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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Múcio Leão

 

Os escafandristas


Os escafandristas violaram o corpo gelado e oscilante das ondas.

E viram o cortejo das maravilhas

que vivem no fundo do mar.


Viram os polvos ágeis e as gulosas rosas submersas,

e os lentos ouriços,

e as algas de muitas cores,

e os peixes de formas exóticas e de escamas resplandescentes.


Os escafandristas penetraram nos velhos navios,

que dormem no fundo do mar,

nos navios que naufragaram, pejados de vida e de tesouros.


E nos salões deslumbrantes dos velhos navios,

onde outrora floresceram ambições e amores,

só moravam agora as gorgônias e as estrelas do mar.


Os escafandristas puderam compreender

esses segredos profundos do fundo do mar.


Mas o clamor, o clamor ardente das vidas humanas,

das vidas que o mar tragou,

quando arrebatou para o seu seio esses tesouros,

quem o poderia ouvir de novo?


Múcio Leão, jornalista, crítico e escritor, nasceu em Recife, em 1898. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1969. Diplomou-se advogado pela tradicional Faculdade de Direito na cidade natal, em 1919. Fundou o jornal A Manhã, mantendo um caderno literário de destaque, Autores e livros (1941/1950).Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Livros publicados:


Poesia: Tesouro recôndito (1926); Os países inexistentes (1941).

Ensaio: Ensaios contemporâneos (1923); Emoção e harmonia (1952).

Romance: No fim do caminho (1930); Castigada (1934).