A última impressão, após a leitura deste tomo do diário de Temístocles Linhares (de 1974 a 1976), é a de que, paradoxalmente, o autor tenha decidido, ao escrevê-lo, esquecer que era crítico literário. Na verdade, estamos diante de registros de um intelectual múltiplo, em que pesem os conhecimentos em diversas áreas das ciências humanas, como sociologia, geografia, artes plásticas, história, gastronomia, literatura e filosofia. Desta pauta extensa, resulta a produção de uma obra densa de reflexões e sínteses sobre os mais variados assuntos. Como seria de esperar, predominam as matérias culturais, embora não fiquem de fora observações relevantes sobre os bastidores da vida literária, o ambiente competitivo e mesquinho no âmbito das universidades, as notas de viagens e aspectos da política sul-americana (Panamá, Colômbia, Bolívia, Guatemala, Argentina). De um homem erudito, dono de um estilo objetivo, claro, direto, amante de bons restaurantes, bons hotéis e vinhos, que timbra em manter uma postura otimista diante da vida e do universo."Para que viver se a vida, em suas deliciosas exterioridades, não me contagia mais? Não, ainda amo a vida, a despeito de todo o meu ceticismo. Para ser mais exato, amo-a ceticamente, sem acreditar, é claro, na fátua ingenuidade dos que se julgam detentores de algumas fórmulas estereotipadas, ou seja, de chaves que abrem todas as portas, chaves que são antes gazuas" (LINHARES, 2001, 343). Proprietário de apartamento em Montevidéu, o autor passa longas temporadas no Uruguai, país sobre o qual emite informes e opiniões aparentemente fundamentadas. Embora não concorde inteiramente com suas preferências, reconheço a importância de aquilatar suas posições diante da evolução da literatura brasileira e sul americana e sua dedicação atenta à prática da escrita:
"A faculdade de expressão e representação é sempre o maior tormento de quem escreve. Sentimos e experimentamos coisas que, expressas ou representadas, ficam longe da tradução real, perdendo em substância, na linguagem escrita, muito do que queriam significar. Escrever é mesmo ofício difícil e que exige exercício diário. (...) O que este diário tem de sedutor para mim - confesso-o mais uma vez - é o seu tom de nonchalance, de despreocupação, em que as minhas incoerências e contradições, sem falar nas antiguidades que elas comportam, se acotovelam e se entrechocam, brigando muitas vezes entre si mesmas, sem nenhum espírito de censura a detê-las. Isto é admirável, quero crer" (LINHARES, 2001, 81).
Certa intolerância com a vanguarda, a excessiva valorização dos clássicos apoiam-se no fator indiscutível da escolha operada pelos parâmetros ligados ao cânone: "Isento de paixões, de qualquer espécie de parti-pris, o tempo se encarrega de superar o joio do trigo, atravessando incólume épocas dubitativas e céticas. Os autores consagrados pelo tempo - e isso não significa que eles não não possam ser reexaminados e revistos - são indiscutivelmente superiores aos atuais, que ainda não passaram por essa prova de fogo. É certo que, entre os antigos, também houve maus escritores, como seria natural. Acontece, porém, que a estes não é dado mais interessar-nos, esquecidos geralmente como se encontram. Mas o tempo não se engana? O tempo, no caso, não é apenas a sucessão cronológica, é antes a duração das coisas submetidas aos julgamentos dos contemporâneos e dos pósteros, independente de modas ou escolas" (LINHARES, 2001, 275).
Bem informado, culto, aberto a vários ramos do saber, amante da democracia, embora conservador e agnóstico, o autor elabora um painel cultural da América Latina, ainda que difuso, ratificando a importância da pesquisa em todos os níveis do conhecimento, capazes de vislumbrar novos ângulos de recorte. Credite-se um merecido reconhecimento ao estado do Paraná, que, por meio da Secretaria de Justiça e Cidadania, fez editar esta obra no seu conjunto.
LINHARES, Temístocles. Diário de um crítico. Vol. IV. Curitiba: Imprensa Oficial, 2001.
Visto no conjunto de seus 6 volumes, observam-se repetições cansativas, tropeços grosseiros, sínteses atabalhoadas de contextos políticos, posturas superficiais, a par de certa arrogância em alguns comentários. Este o risco de se publicar obras (póstumas) de grande fôlego, escritas por autores de perfil crítico mediano. Imperdoável, no caso específico do vol. V, a atribuição equivocada da autoria do alentado título História da literatura portuguesa a um tal de José Antonio Saraiva. A autoria deste livro deve-se a Antonio José Saraiva, de parceria com Oscar Lopes. Da coleção, talvez o vol. IV, objeto da síntese apresentada, seja o exemplar mais cuidado.
Visto no conjunto de seus 6 volumes, observam-se repetições cansativas, tropeços grosseiros, sínteses atabalhoadas de contextos políticos, posturas superficiais, a par de certa arrogância em alguns comentários. Este o risco de se publicar obras (póstumas) de grande fôlego, escritas por autores de perfil crítico mediano. Imperdoável, no caso específico do vol. V, a atribuição equivocada da autoria do alentado título História da literatura portuguesa a um tal de José Antonio Saraiva. A autoria deste livro deve-se a Antonio José Saraiva, de parceria com Oscar Lopes. Da coleção, talvez o vol. IV, objeto da síntese apresentada, seja o exemplar mais cuidado.

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