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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Ana Luísa Amaral (1956-2022)


Fragmentos de “O Sonho”, de Ana Luísa Amaral (1956-2022), poeta portuguesa falecida no último dia 5:


Vinha de trás,

daquela noite em que escrevera

os seus mais belos versos,

depois de ter reunido os conselheiros próximos

e decidido continuar as sementes

que seu pai havia já plantado


As dunas tinham sido a glosa a romper,

mas, após esses versos,

adormecera sobre a mesa

e sonhara um sonho de mar e marés bonançosas,

cheia de areia branca e arvoredos


No seu sonho não havia outra gente:

só a sua


(…)

E os navios do seu sonho

dariam nome a animais delicados

parecidos com nenúfares,

que vogavam à superfície das águas


(…)

Disse quem veio muito depois dele,

em seta pelo tempo,

que os ramos dos pinheiros e o cheiro a resina

entraram na feitura desses navios,

mas que era feito de carvalho

o tabuado do seu casco


Porém, ele acreditava, porque o sonhara,

que as formas esbeltas e doces

vogando à superfície das águas

levavam no futuro a sua gente

e vinham das sementes pensadas nessa noite


E, como os quase nenúfares azuis,

elas seguiam a sede da conquista.

Para a gente e na esteira

dos seus mais belos versos


AMARAL, Ana Luísa. Escuro. São Paulo: Iluminuras, 2015.


                                                      (Imagem: jornalnordeste.com)




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