiro, em três volumes, o último publicado em 1987. Pelos registros de cidades que antecedem as anotações sobre os anos focalizados (1976 a 1979), evidencia-se que grande parte do livro foi escrito em Montevidéu, assunto de páginas interessantes e ricas de informações a respeito de costumes e traços culturais do país vizinho, onde o autor possuía um apartamento e costumava passar longas temporadas. Na página 178, troca o nome de Antonio José Saraiva por José Antonio Saraiva, distração que não compromete a importância da empreitada, nem o amor que revela pela literatura. A crítica literária deixa de ser o interesse maior, o diarista distancia-se da rotina: quando ocorre, é de forma transversal, em formato de ricochete, para complementar algum raciocínio. Reserva o autor o aparato crítico para outros livros, especialmente o referido História crítica do romance brasileiro.


LINHARES, Temístocles. Diário de um crítico: de 1976 a 1979. Curitiba: Imprensa Oficial, 2001. Vol. V.