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sábado, 16 de novembro de 2019

Cyro dos Anjos


       Livro do mês:

         A menina do sobrado, memórias de Cyro dos Anjos, ocupou meu tempo de leitura no mês passado. O autor substitui a real Montes Claros por uma cidade fictícia, Santana do Rio Verde, desfigurando o fundo de veracidade das recordações. Recoberto por uma densa moldura mitológica, o resultado mostra-se embelezado por uma postura excessivamente literária e erudita. Nas raras remissões a personalidades conhecidas, estas figuras mostram-se idealizadas, toldadas de auréolas. Fica a impressão de que o passado recuperado que se apresenta teria sido retocado por várias camadas de tinta, numa operação de sucessivas modificações e reparos seletivos. Nesses casos, o rescaldo da memória costuma azedar, como o leite da roça. O livro envelheceu, pelo excesso de moldura literária. O que teria funcionado de forma exemplar em O amanuense Belmiro, relato de um episódio revisitado com o suporte da espontaneidade e da simplicidade narrativa, em A menina do sobrado, virou técnica indiscriminada, recurso usado de forma preciosista, manipulado pelo intuito de adornar os feitos descritos. O narrador exercita-se, no mais das vezes, em rebuscar o estilo, esparzindo adereços barrocos aqui e ali. Há, no entanto, se bem que em menor incidência, capítulos notáveis, vazados em linguagem simples, sem exageros ornamentais, como o capítulo 36 (que replica o título), da segunda parte, ao narrar uma viagem de trem que aproxima dois adolescentes enamorados. Nesta parte, o narrador mergulha na descoberta da sexualidade, visitações a bordéis e a fitas de cinema da década de 20, o gosto de publicar as primícias literárias, forjando um divertido painel de sua geração. As constantes oposições entre o amor físico e o espiritual aborrecem, enfim. Embevecido pela cidade grande, o narrador descreve: “...passeei na Praça da Liberdade, que me pôs de queixo caído com os lagos, pontes rústicas e sobretudo com a miniatura, em concreto, do pico do Itacolomi” (ANJOS, 1999, 143).



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        Há, evidentemente, controvérsias a respeito desta avaliação. Há quem admire de forma incondicional estas memórias. Dentre outros, o rol de admiradores inclui Aurélio Buarque de Holanda, que, no discurso de recepção a Cyro dos Anjos na Academia Brasileira de Letras, cita diversas passagens do livro. Desse texto, disponível no site da ABL, cito esta passagem. “Montes Claros, a cidade natal do memorialista, aparece, na obra, como Santana do Rio Verde, pela razão” – e aqui ele recorre a palavras de Maritain - “de que o poeta, à semelhança do menino, entende que, chamando as coisas pelo nome de sua predileção, consegue domesticá-las e com elas construir o seu paraíso”. O narrador afirma, no cap. 7, interessar-se apenas pela “essência das lembranças”. Para Aurélio B. de Holanda, o narrador teria sido convincente na mudança de nome da cidade natal, “liberta da geografia e da história para atingir a sua verdadeira essência”.


ANJOS, Cyro dos. A menina do sobrado. Rio de Janeiro: Garnier, 1999.

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