José Geraldo Vieira (1897-1977) confessa que foi num Carnaval que dois amigos sequestraram o rascunho de seu primeiro romance: “Augusto Frederico Schmidt e Hamilton Nogueira me arrebataram da minha gaveta, onde estava de vinhadalhos havia sete anos, A mulher que fugiu de Sodoma para o prelo das Edições Schmidt” (Letras e Artes, A Manhã, 16/03/1947). Em 1931, se deu a estreia, com A mulher que fugiu de Sodoma, a que se seguiram Território humano (1936), A quadragésima porta (1943), A túnica e os dados (1947), A ladeira da memória (1950), Terreno baldio (1961), alguns com tiragens superiores a quarenta mil exemplares.
O que se deu com este escritor indicia um progressivo esquecimento, um interesse em apagar seu legado, numa demonstração inequívoca de que, no país, nas últimas décadas, ocorreu o que muitos pesquisadores perceberam: “a cultura foi sendo rebaixada a instrumento de ideologia” segundo assertiva de Francisco Escorsim (posfácio). Para isso, muito contribuiu o abalizado crítico Antonio Candido. Rotular a sua obra de conservadora tem sido o recurso usado pela crítica sociológica, em tentativa de reduzir a relevância de uma escrita cosmopolita, de feição introspectiva e recorte universal, plasmada numa atmosfera erudita, com as inovações que lhe são próprias. Para Antonio Candido, o autor seria um intelectual deslumbrado pela Europa, “estrangeiro no próprio país”: “sonho de verão de um burguês recalcado, o seu romance é, intimamente, do ponto de vista ideológico, um fruto do idealismo burguês que caracterizou o nosso século até a presente guerra”; “Os heróis de José Geraldo Vieira hão de forçosamente contemplar mais o próprio umbigo do que o mundo”(A Brigada ligeira, 1945). O preconceito contra o romance introspectivo tem início aí. Uma espessa coluna socializante recobre os anos 30 a 50, impedindo de observar que o nosso romance passava por um rico processo de renovação, agregando outros discursos e novas técnicas, patentes nos melhores romances de Clarice Lispector, Lúcio Cardoso, Otávio de Faria, José Geraldo Vieira.
Cabe registrar com euforia a volta ao mercado de romances deste último, como A ladeira da memória. O esforço de análise de modulações interiores, a sondagem psicológica, os grandes planos, a reflexão sobre as ruínas urbanas, a abertura cosmopolita, uma sensibilidade ao ar decadente da aristocracia, a crítica às instituições, o gosto da ebulição urbana, o lugar da tecnologia na modernidade constituem traços de sua ficção. A ladeira da memória é o seu quinto romance, denso de atmosfera afetiva, vazado em estilo sugestivo, a despeito de algum preciosismo de vocabulário, de um gosto por divagações eruditas, sem descurar, no entanto, do cuidadoso desenvolvimento da intriga. Distancia-se de soluções dialéticas, adotando atalhos simbólicos, próximos de algum verniz simbolista."Respondo-lhe categoricamente que abranjo períodos, que só sei guiar com muitas rédeas, que não trabalho com personagens e sim com gerações" (VIEIRA, 2021, 83) Contemporâneo à eclosão da segunda grande guerra, o narrador desenvolve a narrativa, em duas direções: a tristeza diante da devastação imposta à França pelas tropas alemãs; noutra linha, registra outra mágoa que o aflige, a infecção descoberta na garganta de Renata, a amada proibida, após sucessivos exames de radiologia. Lançado em 1950, o romance resiste, como legítimo representante do romance psicológico com pretensões cosmopolitas, ricas descrições da vida de aristocratas, convivendo ao lado de miseráveis barracos ou antigos prédios invadidos. O tratamento dado à linguagem antecipa traços do estilo pop dos anos 70 (Roberto Drumond e a profusão de marcas, grifes e chancelas industriais).
VIEIRA, José Geraldo. A ladeira da memória. Campinas, SP: Sétimo selo, 2021.

Nenhum comentário:
Postar um comentário