No variado leque de
possibilidades oferecidas pelo gênero, temos o diário cultural, o
diário familiar, o diário íntimo, o diário político, entre
outros. Em Diário
I, difícil é o reino, de
Walmir Ayala, (capa de Loio Persio) encontramo-nos diante de uma mistura do diário íntimo
com o cultural; dois
volumes se sucederam a este.
Publicado em 1962, pelas
edições
GRD, este livro coloca-nos, por conta do extraordinário fingimento
proporcionado pela literatura, em contato com os eventos, as
peripécias, os contatos, os encontros, os pensamentos, os projetos
literários da época, os amores do escritor à altura dos últimos
anos
da
década anterior e o início dos anos 60, um gaúcho que abandonou
Porto Alegre ainda jovem e veio para o Rio de Janeiro para dedicar-se
à carreira de escritor. Dedicou-se a vários gêneros,
tendo-se se destacado como poeta, dramaturgo,
romancista,
diarista e bem sucedido crítico de artes plásticas, na
grande imprensa carioca nas três últimas décadas do século XX. Escreveu ainda mais de uma dúzia de livros infantojuvenis.
Ao
se dispor a registrar as efemérides pessoais,
os apontamentos reflexivos sobre si e os outros, o autor de um diário
acaba por revelar aspectos decisivos de sua postura intelectual e
literária. Amigo íntimo de Lúcio Cardoso, com quem conviveu
alguns anos, e de sua irmã, Lelena, (Maria Helena Cardoso), Walmir Ayala (1933-1991) revela, neste diário, seus primeiros anos no Rio de Janeiro, as
amizades que se foram consolidando, as estreias como poeta,
dramaturgo e romancista. E sobretudo, a euforia e as mágoas
decorrentes de sua opção pelo homoerotismo, posição perante a
própria sexualidade assumida com serenidade e integridade. Algumas
reflexões se ressentem de uma certa espessura dramática, como calha a um dramaturgo: “Eu
me achava munido de uma defesa contra a insensatez do amor – agora
aqui me encontro, um animal ferido, sorvendo aos haustos o último ar
do mundo” (AYALA, 1962, 28). Talvez
tenha sido o nosso último grande outsider,
vibrante de metáforas inquietas, ensimesmadas, ousado no embate com
sua própria interioridade, por vezes dilacerada. Logo no início,
retomando o título, escreve: “Difícil é o reino, ninguém atinge
os cavalos e os férteis campos, sem que isto lhes signifique uma
custosa renúncia. Difícil
é o reino, de se construir, de se respirar sua profunda realidade,
seu organismo cotidiano – os panos de prato, os canteiros onde é
preciso extirpar os maus capins, a poeira que é preciso varrer, o
pão com manteiga de que se faz a infância, e o casaco de pelúcia
aquecendo como carícia de mãe. Difícil é o reino da solidão, o
que começa assim.”(AYALA,
1962, 12).
(Foto: www.escritas org.)
AYALA,
Walmir. Diário
I – difícil é o reino. Rio
de Janeiro: Edições GRD, 1962.


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