A
rubrica acima não intenta indiciar obras máximas da cultura,
colhe um título lido recentemente. Por algum motivo impôs-se entre
outros igualmente disponíveis. Vivaldi Moreira (1912-2001) foi por
muitos anos presidente da Academia Mineira de Letras, conhecida como
“Casa de Vivaldi”, cujos membros têm o hábito de considerá-lo "Presidente Perpétuo", em reconhecimento à efetiva atuação
cultural por ele exercida (a preservação da casa Borges da Costa,
uma das mais belas do início do século em Belo Horizonte, a
construção da sede da AML). Autor de um livro emblemático no
memorialismo brasileiro, O menino da mata e seu cão piloto
(1981), entre outros do
gênero e este curioso Viagens,
no qual por ora me debruço brevemente.
Capitulei
diante do estilo culto, límpido, refinado, algo retorcido, de
Vivaldi Moreira. Relatar viagens realizadas por si só não motiva
geralmente o leitor. Neste caso, o diferencial vai por conta das peculiaridades do lugar ou do
estilo elaborado e reflexivo. Antes de contar a viagem a Buenos
Aires, o “bordejo pelo Prata”, o autor nos delicia com alguns
comentários ambíguos, discutindo se vale a pena ou não continuar.
“Rogo-vos, pois, perdoar-me se vos falo de coisas sabidas. Eu sei
que todos as sabem. É que estou cheio, estou repleto de Rio da
Prata” (MOREIRA, 1996, 28). E emenda, a seguir: “Paisagens,
aspectos, sim, mas só ficam se houver reflexão sustentando o
arcabouço. Descrever, só, é tarefa infantil” (MOREIRA, 1996,
45). Na sequência, já fomos fisgados e acompanhamos o périplo, ou
bordejo, do autor por cidades da América do Sul, (Buenos Aires,
Montevidéo); da Península Ibérica, (as portuguesas Lisboa, Porto,
Lamego, Alcobaça, Leiria, Évora); e as de Espanha, (Madrid, Ávila,
Salamanca). Os lugares visitados tornam-se pretextos para a digressão
em torno de grandes vultos originários da região, acrescida de
situações pitorescas, flagrantes colhidos do contato com a gente,
os monumentos e a paisagem física. A estadia em Buçaco encanta o narrador, maravilhado diante da beleza natural dos jardins, "namorando o arco-íris da natureza nas rosas", cujas espécies vêm citadas em oito linhas, numa descrição detalhada. Tudo pontilhado por associações
com um rico acervo de conhecimento adquirido em vasta leitura de
clássicos, ou do interesse pelas artes, como a referência a seu estado, "extasiado", diante do quadro "Enterro do Conde de Orgaz", de El Greco, em Toledo. A fundamentar todo esse precioso arquivo, sólidas bases
de cultura histórica, repassadas vez por outra por uma discreta
pitada de poesia. “A Europa é uma re-visão, é um reconhecimento
e não uma descoberta” (MOREIRA, 1996, 184). As notas de viagens
misturam-se a páginas de diário, deitadas no papel por um homem
maduro, marcado pelo desencanto, ilustrado e tocado desde jovem pela
febre da escrita, em suma, “trôpegas reflexões de um pobre diabo
que gastou sua vida procurando aprimorar a expressão verbal, para
mitigar a dor de haver nascido” (MOREIRA, 1996, 180).
MOREIRA,
Vivaldi. Viagens. Belo
Horizonte: Edições Caraifas, 1996.

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