Livro do mês:
A menina do sobrado, memórias
de Cyro dos Anjos, ocupou meu tempo de leitura no mês passado. O
autor substitui a real Montes Claros por uma cidade fictícia,
Santana do Rio Verde, desfigurando o fundo de veracidade das
recordações. Recoberto por uma densa moldura mitológica, o
resultado mostra-se embelezado por uma postura excessivamente
literária e erudita. Nas raras
remissões a personalidades conhecidas, estas figuras
mostram-se idealizadas, toldadas de auréolas. Fica a impressão de
que o passado recuperado que se apresenta teria sido retocado por
várias camadas de tinta, numa operação de sucessivas modificações
e reparos seletivos. Nesses casos, o rescaldo da memória costuma
azedar, como o leite da roça. O livro envelheceu, pelo excesso de
moldura literária. O que teria funcionado de forma exemplar em O
amanuense Belmiro, relato de um
episódio revisitado com o suporte da espontaneidade e da
simplicidade narrativa, em A menina do sobrado,
virou técnica indiscriminada, recurso usado de forma preciosista,
manipulado pelo intuito de adornar os feitos descritos. O narrador
exercita-se, no mais das vezes, em rebuscar o estilo, esparzindo
adereços barrocos aqui e ali. Há, no entanto, se bem que em menor
incidência, capítulos notáveis, vazados em linguagem simples, sem
exageros ornamentais, como o capítulo 36 (que
replica o título), da
segunda parte, ao narrar uma viagem de trem que aproxima dois
adolescentes enamorados. Nesta parte, o narrador mergulha na descoberta da sexualidade,
visitações a bordéis e a fitas de cinema da década de 20, o gosto
de publicar as primícias literárias, forjando um divertido painel
de sua geração. As constantes oposições entre o amor físico e o espiritual aborrecem, enfim. Embevecido
pela cidade grande, o narrador descreve: “...passeei na Praça da
Liberdade, que me pôs de queixo caído com os lagos, pontes rústicas
e sobretudo com a miniatura, em concreto, do pico do Itacolomi”
(ANJOS, 1999, 143).
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Há, evidentemente, controvérsias
a respeito desta avaliação. Há quem admire de forma incondicional
estas memórias. Dentre outros, o rol de admiradores inclui Aurélio
Buarque de Holanda, que, no discurso de recepção a Cyro dos Anjos na
Academia Brasileira de Letras, cita diversas passagens
do livro. Desse texto,
disponível no site da ABL, cito esta passagem. “Montes Claros, a
cidade natal do memorialista, aparece, na obra, como Santana do Rio
Verde, pela razão” – e aqui ele recorre a palavras de Maritain -
“de que o poeta, à semelhança do menino, entende que, chamando as
coisas pelo nome de sua predileção, consegue domesticá-las e com
elas construir o seu paraíso”. O narrador afirma, no cap. 7,
interessar-se apenas pela “essência das lembranças”. Para
Aurélio B. de Holanda, o narrador teria sido convincente na mudança
de nome da cidade natal, “liberta da geografia e da história para
atingir a sua verdadeira essência”.
ANJOS,
Cyro dos. A menina do sobrado. Rio
de Janeiro: Garnier, 1999.

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