Érico Veríssimo II: alguma fortuna crítica
Álvaro
Lins, apesar de reconhecer o talento e o domínio da técnica romanesca de Érico
Veríssimo, aponta certa concessão ao gosto do leitor. ”Pois qualquer crítica
sobre este autor ilustre e consagrado deve começar necessariamente por
reconhecer e dizer que ele possui um talento e um espírito de romancista. Não
se trata de uma simples afirmativa, porém de uma conclusão que resulta evidente
do seu romance Caminhos cruzados. (...) Sentia-se que ali estava um
romance pensado, sentido, construído em bases muito formes e muito conscientes.
E de tal modo que entre Caminhos Cruzados e Saga a distância se
tornou realmente absurda. Parecem dois livros de dois autores diferentes. (...)
Sendo certo, porém, que o Sr. Érico Veríssimo possui as qualidades do
romancista, a consciência do seu ofício, o sendo da literatura – vale a pena
acentuar que deve haver uma circunstância acidental perturbando a construção de
sua obra. Esta circunstância estou certo que não errarei afirmando que é o
sucesso público” (LINS, 1963, 221-222).
Temístocles
Linhares mantém reservas em relação ao romancista. “É um romancista razoável apenas.
Meio superficial, sem problemas, empenhado ainda, nos velhos moldes, em fazer
romance em torno de uma estória ou narrativa, de seu desenvolvimento, sem se
transfigurar nunca em poeta, como acontece com os grandes romancistas. Não tem
nada de complexo em sua personalidade de escritor. O seu livro não se funde em
nenhum ato de fé importante, em seres intemporais, a exemplo do que acontece
com Faulkner. O seu mundo é acanhado, despido de qualquer lampejo de gênio, que
nos posso mostrar, por exemplo, quanto a vida é um incessante e perpétuo
instante. O romancista não consegue jamais romper a trama dos fatos de que são
prisioneiros os personagens. Neste livro Terra, nem sequer surge alguma figura
feminina de interesse relativo que pudesse ser equiparada com Ana Terra, sem
dúvida a maior criação do autor de O tempo e o vento. Não vejo portanto razão
alguma para o barulho que se está fazendo com O Arquipélago. Efeitos da
promoção comercial pura e simplesmente e não de alguma coisa de sólido e
profundo destinado a marcar este pobre ano literário prestes a findar” (LINHARES,
2002, 265-266). Refere-se ao ano de 1961, por ocasião do lançamento de O arquipélago,
terceira parte da saga.
Wilson
Martins não hesita em elogiar a obra do autor de O tempo e o vento. “Cedendo, por outro lado, ao esnobismo típico
das vanguardas, os críticos brasileiros dos anos 30 decidiram tacitamente que o
sucesso editorial do romancista era a prova de sua falta de qualidade, a
história literária já teve tempo de demonstrar que o sucesso crítico de tantos
outros não correspondia, em todos os casos, a uma prova da qualidade. A verdade
é que, de todos os romancistas deste período, Érico Veríssimo foi, com certeza,
o de maiores recursos técnicos, o de maior capacidade de renovação e aquele,
afinal, a quem estava reservada a missão de revigorar o romance brasileiro,
situando-o, num plano universal e literário incomparável” (MARTINS, 1973, 293).
Antonio
Olinto reconhece, de imediato, a sólida performance do autor gaúcho: “Com mais
de trinta anos de romancista profissional, tornou-se Érico Veríssimo conhecido
na Europa, no continente africano, em toda a América Latina e, principalmente,
no mundo de língua inglesa. Sua história mais popular, Olhai os lírios do
campo, virou filme na Argentina.
Inquéritos feitos na Angola e em Moçambique demonstraram que Érico
Veríssimo é o escritor mais lido naquelas partes da África. Para os inimigos da
popularidade, isto é mau sinal. (...) E a verdade é, contudo, que não há
critérios inalteráveis para o aferimento da obra de arte. Muito menos o da
leitura: um livro muito lido tanto pode ser ótimo como péssimo” (OLINTO, 1966,
142). A seguir, detém-se no domínio de recurso técnico: “O principal traço da
narrativa é o contraponto, um contraponto ondeante que assume ora a terceira
pessoa, ora a primeira (nas páginas de Floriano e no diário de Sílvia), e pega
quatro ou mais tempos de narrativa. O clima geral da história une tempo e
espaço, num panorama que toca de vez em quando a fímbria do épico. O tempo
romance é oscilante, batido pelo vento, numa técnica de extremas segurança e
beleza, em que há ressonâncias de Virginia Woolf e Huxley (principalmente a
Virginia de To the Lafhthouse). (OLINTO, 1966, 142).
Em Seara
de romances, Oscar Mendes avalia quatro romances de Érico Veríssimo: Clarissa,
Caminhos Cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo. “Caminhos
cruzados, seu segundo romance, aparece-nos como obra já bem complexa,
visando retratar mais cruamente aspectos realísticos da vida, mostrando-nos
tipos mais complicados, sujeitos a paixões menos inocentes, com hipocrisias
sociais refinadas. (...) Acresce que o sr. Érico Veríssimo possui notável
habilidade na pintura de seus tipos. Tira-os da realidade com o tato e
delicadeza de um colecionador de borboletas, a fim de não prejudicar-lhes o
brilho das cores e o contorno das asas. O próprio tom de ironia com que
descreve alguns é como uma tinta sutil que serve para acentuar alguns traços
desbotados. E deixa-os viver e agitar-se. Não se imiscui no cérebro de toda a
sua gente para perscrutar os problemas de sua psicologia. Por meio de um
processo de contrastes entre gestos e pensamentos esboçados, de recordações e
de sonhos, consegue patentear-nos algo da vida interior de seus personagens.”
(MENDES, Oscar. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 93-94).
LINS,
Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963.
MARTINS,
Wilson. O Modernismo. São Paulo: Cultrix, 1973.
MENDES,
Oscar. Seara de romances. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982.
OLINTO,
Antônio. Aa verdade da ficção. Rio de Janeiro: Cia. Brasileira de Artes
Gráficas, 1966.

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