“Cisnes
", de
Júlio Salusse
A
vida, manso lago azul, algumas
vezes,
algumas vezes mar fremente,
tem
sido para nós, constantemente,
um
lago azul sem ondas, sem espumas.
Sobre
ele,
quando, desfazendo brumas
matinais,
rompe um sol vermelho e quente,
nós
dois vogamos indolentemente
como
dois cisnes de alvacentas
plumas!
Um
dia, um cisne morrerá por certo...
Quando
chegar esse momento incerto
no
lago, onde talvez a água se tisne,
que
o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca
mais cante, nem sozinho nade,
nem
nade nunca ao lado de outro cisne.
Ao evocar o clássico soneto de Júlio Salusse (1872/1948), pelo qual o autor se celebrizou, indico alguns poemas de autores românticos brasileiros que podem ter sido as suas matrizes poéticas. O diálogo entre os textos, a intertextualidade, constitui uma prática assimilada pela literatura de todos os quadrantes, em todas as épocas. Sigo, neste roteiro, as sugestões expressas por Fausto Cunha, em artigo publicado em 1954.
A comparação de amantes – a si e à amada – a um par de cisnes a nadar em lago tranquilo é pródiga no Romantismo ocidental. Este e outros aspectos de semelhança e pontos de contato podem ser observados, no contexto romântico brasileiro, em Bernardo Guimarães, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Castro Alves, dentre outros.
Em Bernardo Guimarães, no poema “Primeiro sonho de amor”, (Cantos da Solidão, 2a. edição, 1858), observa-se a referência ao cisne no lago:
“Leva-a sobre o mar da vida,
Embalada em sonho ameno,
Como um cisne, que desliza,
À flor de um lago sereno”.
Em Fagundes Varela, em soneto constante de Vozes da América, (1864), transcrito integralmente, a amada é relacionada a um cisne nadando num lago:
“Eu passava a vida errante e vago,
Como o nauta perdido em noute escura.
Mas tu te ergueste peregrina e pura,
Como o cisne inspirado em manso lago.
Beijava a onda num soluço mago
Das moles plumas a brilhante alvura.
E a voz surgida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.
Vi-te e nas chamas de fervor profundo
A teus pés afoguei a mocidade,
Esquecido de mim, de Deus, do mundo.
Mas, ai! Cedo fugiste… Da soidade
Hoje te imploro desse amor tão fundo
Uma ideia, uma queixa, uma saudade”.
Em Casimiro de Abreu, no poema “Sempre sonhei” (Primaveras, 1858), derivado do poema citado de Varela, aflora o verso “Nós – dois cisnes vogando em manso lago”:
“Eu lhe iria mostrar nos hinos d’alma
Outro mundo, outro céu, outros vergéis.
Nossa vida seria um doce afago,
Nós – dois cisnes vogando em manso lago,
- Amor – nossos batéis”.
O motivo do cisne no lago é amplamente explorado também por Castro Alves. Como diz Fausto Cunha: “As Espumas flutuantes estão cheias de cisnes. Começarei por “Mocidade e morte” (1864), com aquelas célebres estâncias” (CUNHA, 1954):
“Morrer… quando este mundo é um paraíso.
E a alma um cisne de douradas plumas.
Não! O seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas”.
Outras ocorrências:
“Ia e vinha e seu passo era tão leve,
Tão garboso e sutil, aéreo e vago,
Como se o solo fosse um quieto lago,
E ela um cisne gentil, da cor da neve.” (Antônio Salles, “Ao luar”, Versos diversos, 1890)
“Seu coração me parecia um lago
Onde boiavam cisnes encantados”. (Luís Murat, “O Chalezinho”, 1888)
Júlio Salusse nasceu em 1872, na fazenda de Gonguy, município de Bom Jardim, RJ. Formou-se em Direito na capital do país. Publicou o livro de estreia em 1895, Nevrose Azul; o segundo, Sombras, é de 1901. Foi promotor em Paraíba do Sul e Nova Friburgo. Passa a morar no Rio de Janeiro, em 1907, onde faleceu em 1948.
CUNHA, Fausto. A outra história dos “Cisnes” de Salusse. Letras e Artes, Rio de Janeiro, 01/05/1954.
(Júlio Salusse, o primeiro à esquerda, e Nilo Bruzzi, em foto de 1947. Morreu trinta e oito dias após esta foto. Nilo Bruzzi, também poeta, escreveu a biografia de Salusse. Site da Academia Friburguense de Letras.)

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