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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Josué Montello

Livro do mês

                                                      (Imagem: levyleiloeiro.com.br)

      Josué Montello (1917- 2006) ocupa, nas letras nacionais, um singular espaço, em decorrência de diversificada e rica produção. Romancista, dramaturgo, ensaísta, memorialista, cronista, espraia-se em vários modos expressivos. O próprio escritor, ao apresentar este Diário da manhã encarrega-se de esclarecer: “Orientei-me, ainda moço, para a literatura, convivendo mais com os livros e o papel da escrita do que com os companheiros de geração. Talvez isso explique, simultaneamente, a extensão de minha obra e a inquietação de minhas leituras” (Montello, 1984, 9).
      As anotações e os registros que permeiam o seu diário, impregnados da atmosfera do tempo (1952-1957), acabam repassados de sinais emotivos e de efeitos inusitados, monitorados por um emissor afeito às astúcias da ficção. Agrega as qualidades de memorialista e os méritos de ficionista experiente. E produz páginas no calor dos eventos, capazes de interessar não apenas ao leitor comum, mas ao sociólogo e pesquisador social. O périplo às moradas de acadêmicos, no âmbito de sua campanha pelo ingresso na ABL, serve de motivo para o esboço analítico da obra de alguns escritores, representativos das décadas de 50 e 60 (Afonso Arinos, Gustavo Barroso, João Neves da Fontoura, Viriato Correia, Manuel Bandeira, Álvaro Lins, Osvaldo Orico, Viana Moog, Jorge de Lima). Os perfis delineados não se reduzem a referência fria, Graciliano Ramos, por exemplo, é flagrado na Livraria José Olympio “rindo, quase a sufocar-se com a fumaça de seu cigarro Selma” (Montello,1984, 184). Retrata a Academia Brasileira de Letras como lugar de reconhecimento de méritos, mas também de intrigas, invejas, despeito e ressentimento. A morte trágica de Getúlio Vargas (24 de agosto de 1954) paralisa o país: “Mais do que uma figura política, Vargas é uma figura histórica para a minha geração. Todo um largo período de vida brasileira o envolve, e é ele quem domina a cena, ainda moço, na Revolução de 1930, para continuar a dominá-la ainda agora, já velho, no derradeiro lance de sua biografia. (…) Foi ao encontro das massas operárias, dando-lhes um novo estatuto, por intermédio de uma legislação social mais humana. Defendeu o petróleo brasileiro, no momento em que os técnicos estrangeiros se recusavam a admiti-lo. Prendeu Graciliano Ramos? Sim. Levou ao extremo as luas contra adversários? Também é verdade. Sufocou a imprensa, canalizando-a para o culto da personalidade através do DIP? Perfeitamente. Mas não era o homem dos rancores irremovíveis. Eu próprio, acusado de duras críticas à sua pessoa e ao seu governo, estava a receber dele, agora, os votos que me levariam à Academia – assim como nomeou fiscal de ensino ao Graciliano Ramos, logo que o restituiu à liberdade” (Montello,1984, 281-282). Integrante do secretariado de Juscelino Kubitschek, o autor reporta passagens relacionadas ao criador de Brasília: “… veio da extrema pobreza e venceu sucessivos obstáculos para chegar à Presidência da República pelo voto popular, não se desfigurou ou transfigurou ao longo de seus triunfos. Aperta a mão do barbeiro como abraça o presidente do Senado - com a mesma naturalidade” (Montello,1984, 432). O aprendiz de teoria literária, o aspirante ao ofício de escritor não experimentam a sensação de perda de tempo. Pelo contrário, sempre se aprende com um bom escritor: "Cada geração tem uma curiosidade própria, constituída por suas angústias e aspirações. Quando o escritor se faz intérprete dessas angústias e aspirações, ajusta-se a seu tempo, e encontra o seu público"  (Montello,1984, 634).
      
      Mais do que notas asséticas e inexpressivas, Montello brinda-nos ainda com páginas elaboradas, refinadas impressões derivadas de leituras, da convivência com grandes personalidades e do fervor gerado por alguns mestres da escrita ou cidades especiais, como Paris, recriada em quadros de pinceladas excessivas.

Montello, Josué. Diário da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

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