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sexta-feira, 8 de junho de 2018

Vivaldi Moreira

     Livro do mês

      A rubrica acima não intenta indiciar obras máximas da cultura, colhe um título lido recentemente. Por algum motivo impôs-se entre outros igualmente disponíveis. Vivaldi Moreira (1912-2001) foi por muitos anos presidente da Academia Mineira de Letras, conhecida como “Casa de Vivaldi”, em reconhecimento à efetiva atuação cultural por ele exercida (a preservação da casa Borges da Costa, uma das mais belas do início do século em Belo Horizonte, a construção da sede da AML). Autor de um livro emblemático no memorialismo brasileiro, O menino da mata e seu cão piloto (1981), entre outros do gênero e este curioso Viagens, no qual por ora me debruço brevemente.


      Capitulei diante do estilo culto, límpido, refinado, algo retorcido, de Vivaldi Moreira. Relatar viagens realizadas por si só não motiva geralmente o leitor. Neste caso, o diferencial vai por conta do estilo elaborado e reflexivo. Antes de contar a viagem a Buenos Aires, o “bordejo pelo Prata”, o autor nos delicia com alguns comentários ambíguos, discutindo se vale a pena ou não continuar. “Rogo-vos, pois, perdoar-me se vos falo de coisas sabidas. Eu sei que todos as sabem. É que estou cheio, estou repleto de Rio da Prata” (MOREIRA, 1996, 28). E emenda, a seguir: “Paisagens, aspectos, sim, mas só ficam se houver reflexão sustentando o arcabouço. Descrever, só, é tarefa infantil” (MOREIRA, 1996, 45). Na sequência, já fomos fisgados e acompanhamos o périplo, ou bordejo, do autor por cidades da América do Sul, Buenos Aires, Montevidéo, e da Península Ibérica, as portuguesas Lisboa, Porto, Lamego, Alcobaça, Leiria, Évora, e as de Espanha, Madrid, Ávila, Salamanca. Os lugares visitados tornam-se pretextos para a digressão em torno de grandes vultos originários da região, acrescida de situações pitorescas, flagrantes colhidos do contato com a gente, os monumentos e a paisagem física. Tudo pontilhado por associações com um rico acervo de conhecimento adquirido em vasta leitura de clássicos. A fundamentar todo esse precioso arquivo, sólidas bases de cultura histórica, repassadas vez por outra por uma discreta pitada de poesia. “A Europa é uma re-visão, é um reconhecimento e não uma descoberta” (MOREIRA, 1996, 184). As notas de viagens misturam-se a páginas de diário, deitadas no papel por um homem maduro, marcado pelo desencanto, ilustrado e tocado desde jovem pela febre da escrita, em suma, “trôpegas reflexões de um pobre diabo que gastou sua vida procurando aprimorar a expressão verbal, para mitigar a dor de haver nascido” (MOREIRA, 1996, 180).


MOREIRA, Vivaldi. Viagens. Belo Horizonte: Edições Caraifas, 1996.

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