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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Maria Buschenthal

        Com uma pausa na matéria literária, trago uma nota, de perfil histórico, sobre uma bela mulher brasileira, que deslumbrou os salões da corte espanhola nas décadas de 1830 a 1850. Trata-se da lendária paulista Maria da Glória de Castro Delfim Pereira, esposa de um magnata, Joseph Buschenthal, empresário que manteve grandes negócios no Brasil e na Europa. Teria, na época do casamento (1830), treze anos: para alguns historiadores era irmã da Marquesa de Santos, uma das amantes de D. Pedro I; para outros (como Pedro Calmon), seria filha da Baronesa de Sorocaba, sobrinha de Domitila do Amaral. Nossos imperadores (D. Pedro I e o filho, D. Pedro II), como é sabido, foram ardorosos cultivadores de vários casos extra-conjugais.  Nos salões de casa de Buschenthal, em Madri, reunia-se a nata da aristocracia e da nobreza espanhola, em saraus de natureza cultural, nos quais assuntos políticos misturavam-se a empreendimentos financeiros. 


        José Buschenthal, o marido, frequentou, nos quatro anos que viveu no Brasil, a corte do primeiro império. Como banqueiro, efetuava transações com o Tesouro, enriqueceu com o monopólio da venda do sal, tendo participado no fornecimento de armas e uniformes ao exército brasileiro. José Bonifácio não simpatizava com ele e teria, certa vez, desabafado com  D. Pedro I: "Não vai entregar nas mãos de um traste (judeu) os meus interesses pecuniários". Na Espanha,como representante de banqueiros ingleses, trava conhecimento com o político e empresário José Salamanca, (Marquês de Salamanca), frequentador das reuniões em sua casa, com quem assina o financiamento de grandes obras.

    Quem me despertou a atenção para esta sedutora personagem, considerada  um elo do Brasil com a Espanha romântica de Isabel II, uma espécie de  'oculta imperatriz', foi Pedro Calmon, em artigo publicado no periódico Dom Casmurro (19 dez. 1942), resenhando o livro Em torno do casamento de D. Pedro II, de Argeu Guimarães.  Com a palavra Pedro Calmon: "Maria Buschenthal foi essa princesa enfeitiçada. Aguardou no seu sono extenso, que viesse despertá-la a curiosidade sábia dos que amam os arquivos, faíscam nessas minas poeirentas as joias da verdade pura, e por vezes - como aconteceu agora - levantam com a ponta da pena a tumba de um sepulcro e descerram o véu de um painel, para revelar ao público um personagem histórico que não devera morrer - da contraditória e injusta morte dos esquecidos. Agora os seus traços têm nitidez, a sua fisionomia esplendor e realidade, o seu gesto sobranceria e majestade, a sua crônica - o relevo internacional das intrigas sedutoras, das fadas dos salões galantes, das rainhas da moda que se davam ao luxo de fazer política no seu camarote da Ópera e nos seus bailes célebres.  Poucas mulheres nascidas no Brasil levaram tão longe e tão alto o talento natural, a ambição inocente, os sortilégios da formosura - que podemos admirar-lhe na tela clássica de Bernardo López, descoberta por Argeu Guimarães numa galeria nobre de Madri. Merecia, pois, um volume de prosa biográfica que lhe esmiuçasse a carreira feliz, do Rio Grande, onde nasceu, até a intimidade dos 'grandes de Espanha' - a modo de tantos outros retratos femininos que opulentam a literatura universal". 


CALMON, Pedro. Maria Buschenthal. Dom Casmurro, ed. 281, Rio de Janeiro,19 dez. 1942, p. 6.

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