Livro do mês
Compete
às sagas
serem portadoras dos valores e apreensões do contexto em que foram
escritas. No caso de A
república dos sonhos, depara-se
o leitor com uma visão de mundo esfacelada pelo arbítrio de uma
ditadura, a um tempo impiedosa diante da corrupção e dos movimentos
libertários. O Brasil, como república de sonhos, expõe-se como
território recetivo aos imigrantes, ao mesmo tempo em que se
busca
reescrever seu fantasioso passado de impunidade, de prodigalidade
inquieta, fonte de oportunidades e expectativa de desenvolvimento. O
mito da terra provedora, de riquezas inesgotáveis, perpassa ao longo
dos capítulos da trama: “Era
hora de voltar a escavar as terras brasileiras, em busca de tesouros.
Sempre teve certeza de encontrá-los” (PIÑON, 2015,126).
Adquira aqui o seu exemplar.
A
paisagem ensolarada de Galícia paira sobre as personagens que de lá
saíram, na ilusão de se enriquecerem numa América coroada de
fartura e extravagância. Em
polos opostos, movimentam-se os protagonistas Madruga e Venâncio. Em
Madruga presenciamos a sedução pela aventura numa América
construída em sonhos, cultivados por uma desenfreada ambição: “De
resto, sou ainda um estrangeiro nesta terra, sob permanente suspeita.
Meu único sonho é conquistar o Brasil” (PIÑON,
2015,168).
O
apelo da aventura, envolta nas asas da cobiça, norteia os seus
movimentos, ao se deparar com as oportunidades de trabalho e riqueza.
Viver
no Brasil para Venâncio só se justifica se puder projetar nos
elementos naturais a lembrança comovida de sua terra
distante:
“Quantas
vezes, desta varanda do Leblon, poderiam
eles, em seguidos exercícios de imaginação, alcançar a Galícia
em rápidas braçadas, levados apenas pelos alísios, favoráveis à
navegação”
(PIÑON,
2015,301).
Galego aqui exilado, europeu que se deixa aos poucos e com
dificuldade contaminar pela cultura tropical, compõe um diário,
importante documento de interpretação de hábitos e costumes
brasileiros: “Ninguém aqui se isenta facilmente dos apelos
sexuais. Eles ganham forma pela manhã, sem hora de se esgotar”
(PIÑON,
2015,390).
O
lento e gradativo processo que encaminha Venâncio à loucura produz
devastadora destruição no ânimo de Madruga, o antigo amigo de
todos os dias. “Os motivos que atraíram Venâncio à América
divergiam frontalmente dos seus. Ele não viera de tão longe para
esburacar a terra pelas manhãs, criando bolhas e feridas pelo corpo,
em busca de um tesouro. O único tesouro de
Venâncio consistia em preservar o direito ao sonho” (PIÑON,
2015,252).
A
produção de um romance vigilante em relação ao tempo de sua
escrita – e numa dimensão grandiosa – acarreta alguns ajustes de
contas ao autor. Um deles, inarredável, diz respeito à aceitação
resignada da impotência de sua geração diante da avassaladora
opressão instalada pelo estado autoritário. Vários blocos
narrativos
alternam-se, sem que a linguagem tendente ao poético e às
digressões reflexivas se modifique. Projeto
arrojado, complexo, realizado numa extraordinária combinação de
sabedoria e excepcional
domínio de recursos.
A
lenta e extenuante agonia de Eulália atravessa todo o relato que se
alastra esmiuçando as escaramuças
familiares,
a
agrura de viver num espaço a princípio inóspito e os
expedientes adotados pelos imigrantes no esforço de adaptação à
nova terra. Personagens
reais misturam-se aos fictícios, com os quais se moldam
harmoniosamente, como os botões novos ocupam o lugar antes ocupado
por outros que se perderam. Santiago Dantas, Manuel
Bandeira, Getúlio Vargas ocupam algumas páginas com sua aura
histórica polida, sem influenciar a sequência da trama, convocados
a compor um canto da moldura de um quadro previamente esboçado. Ao
narrador multifacetado não escapam
as sutilezas dos pequenos gestos, nem a desmedida das grandes
empreitadas.
PIÑON,
Nélida. A
república dos sonhos. Rio
de Janeiro: Record, 2015. (Edição
comemorativa dos 30 anos)

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