Livro do mês
Josué
Montello (1917-2006) ocupa, nas letras nacionais, um singular espaço,
em decorrência de diversificada e rica produção. Romancista, com extensa obra, de mais de vinte títulos, dramaturgo, ensaísta, memorialista, cronista, espraia-se em vários
modos expressivos. O próprio escritor, ao apresentar este Diário
da manhã encarrega-se de
esclarecer: “Orientei-me, ainda moço, para a literatura,
convivendo mais com os livros e o papel da escrita do que com os
companheiros de geração. Talvez isso explique, simultaneamente, a
extensão de minha obra e a inquietação de minhas leituras”
(Montello, 1984, 9).
As
anotações e os registros que
permeiam o seu diário, impregnados da atmosfera do tempo
(1952-1957), acabam repassados
de sinais emotivos e de
efeitos inusitados, monitorados por um emissor afeito às astúcias
da ficção. Agrega
as qualidades de memorialista e os méritos de ficcionista experiente. E produz
páginas no calor dos eventos, capazes
de interessar
não apenas ao leitor comum, mas ao sociólogo e pesquisador social.
O périplo às moradas de
acadêmicos, no âmbito de sua campanha pelo ingresso na ABL, serve
de motivo para o esboço analítico da obra de alguns escritores,
representativos das décadas de 50 e 60 (Afonso Arinos, Gustavo
Barroso, João Neves da Fontoura, Viriato Correia, Manuel Bandeira,
Álvaro Lins, Osvaldo Orico, Viana
Moog, Jorge de Lima). Os perfis delineados não se reduzem a
referência fria, Graciliano Ramos, por exemplo, é flagrado
na Livraria José Olympio “rindo, quase a sufocar-se com a fumaça
de seu cigarro Selma” (Montello,1984,
184). Retrata a Academia
Brasileira de Letras como
lugar de reconhecimento de
méritos, mas também de
intrigas, invejas, despeito e ressentimento. A
morte trágica de Getúlio Vargas (24 de agosto de 1954) paralisa o
país: “Mais do que uma figura política, Vargas é uma figura
histórica para a minha geração. Todo um largo período de vida
brasileira o envolve, e é ele quem domina a cena, ainda moço, na
Revolução de 1930, para continuar a dominá-la ainda agora,
já velho, no derradeiro lance de sua biografia. (…) Foi ao
encontro das massas operárias, dando-lhes um novo estatuto, por
intermédio de uma legislação social mais humana. Defendeu o
petróleo brasileiro, no momento
em que os técnicos estrangeiros se recusavam a admiti-lo. (...) Mas não era o
homem dos rancores irremovíveis. Eu próprio, acusado de duras
críticas à sua pessoa e ao seu governo, estava a receber dele,
agora, os votos que me levariam à Academia – assim como nomeou
fiscal de ensino ao Graciliano Ramos, logo que o restituiu à
liberdade” (Montello,1984, 281-282). Integrante
do secretariado de Juscelino Kubitschek, o autor reporta passagens
relacionadas ao criador de Brasília: “… veio da extrema pobreza
e venceu sucessivos obstáculos para chegar à Presidência da
República pelo voto popular, não se desfigurou ou transfigurou ao
longo de seus triunfos. Aperta a mão do barbeiro como abraça o
presidente do Senado - com a mesma naturalidade” (Montello,1984,
432). O aprendiz de teoria literária, o aspirante ao ofício de escritor não experimentam a sensação de perda de tempo. Pelo contrário, sempre se aprende com um bom escritor: "Cada geração tem uma curiosidade própria, constituída por suas angústias e aspirações. Quando o escritor se faz intérprete dessas angústias e aspirações, ajusta-se a seu tempo, e encontra o seu público" (Montello,1984, 634).
Mais
do que notas asséticas
e inexpressivas, Montello brinda-nos ainda
com páginas
elaboradas, refinadas impressões derivadas de leituras, da convivência com grandes personalidades e do fervor gerado por alguns mestres da escrita ou cidades especiais, como Paris, recriada em quadros de pinceladas excessivas.
Montello,
Josué. Diário da manhã. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

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