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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Érico Veríssimo II

 

Érico Veríssimo II: alguma fortuna crítica

 

                Álvaro Lins, apesar de reconhecer o talento e o domínio da técnica romanesca de Érico Veríssimo, aponta certa concessão ao gosto do leitor. ”Pois qualquer crítica sobre este autor ilustre e consagrado deve começar necessariamente por reconhecer e dizer que ele possui um talento e um espírito de romancista. Não se trata de uma simples afirmativa, porém de uma conclusão que resulta evidente do seu romance Caminhos cruzados. (...) Sentia-se que ali estava um romance pensado, sentido, construído em bases muito formes e muito conscientes. E de tal modo que entre Caminhos Cruzados e Saga a distância se tornou realmente absurda. Parecem dois livros de dois autores diferentes. (...) Sendo certo, porém, que o Sr. Érico Veríssimo possui as qualidades do romancista, a consciência do seu ofício, o sendo da literatura – vale a pena acentuar que deve haver uma circunstância acidental perturbando a construção de sua obra. Esta circunstância estou certo que não errarei afirmando que é o sucesso público” (LINS, 1963, 221-222).

                Temístocles Linhares mantém reservas em relação ao romancista. “É um romancista razoável apenas. Meio superficial, sem problemas, empenhado ainda, nos velhos moldes, em fazer romance em torno de uma estória ou narrativa, de seu desenvolvimento, sem se transfigurar nunca em poeta, como acontece com os grandes romancistas. Não tem nada de complexo em sua personalidade de escritor. O seu livro não se funde em nenhum ato de fé importante, em seres intemporais, a exemplo do que acontece com Faulkner. O seu mundo é acanhado, despido de qualquer lampejo de gênio, que nos posso mostrar, por exemplo, quanto a vida é um incessante e perpétuo instante. O romancista não consegue jamais romper a trama dos fatos de que são prisioneiros os personagens. Neste livro Terra, nem sequer surge alguma figura feminina de interesse relativo que pudesse ser equiparada com Ana Terra, sem dúvida a maior criação do autor de O tempo e o vento. Não vejo portanto razão alguma para o barulho que se está fazendo com O Arquipélago. Efeitos da promoção comercial pura e simplesmente e não de alguma coisa de sólido e profundo destinado a marcar este pobre ano literário prestes a findar” (LINHARES, 2002, 265-266). Refere-se ao ano de 1961, por ocasião do lançamento de O arquipélago, terceira parte da saga.

Wilson Martins não hesita em elogiar a obra do autor de O tempo e o vento.  “Cedendo, por outro lado, ao esnobismo típico das vanguardas, os críticos brasileiros dos anos 30 decidiram tacitamente que o sucesso editorial do romancista era a prova de sua falta de qualidade, a história literária já teve tempo de demonstrar que o sucesso crítico de tantos outros não correspondia, em todos os casos, a uma prova da qualidade. A verdade é que, de todos os romancistas deste período, Érico Veríssimo foi, com certeza, o de maiores recursos técnicos, o de maior capacidade de renovação e aquele, afinal, a quem estava reservada a missão de revigorar o romance brasileiro, situando-o, num plano universal e literário incomparável” (MARTINS, 1973, 293).

Antonio Olinto reconhece, de imediato, a sólida performance do autor gaúcho: “Com mais de trinta anos de romancista profissional, tornou-se Érico Veríssimo conhecido na Europa, no continente africano, em toda a América Latina e, principalmente, no mundo de língua inglesa. Sua história mais popular, Olhai os lírios do campo, virou filme na Argentina.  Inquéritos feitos na Angola e em Moçambique demonstraram que Érico Veríssimo é o escritor mais lido naquelas partes da África. Para os inimigos da popularidade, isto é mau sinal. (...) E a verdade é, contudo, que não há critérios inalteráveis para o aferimento da obra de arte. Muito menos o da leitura: um livro muito lido tanto pode ser ótimo como péssimo” (OLINTO, 1966, 142). A seguir, detém-se no domínio de recurso técnico: “O principal traço da narrativa é o contraponto, um contraponto ondeante que assume ora a terceira pessoa, ora a primeira (nas páginas de Floriano e no diário de Sílvia), e pega quatro ou mais tempos de narrativa. O clima geral da história une tempo e espaço, num panorama que toca de vez em quando a fímbria do épico. O tempo romance é oscilante, batido pelo vento, numa técnica de extremas segurança e beleza, em que há ressonâncias de Virginia Woolf e Huxley (principalmente a Virginia de To the Lafhthouse). (OLINTO, 1966, 142).

Em Seara de romances, Oscar Mendes avalia quatro romances de Érico Veríssimo: Clarissa, Caminhos Cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo. “Caminhos cruzados, seu segundo romance, aparece-nos como obra já bem complexa, visando retratar mais cruamente aspectos realísticos da vida, mostrando-nos tipos mais complicados, sujeitos a paixões menos inocentes, com hipocrisias sociais refinadas. (...) Acresce que o sr. Érico Veríssimo possui notável habilidade na pintura de seus tipos. Tira-os da realidade com o tato e delicadeza de um colecionador de borboletas, a fim de não prejudicar-lhes o brilho das cores e o contorno das asas. O próprio tom de ironia com que descreve alguns é como uma tinta sutil que serve para acentuar alguns traços desbotados. E deixa-os viver e agitar-se. Não se imiscui no cérebro de toda a sua gente para perscrutar os problemas de sua psicologia. Por meio de um processo de contrastes entre gestos e pensamentos esboçados, de recordações e de sonhos, consegue patentear-nos algo da vida interior de seus personagens.” (MENDES, Oscar. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 93-94).

 

 

 LINHARES, Temístocles. Diário de um crítico. 1957 a 1963. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2002.

LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.

MARTINS, Wilson. O Modernismo. São Paulo: Cultrix, 1973.

MENDES, Oscar. Seara de romances. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982.

OLINTO, Antônio. Aa verdade da ficção. Rio de Janeiro: Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1966.



 


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