A coleção Nossos Clássicos, da Editora Agir, importante referência para os estudos literários no Brasil, nasceu estigmatizada por uma polêmica. Dela tivera notícia há mais tempo, através de depoimento do escritor português Adolfo Casais Monteiro. Em síntese, grosseiramente, a polêmica começa quando os editores da Agir decidem criar, tendo como modelo séries francesas, uma coleção antológica didática, de grandes autores da literatura em língua portuguesa, designada Nossos Clássicos. O primeiro volume foi dedicado a Fernando Pessoa, tendo em vista que foi o primeiro original entregue - esta a versão de Adolfo Casais Monteiro, por sinal, autor do estudo crítico. Transcrevo a posição deste autor luso:
"Não temos procuração da Editora Agir, nem dos nossos amigos Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Correia, que dirigem essa coleção, para a defender. Não temos outra razão senão o nosso pasmo. Incidentalmente, cremos todavia dar sossego ao crítico que, além de outras coisas, achou grave que esse volume fosse o primeiro; a esse podemos dizer que, segundo supomos, assim sucedeu por... ter sido o primeiro entregue. Mas a questão da prioridade não é nada, comparada à que levanta a de fronteiras" (MONTEIRO, 1961, 139-140).
Esta questão diz respeito a uma parcela da crítica brasileira, que argumentava que Eça de Queirós era o último autor português a exercer efetiva influência na literatura brasileira, a qual, a partir de 1900, teria alcançado sua autonomia plena. Rios de tinta foram gastos para discutir a ideia de autonomia e de nacionalismo na literatura brasileira; são conhecidas as posturas de especialistas, como Antonio Candido, Afrânio Coutinho. Atenho-me à polêmica específica em torno da coleção da Agir. Devolvo a palavra a Casais Monteiro:
"Mesmo o absurdo tem explicação, e esta só pode estar realmente naquela ideia de que a cultura portuguesa acabou, e que, a partir de Eça (o último em data ao qual um dos críticos concede o especial obséquio de ainda poder ser nosso), passou a haver entre as duas literaturas... total incompatibilidade de gênios. Assim, todavia, o imprudente crítico cria a perigosa dúvida de só existir literatura brasileira de 1900 para cá; o que não estava, certamente, no seu espírito, mas é, todavia, a necessária conclusão da sua demarcação de fronteiras" (MONTEIRO, 1961, 140).
A discussão não acaba aí. Casais Monteiro prossegue, argumentando que a posição defendida pelo crítico brasileiro teria "fundações de areia, e não de terra, como ele queria. Porque os nossos clássicos são, indiscutivelmente, os que ficam clássicos para uma cultura e uma língua, e não apenas para uma literatura, no sentido mais restrito da palavra. Não é por restringir os seus limites que uma literatura ganha autonomia, mas sim pela capacidade de evoluir na sua esfera própria dentro do grupo cultural a que pertence. Não é por exclusão, mas por inclusão, que se ganha qualquer espécie de independência" (MONTEIRO, 1961, 140).
Só recentemente tive conhecimento de que o crítico brasileiro seria o paranaense Temístocles Linhares, lendo o seu diário. No dia 1 de agosto de 1957, registra: "Ontem, na Agir, discuti um pouco sobre a coleção Nossos Clássicos de cuja orientação discordo. Acho inconveniente misturar as duas literaturas, bastante diferentes já" (LINHARES, 2002, 19). No registro de 3 de fevereiro de 1958, assim se expressa: "Tristão de Athayde procurou defender ontem a orientação (ou falta de orientação) seguida pela coleção Nossos Clássicos, de que é um dos diretores, e que foi objeto de alguns comentários tecidos por mim há tempos. (...) Quanto ao caso de Fernando Pessoa inaugurar a coleção, o argumento é de cabo de esquadra: foi porque os originais se apresentaram em primeiro lugar! Adolfo Casais Monteiro já se justificara no mesmo sentido, o que prova a falta de orientação adotada" (LINHARES, 2002, 49-50).
LINHARES, Temístocles. Diário de um crítico. Vol. I, (de 1956 a 1963). Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2002.
MONTEIRO, Adolfo Casais. Tradição, Cultura e Autonomia Nacional. Clareza e mistério da crítica. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.

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