Periódico carioca (1931-1939), O Boletim de Ariel, “mensário crítico bibliográfico”, retornou, na década de 70, ressuscitado por Afrânio Coutinho, embora sem o impacto e a relevância da primeira fase. Fundado por Gastão Cruls, manteve-se sob a sua Direção, tendo como Redator-chefe Agripino Grieco, no formato de revista mensal. O frontispício assegura os eixos principais – Literatura, Artes, Ciências – numa plataforma abrangente, tendo colaborações em diversas áreas, tais como Direito, História, Ciências Humanas e Políticas, Espetáculos (teatro, música e cinema); o tema predominante, no entanto, é Literatura. Marques Rebelo assina quase todas as matérias sobre música popular e discos. O Boletim de Ariel divulga os principais lançamentos, num leque variado de editoras, a Ariel, a Schmidt, a Civilização Brasileira, a Cia. Ed. Nacional, a Globo, a José Olympio. Cosmopolita, dedica colunas para as letras francesas, italianas e inglesas, notadamente nos primeiros números; alguns artigos se publicam em francês, como o discurso de saudação a S. Zweig, proferido por Mario Pimentel Brandão (out. 1936). O forte da matéria são as resenhas e pequenos ensaios abordando grandes nomes e vertentes de análise e interpretação; nos últimos anos acolheu produção ficcional. Não tem ilustrações, a não ser o desenho gracioso e ligeiro da capa, uma alegoria do mito de Ariel, símbolo do Espírito, patente na peça A tempestade, de Shakespeare. Um Conselho consultivo passa a compor o expediente, a meio tempo de sua existência. Da nota de apresentação, descontraída, “Conversa fiada”, assinada por G. Cruls, transcrevo este parágrafo: “Aqui, se também prepondera o mesmo espírito do escorço rápido e da nota despretensiosa acerca do que mais interessante e significativo ocorrer no mundo das letras, das ciências e das artes, tanto no Brasil como no estrangeiro, tudo se valorizará pelo nome dos seus signatários, sempre colaboradores de realce, escolhidos entre o que de melhor houver nas nossas elites intelectuais” (out. 1931).
De perfil aberto, agrega colaboradores de diversas facções do pensamento. Deu guarida à polêmica entre romance proletário versus romance psicológico, com artigos veementes de Jorge Amado e Aderbal Jurema defendendo o primeiro, Otávio de Faria e Lúcia Miguel Pereira apoiando a segunda opção. Graciliano Ramos, no periódico Observador econômico e Financeiro, havia acusado os romancistas católicos de alienados, praticantes de “espiritismo literário”, distanciados da “realidade do país”, simpatizantes de “sutilezas irredutíveis” e do “monstro reacionário, conhecido como alma”. Para Jorge Amado, os autores do romance intimistas fazem “masturbação intelectual”. Afirma que “com Otávio de Faria e José Lins do Rego, Lúcia Miguel Pereira formava o grande trio dos meios intelectuais da direita no Brasil” (resenha sobre Em Surdina, jan. 1934). Otávio de Faria, embora reconheça a importância de Graciliano Ramos (“o mais legítimo de nossos escritores”), critica o tom de documentário do romance social e o reducionismo praticado pelos autores: os ricos sempre se apresentam como maus, os pobres “bons”, idealizados (jan. 1933, jul. 1935). Dentre os colaboradores, destacam-se Afonso Arinos M. Franco, Afrânio Peixoto, Arnaldo Tabayá, Artur Coelho, Augusto Frederico Schmidt, Carolina Nabuco, Dante Costa, Edgard Cavalheiro, Eugênio Gomes, Francisco de Assis Barbosa, Francisco Venâncio Filho, Gilberto Amado, Gilberto Freyre, Jorge Amado, Jorge de Lima, José Lins do Rego, Lúcia Miguel Pereira, Luiz Aníbal Falcão, Luiz da Câmara Cascudo, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Raimundo Magalhães Jr., Raimundo Morais, Raquel de Queirós, Renato Almeida, Ribeiro Couto, Rodrigo Otávio Filho, Roquette-Pinto, Rubens Saldanha, Olívio Montenegro, Otávio de Faria, V. de Miranda Reis, Valdemar Cavalcanti.
O Boletim de Ariel pode ser confrontado com um periódico que estava para surgir, o suplemento literário Letras e Artes (1946-1954), do jornal A Manhã, uma década depois, ilustrado, com uma conceção gráfica mais leve, fatura visual menos compacta, mais concentrado nos eventos e produção literária da época. A ambos, muito deve a cultura brasileira, pela farta documentação e expansão de parâmetros, valores e referências. Coexistiu com outro periódico famoso, o Dom Casmurro (1937-1946), o mais eclético de todos: embora predominem a matéria literária e o intercâmbio com as letras da Europa, abrigava colunas de espetáculo, cinema, moda e esporte.

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