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terça-feira, 27 de agosto de 2024

Murilo Carvalho

 

       Com a narrativa alentada de O Rastro do Jaguar (prêmio Leya 2008), Murilo Carvalho insere-se no primeiro time dos nossos ficcionistas, consolidados nas três últimas décadas. O enredo articula-se em torno de um grupo de amigos que vivem em França, liderados por Pierre, um soldado do Exército francês, amante da música de Wagner, que alvoroça Paris. Ao perceber sua semelhança com o perfil de índios presos, Pierre decide vir ao Brasil para desvendar suas origens. Na raiz remota desta empreitada, a busca da própria identidade, inquieta-se um sujeito que, levado ainda criança do Brasil por Auguste de Saint’Hilaire, debate-se ante o dilema de se saber europeu (neto do naturalista francês) e descobrir que poderia ser um índio brasileiro. Conhece, na Europa, Gonçalves Dias, com quem troca ideias, cujos poemas românticos, com uma visão idealizada da cultura dos povos primitivos, admira. Ergue-se o poeta, como Auguste Saint'Hilaire o foi para os europeus, como o mediador entre nós e os índios. Após desembarcar em Salvador, Pierre encanta-se com o excesso de luminosidade, cores e cheiros: “O Brasil ali, com certeza, me parecia muito mais a África do que o Império que imaginávamos encontrar” (CARVALHO, 2009, 76). O protagonista é acompanhado por um jornalista português, Pereira, que aproveita a viagem para enviar artigos para o jornal francês Le Figaro; a ele, que se utiliza de anotações próprias e das de Pierre, além daquelas exaradas por historiadores, se deve a autoria do romance. O que, de partida, seria uma viagem de autoconhecimento transforma-se num extenuante périplo no solo brasileiro, à medida que o protagonista se vai avançando no sentido do interior, e concomitantemente, tomando contato com grupos de índios, flagrados em sua miserável realidade de raça exposta às múltiplas formas de exploração e extinção.

Olhei-os com vagar. Homens mirrados e imundos, mulheres quase nuas, parecendo ter os corpos montados com restos de couro velhos, curtidos por muitos verões e invernos; crianças de barrigas enormes e enormes cabeças, apáticas, sentadas nas sombras das árvores quase sem folhas, olhos parados como poças escuras, olhando sem direção alguma (CARVALHO, 2009,109).

       O deslocamento do litoral rumo ao interior converte-se na descoberta das complicações da seca, da aridez da terra e dos constantes conflitos entre os moradores de vilas e índios, em batalhas sangrentas e de extermínio. A crueldade e violência são traços que marcam tanto os indígenas, que atacam e trucidam aldeias à noite, enquanto os moradores dormem, como os soldados, portando armas sofisticadas. As imagens do sertão sucedem-se, descortinando um cenário de penúria, escassez e perigo: “Apenas um solo pedregoso, com plantas que pareciam de ferro fundido” (CARVALHO, 2009, 94); “O desconforto da sede e do calor, somado ao desconhecido, nos tira muito da capacidade de raciocinar corretamente; (…) Nós éramos, ali, invasores; caminhantes que só usavam aquele sertão como travessia; estávamos pagando o preço” (CARVALHO, 2009, 104-105). A narrativa segue o curso numa duplicidade estrutural, em que o relato se apresenta mesclado pelo discurso epistolográfico, representado pelas cartas enviadas pelo protagonista a amigos que ficaram na Europa. A lenta e progressiva extinção do povo indígena, vitimado por doenças e pelo exército, ocorre de forma paralela ao esmorecimento do sonho de Pierre de construir uma grande nação indígena. Os últimos alentos dessa utopia seriam revitalizados, em versão trágica, ao encontrar os guarani lutando para viver livres, na Guerra do Paraguai, quando índios, brasileiros, paraguaios e argentinos morrem aos milhares, entre a fúria e a barbárie. A dimensão de mito, reverenciada nas primeiras páginas, nas referências à ópera de Wagner, retorna, no final, endereçada à atuação de Pierre: “Depois o Jaguar montou seu cavalo e começou a descer a encosta em direção ao seu povo. Chegou ao vale quando a chuva estiava e os olhos de sol punham novos brilhos na relva. Virou-se e nos deu adeus. Nunca mais o vimos”. O sonho de criar uma nação indígena expõe-se em tonalidades utópicas que, aos poucos, vão se impregnando de alguma clarividência. O grande mérito reside no brado em prol das comunidades indígenas, condenadas à extinção, com o avanço da civilização branca, europeia.


CARVALHO, Murilo. O Rastro do Jaguar. São Paulo: Leya, 2009.