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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Walmir Ayala

               Livro do mês:

      No variado leque de possibilidades oferecidas pelo gênero, temos o diário cultural, o diário familiar, o diário íntimo, o diário político, entre outros. Em Diário I, difícil é o reino, de Walmir Ayala, (capa de Loio Persio) encontramo-nos diante de uma mistura do diário íntimo com o cultural; dois volumes se sucederam a este. Publicado em 1962, pelas edições GRD, este livro coloca-nos, por conta do extraordinário fingimento proporcionado pela literatura, em contato com os eventos, as peripécias, os contatos, os encontros, os pensamentos, os projetos literários da época, os amores do escritor à altura dos últimos anos da década anterior e o início dos anos 60, um gaúcho que abandonou Porto Alegre ainda jovem e veio para o Rio de Janeiro para dedicar-se à carreira de escritor. Dedicou-se a vários gêneros, tendo-se se destacado como poeta, dramaturgo, romancista, diarista e bem sucedido crítico de artes plásticas, na grande imprensa carioca nas três últimas décadas do século XX. Escreveu ainda mais de uma dúzia de livros infantojuvenis.



      Ao se dispor a registrar as efemérides pessoais, os apontamentos reflexivos sobre si e os outros, o autor de um diário acaba por revelar aspectos decisivos de sua postura intelectual e literária. Amigo íntimo de Lúcio Cardoso, com quem conviveu alguns anos, e de sua irmã,  Lelena, (Maria Helena Cardoso), Walmir Ayala (1933-1991) revela, neste diário, seus primeiros anos no Rio de Janeiro, as amizades que se foram consolidando, as estreias como poeta, dramaturgo e romancista. E sobretudo, a euforia e as mágoas decorrentes de sua opção pelo homoerotismo, posição perante a própria sexualidade assumida com serenidade e integridade. Algumas reflexões se ressentem de uma certa espessura dramática, como calha a um dramaturgo: “Eu me achava munido de uma defesa contra a insensatez do amor – agora aqui me encontro, um animal ferido, sorvendo aos haustos o último ar do mundo” (AYALA, 1962, 28). Talvez tenha sido o nosso último grande outsider, vibrante de metáforas inquietas, ensimesmadas, ousado no embate com sua própria interioridade, por vezes dilacerada. Logo no início, retomando o título, escreve: “Difícil é o reino, ninguém atinge os cavalos e os férteis campos, sem que isto lhes signifique uma custosa renúncia. Difícil é o reino, de se construir, de se respirar sua profunda realidade, seu organismo cotidiano – os panos de prato, os canteiros onde é preciso extirpar os maus capins, a poeira que é preciso varrer, o pão com manteiga de que se faz a infância, e o casaco de pelúcia aquecendo como carícia de mãe. Difícil é o reino da solidão, o que começa assim.”(AYALA, 1962, 12).

                                                 (Foto: www.escritas org.)
      O esforço de produzir uma escrita como depoimento de uma época, sem deixar de auscultar o mundo interior, os conflitos existenciais, acarreta uma corajosa postura, no sentido de se desnudar e se revelar em público. Walmir Ayala não se intimida diante desse compromisso. No seu caso, a válvula positiva, a ferramenta doadora de equilíbrio chama-se fé, espiritualidade: “Hoje no mosteiro de São Bento, o impacto com a magnificência da casa de Deus, que me reduziu ao mínimo, e deixou bem evidente uma presença invisível. Pelo menos me proporcionou ambiência à comunicação do mistério do Ser total no que me sinto integrado, e com o qual estou comprometido” (AYALA, 1962, 59). Noutro registro:

Porque é orando que se espera. Porque se sabe que algo virá – alguém. Então se reza. E as mãos realizam um curioso ritual de objetivos em favor do esperado. Às vezes se coloca uma rosa num copo de opalina, ou se estica a colcha de toalha azul sobre o divã, e se frequenta o espelho atrás de aparências que não duram (porque a espera inclui também aquela meia-hora entre a hora marcada e a chegada – e então tudo começa a apodrecer, a ruir dentro da gente, e se transpira no corpo e na alma um suor ácido de frustração que nos faz desejar num momento: “Que não venha ...”Às vezes vem, às vezes não. De ambas as maneiras deixa após si os detritos de uma permanência sem reciprocidade). (AYALA, 1962, 13).

      Os críticos literários têm o vezo de dispensar a consciência expressa pelos autores em seus textos Recorto a seguinte confidência, importante no que esclarece sobre seu método ao explicitar a veia discursiva de sua poesia: “Meu livro, pela sinceridade, talvez, comova. Não me preocupei em construir o poema (não sabia disso ainda) mas em comunicar poesia… e era tanta a que me vinha. Acho os meus poemas desimportantes, por isso. Que interessa aos outros o meu encontro com um maravilhoso gato, e a presença dele na minha solidão daquela noite? A universalidade é difícil, principalmente para o poeta, tão voltado para si mesmo” (AYALA, 1962, 27). Ao longo do diário, dois grandes eixos vão se firmando: o exercício da escrita, a busca amorosa. Sobre o primeiro tema, transcrevo mais duas passagens: “Vou aos concursos sempre, porque não sou editor, e não acredito que os editores me escutem porque não sou o que se chama um autor comercial” (AYALA, 1962, 86). Sobre seus poemas, anota: “A só aglutinação de palavras, a só presença delas no poema, não me satisfaz. Por mais que se pregue a desdramatização (e isto me parece útil) não me convence o extremo de transformar o poema em relatório das coisas, e o poeta em suposta voz de Adão chamando o Ser do fundo do seu poema. O poema deve ter um nó de síntese, deve definir alguma coisa referida quer no título quer nas entrelinhas do verso, mas deve” (AYALA, 1962, 30-31).

AYALA, Walmir. Diário I – difícil é o reino. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1962.


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