Poetas modernos brasileiros, dos anos 20 aos anos 50
A literatura brasileira, representada por autores de manuais, pesquisadores e historiadores, tem-se mostrado indiferente, desdenhosa em relação a alguns poetas. Nas décadas de 40 e 50, surgiram no país dezenas de poetas, muitos dos quais nem sequer foram catalogados nas histórias literárias aparecidas desde então. Talvez tenha sido a época mais produtiva em produção poética no país. O cânone limita-se a registar umas três dezenas de nomes, entre consagrados e merecedores de atenção, ainda que de circulação mais restrita. Dentre os modernos, talvez pudéssemos, para efeito ordenador, considerar três grandes grupos, entre os anos 1920 e 1950. No primeiro são geralmente enquadrados os nomes históricos de 22: Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida, Luís Aranha, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Menotti del Pichia, Raul Boop, Ribeiro Couto, Ronald de Carvalho, Sérgio Milliet. Tais autores granjearam, em parte por conta da relevância do evento de que participaram, ou de que se aproximaram, notável e extensa fortuna crítica.
Num segundo grupo, comparecem os nomes consensuais, em torno de duas dezenas, notadamente os autores surgidos no segundo período do Modernismo (1930/1945), sendo os mais representativos - Abgar Renault, Adalgisa Nery, Augusto Frederico Schmidt, Augusto Meyer, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Edgard Braga, Emílio Moura, Henriqueta Lisboa, Jorge de Lima, Lúcio Cardoso, Mário Quintana, Murilo Mendes, Vinícius de Morais e Tasso da Silveira. Com raras exceções, quase todos têm recebido o merecido interesse de pesquisadores.
O terceiro grupo, bastante numeroso, recolhe a chamada geração de 45, verdadeiro balaio em que cabem os nomes mais variados, em torno de sessenta e um (cf. A Literatura no Brasil), dentre os quais – Affonso Félix de Sousa, Afonso Ávila, Alberto da Costa e Silva, Alphonsus de Guimarães Filho, Antônio Rangel Bandeira, Augusto de Campos, Bandeira Tribuzi, Bueno de Rivera, Dantas Mota, Darcy Damasceno, Décio Pignatari, Domingos Carvalho da Silva, Geir Campos, Geraldo Vidigal, Haroldo de Campos, Hilda Hilst, Jamil Almansur Haddad, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardoso, José Paulo Moreira da Fonseca, José Paulo Paes, José Santiago Naud, Laís Correia de Araújo, Ledo Ivo, Mauro Mota, Milton de Lima Sousa, Paulo Mendes Campos, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Renata Pallotini, Stela Leonardo, Tiago de Melo. Em 1947, começam a circular duas revistas de poesia: em São Paulo, a Revista Brasileira de Poesia, editada pelo Clube de Poesia, sob a direção de Domingos Carvalho da Silva e Péricles Eugênio da S. Ramos; no Rio de Janeiro, a Orfeu, sob a supervisão de Ledo Ivo. Da geração de 1950, sobressaem Élcio Xavier, Gilberto Mendonça Teles, Lélia Coelho Frota, Mario Chamie, Mário Faustino, Marly de Oliveira, Walmir Ayala. Dos autores elencados, raros têm merecido a atenção de pesquisadores. Com o surgimento da Poesia Concreta, em 1956, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Edgard Braga e Décio Pignatari passam a receber flashes da imprensa cultural.
Folheando exemplares de Letras e Artes, suplemento literário do jornal carioca A Manhã, vamos nos deparar com notícias e resenhas de livros de poemas de autores dos quais nunca ouvimos falar. Alguns títulos recebem mais de três resenhas, ao longo de dois anos, motivo razoável para que sejam considerados relevantes. Compor soneto não constitui desdouro, pelo contrário, era considerado um ritual de passagem, uma forma de aprendizagem. Se nos damos ao trabalho de acompanhar esses artigos, percebemos tratar-se de autores com lastro de leitura, dotados de senso crítico e densa originalidade, alguns acima da média do que se considera bom nível de fatura. Recorto, dentre outros, Milton de Lima Sousa (1925-1999), arrolado atrás no terceiro grupo, sobre o qual os manuais de literatura em geral silenciam. Pulicou quatro livros: Abecedário interior (1947), Caos intacto (1952), Ermo de pupila (1955), Ditado no escuro (1967). Encontrei, em páginas de poesia em espanhol, comentários elogiosos ao “poeta desconocido”. Os três primeiros livros, à época do lançamento, mereceram resenhas altamente positivas. Frisos helênicos, versos largos, ecos narcísicos, incursões errantes na esfera dos mitos, formas escavadas no fosso da memória, metáforas radicadas no código bíblico, expressões magoadas do incontornável cotidiano.
"Volto cravejado de olhos exilados,
com o corpo bambo numa tipoia de luas.
(…)
Volto com a pilhérica mansidão do Dilúvio,
E sou destinado aos seios da polpa da Maçã,
E encontro o que sempre encontro -
O crivado sistema de ruídos cotidianos.”
Do livro Ermo de pupila, transcrevo "Variações em torno de um sorriso":
Um sorriso dentro de mim aflora
Como pólen que deseja emigrar,
Mas o pensamento não o deixa
Ser voo e o silêncio o esmaga
Num céu jejuado no escuro.
Um sorriso, deus ocluso,
Num espreguiçar de sentimento
Tece o desnudo oráculo do amor.
Um frêmito de carícia torna-o estátua.
Na brisa decrescente do tédio
O estrangulado recôncavo do olhar
É solidão de paisagens vistas
Em tombadilhos de vigílias.
Um sorriso, transcrição equívoca
De ânsia, desiste de ser,
No invisível compondo
Janela de lembrança, garatuja
De céu, espiral vazia, memória
Do que fui sem ter sonhado.
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. São Paulo: Global, 2004.
Letras e artes. http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=114774&pagfis=2998
SOUSA, Milton de Lima. Caos intacto. São Paulo: Ed. de Autor, 1952.
