Em tempo de intolerância e submissão ao politicamente correto, as pessoas vão se fechando, se mutilando de certa forma. No plano intelectual, o mesmo ocorre. Teme-se ficar isolado, por não cerrar fileiras com nomes que uma militância de passeatas considera iluminados. Não é o meu caso. Com muito gosto, continuo prezando nomes que admiro. Para proveito espiritual, divulgo uma página de meu atual guru, aliás, nunca deixou de ser para mim um pensador digno de respeito: Gustavo Corção. Trata-se de um recorte, retirado de um contexto mais amplo. Desta forma, partilho com todos os melhores votos de Feliz Natal e bem sucedido Ano Novo.
"Alguns escritores modernos, discípulos de Kierkegaard ou Unamuno, ou pelo menos impregnados da filosofia dos contrários, têm procurado analisar um fenômeno que chamam de conflito ou agonia dos católicos. Ora, esse fenômeno não existe. Na pessoa dum sujeito que confessa o catolicismo pode ter lugar, e até admito que isso seja frequente; mas esse fenômeno só existe na medida de uma insuficiência, isto é, no momento em que o sujeito se desvia do cânon cristão. O núcleo ontológico da vida cristã está metido numa batalha, empenhado entre os pólos da vida e da morte, entre uma exinanição e uma exaltação; cada vida cristã é uma crucificação que dura sessenta anos. Mas a essência mesma dessa vida, enquanto cristã, não é dialética. Seria o mesmo erro dizer que um parto é um conflito: realmente ele se passa entre dores, realmente as últimas dores têm um papel preponderante na dinâmica do parto, mas seria uma estranha concepção ginecológica atribuir às dores o mérito do recém-nascido.
É comum dizer também das artes que o conflito é o verdadeiro autor, sinônimo de fecundidade, motor de todas as obras. Há muita obra de arte que não passa disto e que se afirma como a continuação de uma luta interior e que ostenta assim uma beleza conseguida pelas marcas do fórceps.
Quanto à vida da inteligência, o mundo moderno, cartesiano impenitente, julga que seus fundamentos estão na dúvida filosófica e daí resulta pensarem alguns comentadores do catolicismo que nossa fé começa também assim e que nós nos gloriamos nessa vibração íntima, nessa discussão interior que consegue, à custa de certa disciplina, produzir o fato exterior de uma vida piedosa. É preciso insistir muito neste ponto: para nós o fundamento da inteligência não é a dúvida, mas a absoluta certeza. Depois dessa certeza vem então uma dúvida feita de prudência, vêm os problemas de consciência, as hesitações de que nossa vida está cheia. Há uma prodigiosa diferença entre as duas posições do problema. Imagine o leitor que está prisioneiro numa cela escura; se é cartesiano, põe-se a duvidar que exista uma porta de saída ou até que exista a própria cela, e conforme o temperamento, ou soltará gritos de desespero batendo com a cabeça nas paredes, ou se sentará no chão confortando-se com o crer em si mesmo; se é cristão e tem fé, sabe com absoluta certeza que existe uma porta, com uma certeza que excede sua visão e sua inteligência, sabe que existe saída porque ouviu e tem absoluta confiança na boa notícia, mas apesar disso ainda tateia, ainda hesita, ainda caminha no escuro e esbarra nas paredes. A dúvida cristã não ofende a objetividade, mas se interpõe em nosso caminho obrigando-nos a uma prudência em todas as nossas obras".
(CORÇÃO, 2017, p.118-119)
CORÇÃO, Gustavo. A descoberta do outro. Campinas: Vide, 2017.

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