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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

180 anos de Eça de Queiroz

 

       Registro o agrado que me fez o livreiro Jair, da Fafich UFMG: doou-me uma rica edição que integra três romances de Eça de Queiroz (1845 – 1900): A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, O Mandarim. Um feito editorial de relevo, sob a chancela da Vila Rica. Motivo suficiente para justificar a releitura do grande romance. E homenagear o autor, nos seus180 anos.

          Folheando A ilustre casa de Ramires, me dou conta de um motivo literário. O narrador Gonçalo Mendes Ramiro, fidalgo de ínclita origem medieval, travestido de narrador, afirma: “labutava, empurrando a pena como lento arado em chão pedregoso” (QUEIROZ,1991, ICR,25). Estabelece a fusão do ofício de escrever ao do lavrador. Ao escrever, o escritor sulca as folhas de papel com a caneta, como se arasse o solo pátrio. O protagonista não perde oportunidade de pregar o “fortalecimento da autoridade da coroa e uma forte expansão colonial” (QUEIROZ,199, ICR,17). O estilo de Eça – original, elegante, sinuoso, rijo - resplandece. Para Vasco Graça Moura, este é o romance mais elaborado de Eça.

          Ao meio do capítulo V, após o episódio da visita da mulher do Casco, implorando a soltura do marido, Gonçalo atiça seu lado misericordioso. Na sequência, relaciona duas estampas visíveis no aposento: “à cabeceira, pendiam dois painéis, retratos de antigos Ramires, um bispo obeso folheando um fólio, um formoso cavaleiro de Malta, de barba ruiva apoiado à espada, com um laçarote de rendas sobre a couraça polida” (QUEIROZ,1991, ICR,138). A referência aos cavaleiros de Malta revela a importância da ilha italiana, palco de encarniçadas batalhas medievais, onde se enfrentaram nobres europeus de variada estirpe, incluindo portugueses.

          Há um consenso entre os críticos no sentido de compreender que A ilustre casa de Ramires, publicação póstuma (1900), recolhe, ficcionalmente recriadas, as reflexões e preocupações do autor a partir dos anos de 1890. Para Beatriz Berrini, “A Ilustre Casa de Ramires é talvez a obra ficcional eciana, posterior ao Ultimatum, em que mais se detectam, filtradas, as experiências e observações do escritor, vividas em Portugal ou fora dele, em 1890 e nos anos subsequentes” [1]. Na ficção, os eventos relacionados ao Ultimatum inglês são silenciados. Mas o passado histórico retorna, de forma crítica. E a África como objeto de exploração agrícola e mineral está presente, especialmente Moçambique. Retorno a Beatriz Berrini. “Para ser fiel à realidade portuguesa, a ser recriada pelo seu verbo, deveria Eça calar aqueles acontecimentos, que não mais repercutiam na nação, esquecidos e enterrados” [2]. O protagonista Gonçalo reveste-se de uma dimensão simbólica, ao representar o português colonizador: ele sonha com a África, vista como lugar exuberante, pródigo de mistérios, aventuras e riquezas. Assim a vê num sonho: “e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas dum prado da África, debaixo de coqueiros sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos de ouro” (QUEIROZ,1991, ICR, 48).

 



[1] BERARDINELLI, Cleonice et alii. 1992, 352-357.

[2] BERARDINELLI, Cleonice et alii. 1992, 352-357.

 

 BERARDINELLI, Cleonice et alii. XIII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa (Atas). Rio de Janeiro: UFRJ, 1992.

QUEIROZ, Eça de. A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, O Mandarim. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Vila Rica, 1991.


                         Photographia Contemporanea In O Contemporâneo, nº 108, Lisboa [1882], p. [1].

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