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quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Mário de Andrade e João Etienne Filho


Em texto anterior, comentei as viagens de Mário de Andrade a Minas Gerais, em número de quatro: em 1919, para conhecer Alphonsus de Guimarães em Mariana; em 1924, na famosa caravana de intelectuais que agrupava Olívia G. Penteado, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, René Thiollier, o poeta francês Blaise Cendrars. Em 1939, fez a terceira visita, a convite do DCE, para proferir palestra na Universidade de Minas; em 1944, a última, para estreitar laços de amizade.

Dentre os amigos conhecidos em 1939, figura o jornalista e poeta João Etienne Filho (1918-1997), com o qual Mário depois haveria de manter uma correspondência, somando, entre  bilhetes, telegrama e cartas, uns quinze contatos. Publicaria, o autor mineiro, dois livros de poesia, Dia e noite (1947), As desesperanças (1957), os contos de Os tristes (1971), além de estudos críticos sobre Euclides da Cunha, João Alphonsus (col. Nossos Clássicos) e Cláudio M. da Costa.  Folheando o livro Cartas do irmão maior (1994), em que João Etienne reúne as cartas de Mário, percebe-se, meio por alto, a confidência de alguns tópicos da tumultuada relação entre o jovem escritor e modernistas mineiros. Em carta, Mário de Andrade aborda aspectos dessa relação, insinuando ter conhecimento de situações melindrosas que afetariam a suposta marginalização de Etienne em relação a alguns escritores de Minas. Como se pisasse em ovos, engenhosamente Mário que, num dos encontros com os mineiros, defendera o catolicismo do autor de Os tristes, manipula conceitos religiosos, num esforço de compreender os fatos. Apela para a atitude fortemente resignada, condenando a postura de católicos conformistas, citando passagens de orações, (“neste vale de lágrimas”, “mãe de misericórdia”), e para a sua própria fé católica, ainda que filtrada por uma ótica crítica. Fala, numa carta, a sexta, após referir-se à bondade que identifica no intelectual mineiro (“Meu querido Etienne// Querido e excessivamente bom. Você sofre excesso de bondade, não se modifique por favor, mas esse será seu castigo humano”), do risco de o católico se isolar no conformismo, contentando-se com um “Catolicismo consolador”: “É um erro, um perigo, que o Catolicismo, com C grande, não aprova. Cuidado com o Catolicismo consolador. Não tem nada pra deixar o indivíduo mais capaz de hipocrisia, de mediocridade, de humildade falsa. E de amargura...” Abomina a postura de resignação pacífica às contingências. Alguns incidentes biográficos, relacionados ao grupo de modernistas mineiros, transpostos posteriormente para a ficção (e penso no romance O encontro marcado, de Fernando Sabino) adicionam matizes positivos à aventura modernista de Etienne, por muitos reconhecido entre os personagens de Sabino.

Aproximar-se de Mário de Andrade, nos anos 30 e 40, quando o autor de Macunaíma e Pauliceia desvairada alcançara indiscutível renome nacional, significava algo muito produtivo para qualquer candidato a escritor. João Etienne Filho tem consciência disso, não se mostra surpreso diante da excessiva popularidade de Mário de Andrade, mas deixa no ar uma impressão de ter sido um amigo secundário, quase uma peça decorativa ao lado de outros escritores. Assim se expressa, ao recordar os nomes reunidos em torno de Mário: “Lá estávamos Alphonsus de Guimarães Filho, Nazareno Alphonsus, Carlos Castelo Branco, Wilson Castelo Branco, Júlio Barbosa, Emílio Moura, Otávio Dias Leite, Ildeu Brandão, mais alguns de que não me recordo”. Sabe-se que o grupo de mineiros que circularam ao redor de Mário, não necessariamente presentes em mesa de bar, aglutinava ainda: Sábato Magaldi, Oscar Mendes, Henriqueta Lisboa, Carlos Drummond de Andrade, Oneida Alvarenga, Edgard da Mata Machado, Murilo Rubião, Paulo Mendes Campos, Antônio Cândido, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Pedro Nava, Gustavo Capanema, Rodrigo de Melo Franco (os dois últimos, atuando no Rio de Janeiro na implantação da SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). João Etienne deixa documentado, no livro referido, o imenso crédito que devotava a Mário de Andrade, quando, através das cartas, descobre não apenas o incentivador, mas as franjas de trabalho e de depuração que envolvem o ofício literário.


ETIENNE FILHO, João. Cartas do Irmão Maior. Belo Horizonte: Maza Edições, 1994.



           (Alphonsus de Guimarães Filho, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Alexandre Drumond (em pé), Oscar Mendes, Mário de Andrade, João Etienne Filho (sentados). Imagem: Templo Cultural Dellfos)


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