Livro do mês:
Poesia toda
Os
grandes livros de poemas não são lidos de uma assentada. Vão sendo
lidos aos poucos, de vagar, como devem ser. A eles voltamos com
frequência e muito gosto. Com Poesia toda, de
Herberto Helder
(1930-2015), não foi diferente. Sempre que me via carente de bons
poemas, voltava
ao tijolão de 575 páginas. O que se seguia eram instantes de puro
encantamento e renovado prazer.
Herberto
Helder, possuidor de uma escrita exuberante e hermética, volta-se
para o resgate de energias arquetípicas em A colher na
boca (1961), A
máquina lírica (1964), O
bebedor noturno (1968), Cobra
(1977),
A cabeça entre as mãos (1982).
Segundo Natália Correia, “A poesia de Herberto Helder, sempre
obsessiva, reflete como que um imenso orgasmo sem fim. Nela, a
mulher – o gênero, mais que o amor individualizado – é a musa
universal, receptáculo dos seus excessos e do êxtase que o projeta
numa insaciável tensão. Daí, a corrosão de um erotismo que nele é
visceral, orgiástico, e que mais não cessa, qual canto cósmico da
atitude de amar e da presença matriarcal” (CORREIA, 1999, 455).
A
expressão dessa voz lírica arrojada, de um fôlego desmedido, vem
desde o primeiro livro revelando-se dotada de uma dimensão mágica e
cosmológica, nomeando e
exaltando o corpo feminino como força aglutinadora de energias
universais:
“Dai-me
uma jovem mulher, com sua harpa de sombra
e
seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei
a noite.
Dai-me
uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do
sorriso de um momento.
Mulher
quase incriada, mas com a gravidade
de
dois seios, com o peso lúbrico e triste
da
boca. Seus ombros beijarei.
Cantar?
Longamente cantar.
Uma
mulher com quem beber e morrer.
Quando
fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o
atravessar trespassada por um grito marítimo
e
o pão for invadido pelas ondas -
seu
corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele
– imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de
alegria e de impudor.
Seu
corpo arderá para mim
sobre
um lençol mordido por flores com água.
Em
cada mulher existe uma morte silenciosa.
E
enquanto ao dorso imagina, sob os dedos,
os
bordões da melodia,
a
morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se
em embriaguez dentro do coração faminto.
-
Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher
de pés no branco, transportadora
da
morte e da alegria.
Dai-me
uma mulher tão nova como a resina
e
o cheiro da terra.
Com
uma flecha em meu flanco, cantarei.
E
enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei
seu sorriso ardendo,
suas
mamas de pura substância,
a
curva quente dos cabelos.
Beberei
sua boca, para depois cantar a morte
e
a alegria da morte”.
(…)
(HELDER,
1990, 18-19)
O
efeito em mim produzido pela poesia de Herberto Helder corresponde
antes a um mergulho num discurso matizado de efeitos fantásticos e
cognitivos, mais
do que uma passiva fruição de uma delirante montagem de imagens.
Percebi nos seus poemas uma recolha de associações oníricas, mais
do que um inventário de práticas poéticas cristalizadas. Uma
inusitada capacidade de dizer coisas simples e belas, ao mesmo tempo,
algo como -
“Somente
o mundo é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da
carne
aos laços
das constelações. (…)
Porque o corpo é uma gruta de onde saltam
os sóis, uma insônia que liga
o dia ao dia,
pelos jardins trespassando os estúdios
ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
astros brancos”.
(HELDER, 1990, 376)
“E
há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
às janelas
as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
do espelho de onde salta
uma braçada de luz. Cada lenço que ata
a própria seda do lenço
o desata”.
(HELDER, 1990, 364)
Como se a leitura só pudesse
alcançar sua efetiva evolução se
nos despíssemos, nos desnudássemos forçosamente do arcabouço
lógico. Então era aceitar o
desafio: enveredar sem freios numa desordenada aventura verbal, executada com pleno domínio de ritmo, sem
desvios sintáticos e sobressaltos sentimentais. A leitura de
Herberto Helder demanda um ajuste no sentido de codificar um
discurso de exaltada espessura subjetiva e alargada densidade
emotiva. Até 2015, era
considerado o maior poeta português vivo, com todo o merecimento.
CORREIA, Natália. Antologia de poesia portuguesa erótica e
satírica. 3a. ed. Lisboa: Antígona & Frenesi,
1999.
HELDER, Herberto. Poesia toda. Lisboa: Assírio & Alvim,
1990.
PEREIRA, Edgard; OLIVEIRA, Paulo Motta; OLIVEIRA, Silvana M. Pessôa
de. Intersecções – ensaios de literatura portuguesa.
Campinas: Komedi, 2002.

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