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quarta-feira, 16 de agosto de 2023

O HERÓI ROMÂNTICO UCRANIANO


    Não é novidade para ninguém a importância outorgada pelo Romantismo aos grandes heróis. Os poetas românticos reverberam, em meio às lânguidas confidências amorosas e a lamúrias sentimentais, os eventos e as personalidades históricas. Vemos, assim, Castro Alves (1847-1871) dirigir-se, bradando em face de vultos renomados: ”À tumba do Sobieski,/ Inda em sonhos busca a espada.../ Os reis passam sem ver nada.../ E o Czar olha e sorri… // A Grécia espera chorando/ Canaris… Byron talvez!/ Napoleão amordaça/ A boca da populaça”, (“O Século”). Dentre os nomes gloriosos, cultuados em vários quadrantes, destaca-se o de Napoleão Bonaparte. A figura do general vitorioso, a desbravar e conquistar países, a que depois se acrescenta a imagem sombria do exilado na ilha de Santa Helena, preenche as páginas de muitos escritores ocidentais.

    Também Fagundes Varela (1841-1875) curvou-se na exaltação da enigmática personalidade do Corso, dando-lhe voz: “Nos vastos marnéis do Egito, / Sobre folhas de granito, / Deixei meu poema escrito, /Grande como a criação!” O autor de Suspiros poéticos e saudades, Domingos Gonçalves de Magalhães, no entanto, os antecedeu: para ele, Napoleão, tratado como gigante, “Águia sublime”, “meteoro fatal”, aquele “que o destino dos reis na mão continha”, chega a ser proclamado como super herói, “Jamais, jamais mortal subiu tão alto”. Gonçalves Dias (1823-1864), nascido em Caxias, Maranhão, filho de português com uma índia, tematiza a coragem e a tenacidade dos indígenas, em Os Timbiras.

      Álvares de Azevedo (1831-1852), autor de versos perpassados de tristeza, saudade e sombrias sugestões de morte, não fechou os olhos à realidade que o cercava, celebrando Pedro Ivo, expoente da rebelião Praieira que também mereceu versos de Castro Alves. Esta é a avaliação de Hélio Lopes, no que tange às homenagens a Napoleão: O entusiasmo pelo imperador dos franceses justifica-se não apenas pela retumbância das continuadas e grandiosas vitórias, que assombraram o mundo, mas sobretudo pelos novos caminhos abertos para a História. Aos nossos poetas, (…) o que mais impressionou foi o homem caído. É o desterro de Santa Helena e a morte no exílio o pretexto para os poetas recordarem as glórias passadas e a grandeza do homem, derrubador e construtor de nações à ponta de espada. A desgraça de Napoleão fez esquecer suas arbitrariedades e crimes.”

    Não são apenas os heróis nacionais o alvo dos versos românticos. Enquanto na Ucrânia, a guerra com a Rússia prossegue, sangrenta, em pleno século XXI, um herói guerreiro renasce das inscrições históricas. Há um famoso rebelde ucraniano, que se bateu pela independência do país, Ivã Stepanovich (1632-1709), mais conhecido como Mazeppa, que inspirou versos de ninguém menos que Victor Hugo, celebrado também na pintura (Delacroix) e na música (Liszt). Mazeppa sonhava com a liberdade da Ucrânia. Como se comportaria o herói, caso vivesse nos dias de hoje, diante da invasão de seu país pelos russos? Da Rússia, eu quero vodka, mulheres, Tchaikovisky, Dostoiévski,  danças. O poeta francês dedica-lhe um poema de vinte e três sextilhas. A homenagem feita por Castro Alves alarga-se a outra lembrança, inscrita em “A Maciel Pinheiro”, um poema datado, em torno de um soldado que parte para a Guerra do Paraguai: “No chão da História o passo teu verás.../ Deus, que o Mazeppa nas estepes guia.../ Deus, acompanhe o peregrino audaz”. Helio Lopes amarra as pontas do caso: “Confundem os poetas o castigo imposto a Mazeppa com as suas ideias libertárias. O castigo consistiu em ser amarrado, nu, a um cavalo bravio que, espantado, se pôs em fuga pelas estepes. Morre o cavalo e Mazeppa é acudido e salvo. Deveu a pena às relações amorosas com a esposa de um nobre. Depois, aliou-se a Carlos XII, rei da Suécia, contra Pedro II, o Grande. Mazeppa sonhava com a liberdade da Ucrânia. A batalha de Pultava deu a vitória ao imperador da Rússia e apagou as ambições de Mazeppa. Foge e acaba morrendo ignorado”.


LOPES, Hélio. Letras de Minas e outros ensaios. Sel. e apresentação de Alfredo Bosi. São Paulo: Ed. da USP, 1997.


                                                       

                                 (Imagem: Mazeppa e os lobos. De Jean Horace Vernet (1826)