Em recente evento, realizado em Divinópolis, capitaneado por Osvaldo André de Melo, entre debates sobre poesia e intercâmbio, quis o acaso que me caísse às mãos um belo livro de poemas. Com capa florida de Yara Tupinambá, escrito por Maria da Conceição Elói, traz um despretensioso título - Arca, arcazes e baús. Embora desponte aqui como livro do mês, na verdade foi lançado em 1978. Vem, em decorrência de seu contexto, marcado por contingências propícias ao florescimento de uma geração especialmente ungida para o labor poético, em Divinópolis, divulgando nomes até hoje importantes no cenário da poesia brasileira: Fernando Teixeira, Lázaro Barreto, Sebastião Milagre, Osvaldo André de Mello, Adélia Prado e outros, sem esquecer a autora referida. As circunstâncias que dizem respeito à evolução poética não ocorrem arbitrariamente, apresentam-se encadeadas, num misterioso desígnio, cujo alcance e sentido ultrapassam os limites da coincidência. Desse contexto fazem parte a convivência, a pesquisa individual e o esforço coletivo de criação em torno do fenômeno da poesia. Não ocorrem de forma inconsequente as artimanhas dos deuses da arte. De outro lado, como explicar a sucessão de liames singulares, a junção de estrelas propícias numa via-láctea luminosa, a comemoração do centenário da morte de um grande poeta (Olavo Bilac), ocorrida neste ano de 2018, o reencontro de pessoas aparentemente dispersas?
Todo este preâmbulo visa a repisar uma noção básica: nada ocorre de forma isolada. Os eventos culturais ligam-se obscuramente a ditames superiores: a estreia literária de Adélia Prado, a mais expressiva poeta brasileira da atualidade (Bagagem, 1976) decorria de um ambiente propício à criação artística no centro-oeste mineiro. Mas o foco agora tenta entender parte da criação poética de Maria da Conceição Elói, neste seu segundo momento, na sequência do volume anterior, Luz ausente. No prefácio, Yeda Prates Bernis assevera: "Temperamento delicado e ansioso de beleza, a autora vai tecendo seu canto em tempo de nostalgia e em tentativa constante de reconstruir um passado que, inexorável, jamais voltará". Com certeza, estamos diante de um canto entoado em registro melancólico, em face de um mundo inóspito, em relação às conquistas do espírito: "trago para junto de mim, / o passado, / descortinado / guardado na memória" (segundo poema da coletânea, "Magia"). Além de resgatar guardados, trastes antigos, baús domésticos, os objetos dos antepassados, as relíquias coloniais e familiares, os poemas desta arca buscam desvendar o "véu de nostalgia" que os torna românticos e sonhadores. Instalados em "tampos de vinhático / e base de jacarandá", os vestígios do passado, mais do que ornamentos decorativos, como "painel variado de emoções / moldura para a nostalgia" (em "Caraça") encharcados de vivências, fitam-nos com um fundo sentido histórico e religioso.
ELÓI, Maria da Conceição. Arcas, arcazes e baús. Belo Horizonte: Ed. Comunicação, 1978.

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