Fragmentos de “O Sonho”, de Ana Luísa Amaral (1956-2022), poeta portuguesa falecida no último dia 5:
Vinha de trás,
daquela noite em que escrevera
os seus mais belos versos,
depois de ter reunido os conselheiros próximos
e decidido continuar as sementes
que seu pai havia já plantado
As dunas tinham sido a glosa a romper,
mas, após esses versos,
adormecera sobre a mesa
e sonhara um sonho de mar e marés bonançosas,
cheia de areia branca e arvoredos
No seu sonho não havia outra gente:
só a sua
(…)
E os navios do seu sonho
dariam nome a animais delicados
parecidos com nenúfares,
que vogavam à superfície das águas
(…)
Disse quem veio muito depois dele,
em seta pelo tempo,
que os ramos dos pinheiros e o cheiro a resina
entraram na feitura desses navios,
mas que era feito de carvalho
o tabuado do seu casco
Porém, ele acreditava, porque o sonhara,
que as formas esbeltas e doces
vogando à superfície das águas
levavam no futuro a sua gente
e vinham das sementes pensadas nessa noite
E, como os quase nenúfares azuis,
elas seguiam a sede da conquista.
Para a gente e na esteira
dos seus mais belos versos
AMARAL, Ana Luísa. Escuro. São Paulo: Iluminuras, 2015.

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